DEFESA DA VIDA? SERÁ MESMO?

Luciene. 2 anjos. Pedagoga. 36 anos


DEFESA DA VIDA? SERÁ MESMO?

Antes de mais nada afirmo que sou, pessoalmente, totalmente contra o aborto. Nunca fiz, nunca faria e ainda faria tudo ao meu alcance para ajudar uma mulher a não fazer esta opção de vida que acredito ser muito traumática. Mas isso sou eu e não me acho no direito de julgar a mulher que provoca um aborto, pois só ela sabe de seus sentimentos, de sua realidade, de seus limites, enfim, é uma decisão para a vida dela e do filho dela e não da minha, por mais triste que eu possa ficar. A uma mulher que provoca aborto não apontaria o dedo, e sim daria um abraço e a diria “sinto muito por você ter tido que passar por isso”. Duvido muito que com a legalização do aborto ele vá se transformar em “método anticoncepcional” como ouço dizer por aí, afinal, quem é que vai preferir passar por um aborto a evitar uma gravidez indesejada? Alguém vai ligar para a amiga e dizer “nossa, fiz um aborto hoje e foi ótimo, faz um também no mês que vem”? Duvido muito!

Enfim, o que quero falar é sobre o quanto acho hipócrita a criminalização do aborto sob o argumento de defesa da vida. E que fique claro antes de seguir, que existem sim os médicos que atuam fora do padrão com um tratamento acolhedor e humano aos seus pacientes, tanto na rede pública quanto na particular. O que relato como padrão, acontece também nas duas redes.

Supostamente o aborto é crime, pois trata-se da interrupção da vida de um ser humano, certo? Isso significa então que tudo deve ser feito para proteger essa vida, pois ela é importante? Então vamos falar sobre o que acontece na realidade.

Quando uma mulher planeja engravidar ela sabe (ainda que de forma limitada pois é um assunto velado) que existe o risco de perder o bebê no início da gestação. Mas ela acredita que com ela isso não vai acontecer, isso só acontece com “os outros” e mesmo assim ela mal sabe de alguém que passou por isso. Não sabe pois as mulheres não contam, se todas contassem você ficaria assustado em ver o quanto isso é frequente. Então a mulher vai ao obstetra e diz que pretende engravidar e gostaria de checar sua saúde para tentar evitar uma perda gestacional. Sabe o que costuma ser pesquisado de causas abortivas conhecidas e tratáveis? Nada! Isso mesmo, se você nunca teve uma perda gestacional, ou seja, se nunca um filho morreu em seu ventre, acham bobagem fazer uma investigação preventiva. Já ouvi relatos de mulheres que conseguiram investigações antes de uma primeira gestação, descobriram aumentado risco trombótico que tem como provável consequência aborto ou perda fetal, mas que ouviram a infame frase “como você não tem histórico não vou te tratar”. Oi? Então é preciso esperar um filho morrer no ventre para criar um histórico e ter o direito ao tratamento? Na cabeça de alguns médicos, sim!

Sabe aquele nascituro defendido para não ser abortado pois é crime? Pois é, se acontecer de ele morrer espontaneamente em seu ventre o protocolo padrão é dizer para a mulher que isso é normal e que ela não deve se preocupar com nada, deve engravidar novamente e ser feliz. Quando a mulher insiste em verificar o que pode ter ocorrido, ganha de brinde o rótulo de “neurótica” (que nem devia ser ofensa a quem sabe o básico da Psicanálise) e ainda tem o risco de ser culpada pelo aborto pois ficou muito estressada.

Aí a vida segue, a mulher engole a seco o luto que lhe é negado e acredita, afinal assim lhe foi ordenado por alguém supostamente detentor de um saber científico que ela não domina, que não deve pensar mais nisso e engravida novamente. Se der certo, agradeça aos céus, pois o protocolo padrão é deixar morrer o seu terceiro filho consecutivo para que você ganhe um novo rótulo “aborto recorrente” e somente a partir daí você passa a ter ouvida a súplica e começam a investigar o que pode estar errado.

