Não chore, não deseje, não sinta…

Por Luzinete R. C. Carvalho (Psicanalista) – 13 Outubro 2015 – Visão Clara


Se a criança prefere brincar em vez de ficar sentada fazendo lição: “damos um remedinho para ela se concentrar”.

Se a criança tem medo do dentista e chora durante a sessão: “damos um remedinho para ela dormir durante o procedimento”

Se a criança tem muita energia: “damos um remedinho para ela se acalmar”.

Dizemos constantemente para as crianças não chorarem, não se levantarem, não brincarem, não questionarem, não desejarem, não sentirem…

E se as crianças ousam lutar por si mesmas, se as crianças ainda insistem, então a gente as rotula, as enquadramos em alguma síndrome, alguma sigla, em algo que defina seu comportamento, e, quase sempre, achamos necessário que sejam medicadas!

Se as crianças querem falar durante o almoço no restaurante, se elas querem caminhar e explorar o supermercado, nós lhes entregamos algo cheio de açúcar para ficarem quietas ou um tablet ou celular para que se distraiam.

Tudo para que se comportem, na verdade: tudo para que não incomodem.

E assim não cumprimos nosso papel como pais, mães, educadores, profissionais da saúde, cuidadores.

A sociedade não cumpre seu papel em ajudar na construção daquele ser em total desenvolvimento e formação.

Concentramos nossos esforços não em ajudar, mas em silenciar.

Não explicamos para as crianças a ordem e a sequência das coisas, não ajudamos que elas compreendam as noções de regras e limites que a sociedade precisa e deseja.

Não ajudamos as crianças a identificarem o que estão sentindo.

Não ajudamos as crianças a nomearem seus sentimentos e não ajudamos que aprendam a lidar com eles!

Nos ocupamos em conter a criança e tudo que vem dela: o comportamento, o questionamento, os sentimentos!

Tudo que fazemos vai no sentido de ensina-las a esconder o que sentem, a lutar contra o que sentem, a se distraírem do que sentem.

E assim, desde o berço, quando não atendemos o choro por considera-lo manha ou birra, ensinamos as crianças que elas devem aprender a reprimir o que sentem.

Ensinamos que elas precisam se adequar e se enquadrar para serem aceitas, que serão consideradas boazinhas se nunca incomodarem, se não se expressarem, se não desejarem, se não ousarem.

E um dia elas crescem.

E assim como foram anestesiadas em sua infância, chegam a fase adulta em um estado entorpecido, vezes por remédios cada vez mais fortes, vezes por uma falta de ânimo, interesse ou entusiasmo pela vida.

Crescem e se tornam adultos que não conseguem lidar com frustrações, com seus próprios sentimentos, e precisam se manter distraídos de si mesmos e da vida.

E para isso se jogam em relacionamentos rasos e/ou abusivos.

Ou caem no consumismo que satisfaz momentaneamente uma consciência vazia de conteúdos ou cheia de culpas e inseguranças, um consumismo que precisa de cada vez mais para manter o estado de dormência inicial.

Crianças que tiveram a infância recheada de estímulos em excesso, se tornam adultos que tem dificuldade de lidar com a tranquilidade, e assumem cada vez mais compromissos e responsabilidades, só para depois se encontrarem em um estado permanente de ansiedade e auto cobrança, isso causando danos físicos, mentais e emocionais.

Crianças que foram constantemente silenciadas, distraídas de seus próprios interesses e sentimentos, se tornam adultos com dificuldades de lidar com seus próprios sentimentos, sem conseguir compreende-los, vivendo em constante confusão mental e emocional.

“Não chore”, “fique quieta”, “não foi nada”, “jogue um joguinho enquanto espera”, na vida adulta se torna: “não demonstre seus sentimentos”, “não tente se expressar”, “o que lhe acontece não é importante para mais ninguém”, “transforme seus relacionamentos em um jogo enquanto a vida passa”…

Silenciamos as crianças agora e isso refletirá na vida adulta.

Anestesiamos a infância em vez de protege-la, e o preço certamente será cobrado mais tarde.

E o fazemos sem perceber, pois também fomos silenciados e estamos anestesiados sobre muitos aspectos da nossa própria vida, e este estado de dormência reflete também a maternidade e paternidade que exercemos.

Se quisermos cuidar melhor da infância dos nossos filhos, precisamos antes, de um despertar interno, que pode ser difícil, dolorido, e trazer alguns saberes surpreendentes.

Precisamos despertar da anestesia que nos foi aplicada ao longo da vida, e uma vez despertos, podemos tentar romper com alguns padrões aceitos naturalmente pela sociedade.

E buscar este despertar interno não significa se tornar ou se reconhecer um ingrato, como se tudo que nossos pais ou cuidadores fizeram foi errado.

Também não é buscar culpados pelos nossos comportamentos atuais.

É antes de tudo, se responsabilizar, não pelo que nos foi feito, mas sim pelo que faremos com o que fizeram conosco.

E a escolha sobre como usaremos o conhecimento adquirido, é nossa.

Podemos escolher a liberdade de nos conhecermos profundamente, inclusive em tudo que nos foi feito de negativo, em tudo que nos faltou, e em tudo que não pudemos ser antes, porque fomos proibidos.

E assim, livres, e aprendendo a reconhecer nossos próprios desejos, legitimando nossos próprios sentimentos, poderemos romper o ciclo de violência e silenciamento a que nós mesmos fomos submetidos.

E rompendo o ciclo, poderemos, talvez, ajudar que a próxima geração aprenda a reconhecer e a lidar com seus sentimentos, de forma livre, saindo de uma noite escura para o áureo alvorecer da consciência de si mesmo.


Texto da página Visão Clara: https://www.facebook.com/notes/vis%C3%A3o-clara/n%C3%A3o-chore-n%C3%A3o-deseje-n%C3%A3o-sinta/158835954463846

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