Sobre a maternidade e suas ambivalências.

Por Elis Santos – 17 Abril 2016


Lembro do primeiro dia em que fiquei sozinha com meu filho. Ele tinha menos de uma semana de nascido. Nesta primeira semana eu não dormi nem 3 horas seguidas – nem no primeiro mês, nem no primeiro ano – , estava exausta e com os seios transbordando de leite, formando pedras que se estendiam até as minhas axilas.O corpo inteiro doía. Eu mal sabia quem era. Tinha a sensação que tinha sido atropelada por um trator. Observei aquele bebê gordinho em silêncio, e comecei a chorar. Onde estava o amor de mãe? Aquele que me tiraria o chão e me faria a mulher mais feliz do mundo? Ele não deveria ser instantâneo, imediato, natural? Que tipo de mãe eu era? Senti pena do meu filho. Eu definitivamente não havia nascido pra isso – e alguém nasce?

Não foram poucas as vezes que senti pena dele. A primeira vez que senti ódio. A primeira vez que me arrependi de ter engravidado. A primeira vez que senti vontade de fugir. Os choros que nunca consegui entender pareciam um atestado da minha total incompetência. As noites que acordei com raiva me mostravam a minha falta de instinto materno. Minha saudade da mulher que fui era a prova incontestável da minha frieza. Um pouquinho de culpa aqui, mais um tiquinho ali e a gente vai se afundando na frustração de não corresponder a um ideal inatingível.

Um belo dia criei coragem e conversei com outras mães. O alívio foi imediato. Chorei como criança a cada “eu também” que lia. A sensação de pertencimento salvou a minha sanidade mental. Minha única falha era ser humana.

Engraçado como somos todas mães perfeitas e incríveis até que nos venha um filho. Todas sabemos exatamente como mães devem se comportar, agir e falar. A lista de “mãe de verdade tem que…” é imensa e devastadora. A santificação da figura materna é algo cruel. Essa figura híbrida, misto de anjo e super heroína, é como um fantasma que assombra e ri da nossa humanidade.

Culturalmente enxergamos a maternidade como dádiva, graça. E quem é louco o suficiente para questionar um presente divino? Que heresia! Se tem filho saudável, vai reclamar de que? Que tipo de mãe não se sente plena, completa e realizada com a maternidade? Que tipo de mulher quer algo além da felicidade do filho?

Prazer, sou do tipo de mãe que, por várias vezes, tem vontade de sair correndo e deixar tudo pra trás. E em momentos assim o sorriso dos meus filhos não me diz absolutamente nada. Não apaga minhas dores ou paga o que quer que seja. A maternidade não me tornou plena. Acumulo milhões de lacunas e necessidades não atendidas, parte delas conseqüência da excessiva sobrecarga que vem no pacote.

A complexidade dessa relação não pode ser reduzida a somente amor. Carrego a consciência de que já existia antes do meu filho, e que permaneço com faces que não lhe pertencem. Anular a mim mesma não me fará uma mãe melhor. Negar as dificuldades também não.

A constatação de que não havia nada de errado no meu jeito de maternar me libertou. Mãe não é super nada. Jamais alcançaremos essa constante felicidade que nos empurram como uma obrigação diária. Nada nesta vida traz só alegria. Um filho não é uma exceção. A maternidade nos traz desafios assustadores. E assim como nos faz explodir de felicidade, faz chorar em posição fetal embaixo do edredom. As vezes com um intervalo de tempo bem pequeno entre um momento e outro. Despir a capa de super mãe-mulher-profissional deixa a vida mais leve. As dificuldades não diminuíram, mas já não aceito a culpa como acessório de fábrica. Falar das dificuldades e aceitar as minhas limitações foi um presente imensurável.

Antes que me digam que vai passar, eu sei. Tenho consciência de que em pouco tempo eles seguirão suas vidas e eu terei os dias e noites interinhos para mim. Mas está consciência não torna a vida mais fácil. Enquanto a hora da saudade não chega, busco o equilíbrio entre a mãe e a mulher. E busco, principalmente, o amor pela mãe imperfeita que sou. A mãe que oscila entre o choro e o riso, a dor e a delícia, usufruindo desse direito de ser sempre mais humana. Sigo amando e odiando a maternidade e suas ambivalências.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Mari disse:

    Tão eu…..

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