Caso se encontre algum problema associado à possibilidade de sofrer um aborto, acaba a pesquisa e você é encorajada a engravidar novamente. Se houver uma nova perda, aumentam a pesquisa e assim vai, de filho em filho morto. O que estão tentando poupar? Os gastos das operadoras de planos de saúde? O conhecimento ou falta de conhecimento do médico? Só sei que não estão sendo poupadas a vida de seus filhos nem a sua saúde mental. Acham bonito ficar brincando de ensaio e erro com a vida desses bebês? A coisa piora quando acontece com uma mulher que já tem algum filho. Esta, ao insistir em investigações é rotulada como ainda mais neurótica, pois se ela tivesse alguma coisa, não teria o seu primogênito. A questão é que isso não é verdade, pode ocorrer sim de alguma condição não se manifestar em uma gestação e tudo correr bem e se manifestar em outra ocorrendo um aborto ou óbito fetal. Os médicos sabem disso, mas falam com a mulher como se ela fosse a louca.

Em resumo: se você provoca um aborto é assassina, se ocorre um aborto espontâneo no primeiro trimestre “foi melhor assim”, é normal (quando na verdade é estatisticamente comum, normal é dar certo), não precisa estudar o que ocorre para tentar salvar seu próximo filho pois aquele que morreu não era nada.

Pensa que acabou? Quem dera!

Vamos contar o que acontece quando a gestação evolui mais, porém o bebê morre antes de nascer.

Se o seu filho morre e tem menos de 500 gramas ele não é reconhecido como pessoa. Você não tem o direito legal de fazer um sepultamento nem de registrar civilmente a sua existência. No hospital ele será descartado como “resto cirúrgico”, ou seja, terá o mesmo destino que um membro amputado ou um tumor, irá para o incinerador. Imagina se o parto acontece em casa? Filhos são enterrados no quintal como se fossem bichos de estimação pois não há amparo legal para o sepultamento dessas crianças.

Se o seu filho morre e tem mais de 500 gramas ele já é considerado gente, mas não tem direito à personalidade. Ele pode ser sepultado e terá um registro de natimorto no cartório, no entanto, neste registro não poderá constar o seu nome, a não ser que você seja de São Paulo, único estado que permite a inclusão do nome até o momento. Estará escrito tão somente natimorto do sexo tal, o período gestacional e o nome dos pais.

Mais uma conclusão: se você provoca um aborto é assassina, mas se seu filho morre com menos de 500 gramas não é gente, se morre com mais peso é gente, mas não tem direito à personalidade, é uma criança qualquer, afinal todas são iguais.

Caso o bebê nasça vivo, ainda que por alguns segundos, aí sim ele tem um registro de nascimento com seu nome e um registro de óbito.

Ou seja, a condição do nascituro na prática é assim: se o matam é gente, então é crime, mas se sua morte ocorre sem ser provocada ele só é gente se for capaz de respirar um segundo fora do útero.

Não é crime quando os médicos são negligentes e se recusam a estudar o motivo das mortes intra útero.

Não é crime quando os planos de saúde não cobrem os exames que investigam causas abortivas.

Não é crime quando a mulher é mal tratada nos hospitais pois deduzem que foi ela quem provocou o aborto.

Só é crime quando quem o comete é a mãe!

Alguma coisa não me parece certa!

Então por favor, se é para defender a vida, cuidem primeiro de mudar o quadro da triste realidade de descaso com a vida dos conceptos.

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2 comentários Adicione o seu

  1. raquel disse:

    Que reflexão incrível. Nunca havia pensado nisso. Obrigada pelo seu relato.

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  2. Alex Soares disse:

    É um dilema ético tenso e intenso, relacionado à vidas. Bom post . 👏

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