Sim, vencemos!

Juliana, dentista, 1 filha – Helena


 Dia 25/11/2015, 2:30 da manhã, minha bolsa rompe! Finalmente eu e meu marido iríamos conhecer nossa Helena. E finalmente nossa maior dúvida seria respondida: Helena é saudável?

Desde que fiz o ultrassom com 11 semanas e 6 dias (a data exata que o meu obstetra pediu para fazer) a minha gravidez tão desejada e sonhada virou uma angustiante espera. Helena apresentou várias alterações graves nesse exame e tudo indicava que ela tinha uma “síndrome incompatível com a vida”.
Meu marido sempre relatou um grande medo de ser pai. Ele dizia que seu coração pressentia que algo muito grave aconteceria com seu filho. Conversamos muito antes de engravidarmos, e eu sempre dizia que minha certeza de que tudo ficaria bem era tão grande que eu ajudaria ele a superar esse medo.  Mas os piores pesadelos dele se confirmaram com esse exame: nossa menina poderia não nascer, e se nascesse viveria poucos dias.
As semanas passavam arrastadas e meus dias se resumiam em: acordar e pedir a Deus que a Helena passasse mais um dia conosco, crescendo em minha barriga; e dormir agradecendo por mais um dia concedido junto à ela.
Fiz vários exames e  tudo seguia bem, já não sabíamos se realmente ela tinha a tal trissomia incompatível com a vida. Esperávamos então um bebê especial (e nossa alegria era imensa por isso), que viesse com saúde e não dependesse de uma UTI.
Quando ela nasceu, às 10:25 da manhã, não escutei seu choro! Comecei a perguntar por ela, a obstetra de plantão tentava me acalmar…foi então que a pediatra chegou e me mostrou nossa bebê: roxinha! Ela disse: mamãe ela tem uma má formação nas mãos e nas orelhinhas. Pensei: graças a Deus! era só isso! Mal sabia que essa má formação nas mãos era um  dos sinais claros de que minha filha era portadora da síndrome de Edwards… a tal síndrome incompatível com a vida!
Helena foi uma guerreira desde o início: apenas 5% das crianças com essa trissomia chegam a nascer; destas, apenas 10% sobrevivem às primeiras horas…e nossa pequena seguia firme, respirando sem aparelhos, na UTI!
Infelizmente o que mais temíamos aconteceu: ela era dependente de uma UTI…seu estado foi se agravando, ela precisou ser entubada com 15 dias … e tudo o que eu era até o dia que ela nasceu ficou pra trás!
Meus dias eram divididos em visitas, e não mais em horas! Cada visita determinava se aquela parte do dia era feliz ou triste! 1 ml, 1 grama, 1 minuto passaram a ser importantes! Estável passou a ser a palavra que mais ouvíamos…e quando diziam que seu quadro era estável eu comemorava, afinal, era um sinal de que ela não havia piorado. Levava todos os laços, meias, luvas, gorrinhos que ela tinha, afinal eram as únicas coisas que ela podia usar. Tentei transformar o leito 14 no quarto que ela não pôde conhecer: tinha uma foto minha e de meu marido, o anjinho da guarda que ela ganhou da madrinha, as mantas e cueiros que ganhou da avó.
Foram 51 dias intensos em que fomos os melhores pais que poderíamos ser: cantávamos pra ela, contávamos histórias, beijava sua cabecinha, segurava seus pezinhos e mãos, desviava de todos os fios e tubos que a mantinham bem para acariciar sua barriguinha nos momentos de cólica…vigiava a fralda, penteava seus cabelos, botava música pra acalmá-la e sempre sussurrava no seu ouvido: calma minha filha…isso tudo vai passar, vai passar!
E passou….dia 15/01/2016, 51 dias depois de nos ensinar o mais puro amor, meu passarinho deixou sua gaiola doente e voou para os braços de Deus!
Foi triste, a dor mais dilacerante que senti….só depois de 51 dias pude ver o rostinho da minha filha, branquinho e sem esparadrapos! A roupa que escolhi para ela colocar quando nascesse, serviria para ela ser enterrada! Mas ela estava linda, uma boneca…serena e iluminada. Não sentia mais dores, seu sofrimento finalmente terminara.
Os dias que passei no hospital valeram por uma vida inteira! Vivi a dor na sua plenitude, da forma mais dura e mais insuportável…mas vivi também o amor! Aprendi e ensinei, ajudei e fui ajudada.
Acredito em uma vida antes dessa, em que nós 3 (eu, meu marido e nossa menina) nos comprometemos muito…e numa vida depois dessa, em que nos reencontraremos felizes por termos vencido essa batalha.
Sim, vencemos!
Helena, esse beija-flor que nos beijou e voou , está viva em espírito, feliz por ter curado suas feridas da alma! Meu marido sentiu a paternidade, amou sua filha e hoje não tem mais medo. E eu, bem, eu renasci com ela! Sou mãe de uma guerreira, então tudo o que era difícil antes passou a ser mais fácil.

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