Uma doce despedida

Juliana, 35 anos, 1 filha


Desde que minha filha Helena voltou para os braços de Deus em 15 de janeiro de 2016, eu venho buscando relatos de outras mães que também perderam seus bebês para que eu pudesse me confortar. Assim como encontrei muitas respostas a partir do que li, gostaria também de ajudar com meu relato. Mas da mesma forma que a minha Helena é especial e única, eu quero que este relato também seja único.

Eu tenho duas maneiras de contar nossa história:
1- relatar todo sofrimento e angústia dos 51 dias que ela passou na UTI ( e sei que muitas mães se identificariam com cada palavra que eu compartilhasse, e que tantas outras se comoveriam intensamente com tudo que padecemos ali) ou
2- contar como meu amor pela Helena transformou essa história de 51 dias de luta na história mais linda e emocionante que vivi!
Eu optei por fazer da vida da Helena um conto de alegrias e não de lágrimas!
Desde que me dei conta de que ela não conheceria o quarto lindo que eu e seu pai montamos pra ela, resolvi que faria da UTI o seu cantinho especial. Já no terceiro dia de internação, levei uma foto minha e de seu pai para colocar no bercinho dela, levei também laços, sapatos, luvas e coeiros. A Lele não seria a RN de Juliana, nem o bebê do leito 14… Não precisou de muito tempo para eu começar a ser reconhecida como “a mãe da Helena” e para o meu bebê ser chamado de “a menininha mais charmosa da UTI”. Eu fazia questão de personalizar, customizar e ajustar tudo que era dela, inclusive a fita crepe de identificação do seu potinho de leite na qual eu sempre desenhava um rostinho feliz.
Nós (eu , meu marido e nossa branquinha) fomos construindo um amor imenso e que hoje transborda do meu coração. Nós choramos muito a nossa perda, sofremos demais por não tê-la conosco, mas decidimos não viver essa tristeza por muito tempo.
Ela nos ensinou que planos são destruídos de forma muito fácil e rápida, planos esses que nos fizeram perder dias e dias arquitetando-os: Quanto tempo você perde planejando algo para daqui um ano? E quanto tempo você dedicou ao seu amor hoje?
A Helena nos mostrou que perdemos tempo demais guardando dinheiro, trabalhando até tarde para isso e muitas vezes deixando de lado a nossa família, e aí vem uma doença que dinheiro nenhum no mundo é capaz de curar!
Minha filha mostrou quem são meus amigos de verdade e que muitos deles falam comigo poucas vezes no ano, mas estão pensando em mim sempre!
Quanta coisa linda construí com ela, e por ela, que tinha cheirinho de esparadrapo, chorava baixinho, tinha os cabelos negros e olhos de jaboticaba!
É justo então eu ficar aqui contando só sobre a dor e as angústias de uma UTI? É justo ficar procurando respostas para perguntas como: por que comigo? Por que tinha que ser assim? Não!
Eu quero que todo mundo que venha até mim para saber como estou, saia da nossa conversa e corra para o seu marido, esposa, filhos ou pais e os olhe bem no fundo dos seus olhos e digam: te amo… Porque a vida é feita de momentos e eles passam rápido demais!
Contei histórias para ela que mostravam que Deus é sempre justo e nos dá tudo o que precisamos, nem mais e nem menos. Cantei músicas que nos ensinavam que o sol pode até dar lugar para a chuva, mas era só para que as flores pudessem brotar. Expliquei o sentido real do Natal, ensinei sobre amor ao próximo, sobre justiça das aflições. Pedi desculpas quando fraquejei… Tudo isso porque eu tinha que retribuir tantos ensinamentos que ela me proporcionou!
Que bom que aprendi! Que bom que ensinei! Que bom que a passagem da nossa filha não foi em vão! Que bom ser sua mãe, Helena!

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