Meu leite está indo embora!

E., professora, 31 anos, 1 filho de 3 meses e meio


Meu leite está indo embora!

Se meu filho tivesse mais de 6 meses, acho que eu não estaria tão desesperada, pois nunca tive pretensão de amamentar até os 2 anos. Mas meu filho tem 3 meses e meio e mamou diretamente no meu peito por mais ou menos 15 dias.
Eu sabia que a bombinha não substituiria a sucção do meu bebê, que meu leite acabaria secando mais rápido, mas não pensei que seria tão doloroso quando isso finalmente acontecesse.
Como já contei em outro desabafo, eu tive um puerpério das trevas. Até hoje não consigo explicar o que me ocorreu naqueles dias. As pessoas costumam chamar de baby blues, mas pra mim a coisa chegou no nível do baby DARK… meu coração era só angústia, medo, ansiedade, negação. Mesmo depois de uma gestação tranquila, uma cesárea ótima, a ajuda da minha mãe e do meu marido (que fez tudo o que foi possível naqueles míseros 5 dias de licença). Foram eles que cuidaram do meu bebê nos primeiros dias, quando eu sequer tinha forças psicológicas para vê-lo.
Nesses dias, tive MUITA dificuldade em colocar o bebê para mamar, não conseguia fazer a pega correta sozinha, somente com ajuda das enfermeiras do banco de leite ou da fonoaudióloga especialista em amamentação (que chamei uma vez só, porque cobrava 200 reais por visita!) Muitas vezes, depois de tentar e tentar, deixava mamando com a pega errada mesmo, só pra ter a sensação de que estava fazendo algo. Mas aí a dor não me deixava em paz. Ficava com o bebê no colo, olhando o relógio. Às vezes ele chupetava 5 minutos e dormia. Algumas vezes não pegava de jeito nenhum, outras vezes ficava 40 minutos ali…e a minha dor era além do físico. Como aquele intruso chegava assim na minha vida, exigindo meus seios à sua disposição 24 horas por dia, sentindo prazer com a minha dor? Esse pensamento me soa agora tão doentio…mas não posso negá-lo. Era assim que eu estava me sentindo naquele momento. Lembrava das histórias de superação que ouvi, das mães que amamentaram com mastite, das mães que viam pedaços de seus mamilos caírem, das mães que viam seus filhos vomitarem sangue, mas ficavam ali, firmes e fortes, por amor aos seus filhos….e só conseguia me sentir uma víbora sem coração. O dia em que a enfermeira do banco de leite me disse para deixar os seios sararem antes de voltar a dar o peito, senti um grande alívio. Não, não precisava ver meu filho mamando as casquinhas de ferida dos meus mamilos. E a partir disso, minha cabeça vira uma confusão de memórias, copinhos, seringas, ordenha manual….e choro, muito choro e vontade de desistir. Depois de 12 dias chorando, sem comer, sem dormir, sem evacuar e tendo perdido todo o peso que ganhei nos 9 meses anteriores… levei um grande esporro da minha mãe por estar fazendo muito drama, “dá logo uma mamadeira pra esse menino, tira seu leite com a bombinha e acabe logo com esse choro e vai cuidar do seu filho, que não está se beneficiando em nada com uma mãe nesse estado!?” Foi o que eu fiz.
Passei muitos e muitos dias pendurada nessa bombinha. Até um mês e meio ele tomou praticamente só o meu leite. Depois, passei a ficar sozinha em casa, não conseguia ordenhar com tanta frequência, o leite já foi diminuindo um pouco, principalmente a noite, quando passei a dar o leite em pó na última mamada do dia. E a demanda também aumentou….meu bebê exigia cada vez mais leite. Aos 2 meses e meio já estava intercalando leite materno e leite em pó o dia todo e quando ele completou 100 dias, já estava tomando apenas uma mamadeira do meu leite no dia. Estava vivo agora graças ao leite em pó. Aliás, lembro até hoje da primeira mamadeira de leite em pó. Meu marido que deu. Onde eu estava? Chorando (gritando) trancada no banheiro….eu não podia ver! E ao mesmo tempo, me senti aliviada de saber que meu filho estava sendo alimentado sem depender do meu sofrimento físico.
Ontem tirei 50 ml. Meu bebê mama 120 por mamada. Pra tirar essa merreca, espremo o peito no máximo que consigo. Jurei dar até a última gota do leite que meu corpo produziu especialmente para ele. Mas a cada ordenha, toda essa questão vem à tona, todos os dias….hoje olhei pra bombinha e não tive coragem de repetir meu ritual diário. Tirar a blusa, espremer o peito, tirar os míseros ml que serão sugados pelo bico de silicone, numa mamadeira cheia de macaquinhos azuis. Não é o meu enorme peito desenhado de estrias.
Quando dou a mamadeira, quase enfio o coitado dentro de mim, quero que ele esteja o mais próximo possível. Tenho medo dele não se sentir amado. Tenho medo que a falta desse contato faça dele uma criança insegura do meu amor por ele. E tenho medo que ele não me ame, por eu não ter dado a ele a maior prova de amor que eu podia ter dado naqueles primeiros dias.
Não ter sido capaz de amamentar meu filho dói horrivelmente, dia após dia, no meu coração, em todo o meu corpo. É um sofrimento solitário, pois meu marido e minha mãe não admitem que eu esteja sofrendo por isso. Mas sei que é um sofrimento que vou carregar sozinha por muito tempo, como aquelas correntes com esferas de metal arrastadas pelos condenados. O sentimento de culpa é algo extremamente cruel.

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