Não fui ouvida nem cuidada como eu merecia

Aline – 2 filhos – Estudante – 26

Ser mãe pela segunda vez era um sonho antigo.
Minha primeira gestação ocorreu em 2005, eu tinha apenas 16 anos e foi tudo muito complicado.
Minha filha cresceu rápido e com tanta gente em cima de mim, eu praticamente não aproveitei os primeiros momentos da maternidade.
Tentei por vários anos, era uma tentante, foram dias e dias frustantes, onde o resultado ‘Negativo’ era a minha única realidade.
Era difícil ouvir as pessoas dizendo que tudo era na hora de Deus, eu me sentia incompleta, mesmo já sendo mãe de uma linda princesa.
Foi quando a situação se inverteu e era a minha vez de consolar uma tentante muito importante na minha vida, minha irmã.
Eu a acompanhava em quase todas as consultas e as respostas eram sempre as mesmas: você não vai conseguir engravidar sem inseminação artificial.
Era muito difícil ver ela naquele estado e só conseguir lhe dizer: tudo era na hora de Deus.
Foi quando desisti de ser mãe novamente.
Era muito sofrimento as tentativas e as respostas negativas, decidi cuidar mais de mim.
Era a hora de voltar minha atenção para o meu futuro que até então estava esquecido.
Corri atrás e consegui uma abençoada bolsa integral pelo PROUNI no curso que eu mais desejava.
Estava super ansiosa para ingressar na faculdade, me orgulhava em contar a todos que tinha conseguido a bolsa apenas com a minha pontuação no ENEM.
Foi quando no dia 24 de dezembro de 2014 eu recebi o nosso milagre de Natal.
Um envelope vermelho com uma folha branca com os dizeres: positivo. Minha irmã estava grávida, aquela que todos os médicos haviam dito ser impossível. Mas nada era impossível para Deus.
E assim começou a minha trajetória.
Como eu estava em casa sem trabalhar e as aulas ainda não tinham começado, corria como louca com ela pra lá e pra cá. Faz exame, leva pro médico, mais exames, mais consultas…
Essa era a nossa rotina. E eu amava ver o nosso pacotinho crescendo.
Logo soubemos o sexo, um meninão para alegrar a nossa família, nosso príncipe.
Eu não seria apenas a tia babona, eu seria a segunda mãe, a Dinda.
Tudo o que eu via era pra ele, roupas, sapatinhos…
As aulas estavam a todo vapor e os dois primeiros meses passaram voando.
Com as provas chegando, junto veio o estresse e uma azia incontrolável.
Sempre tive problemas estomacais, então me auto medicava.
Era sal de fruta pra lá, chás para cá, nada resolvia.
Eu estava cada dia mais estressada e cansada, nem pique para paparicar a barriga da minha irmã eu estava tendo.
Meu nervosismo era tanto que num feriado famoso da cidade, eu discuti feio com meu marido e minha filhinha. Pasmem, sem motivo algum.
Foi quando num sábado, em meio a um churrasco familiar feito em minha casa, minha irmã (a grávida) diz: você está grávida.
Eu apenas ri, era impossível.
Eu não sentia nenhum enjôo, nenhuma mudança nos meus seios e nem sono excessivo, que eram as coisas que senti da primeira gestação.
Então agarrei minha cerveja e continuei bebendo e fumando o meu cigarro no meu canto, à vontade e sem nem me preocupar.
No domingo meu esposo me acordou ao meio dia com uma caixa de teste de farmácia nas mãos, levantei da cama obrigada e reclamando muito.
Eu tinha certeza do resultado, estava tranquila, mas fiz mesmo assim.
Quando vi as duas listras rosas não acreditei.
Minha ficha não caia e simplesmente gritei meu marido, foi quando percebi pela minha voz que estava chorando.
Eu não conseguia nem levantar da privada, estava estática.
A cara do meu marido era impagável e a minha filha chorava de felicidade.
Tirei foto do teste, ainda não acreditando muito, e mandei para minha irmã. Comparamos as fotos e estavam idênticos.
Ficamos quietinhos aquele dia,não queria causar um alvoroço sem ter certeza de nada e esse certeza eu só teria no outro dia, quando os laboratórios estivessem abertos.
Quase nem dormi.
Fui cedo para o laboratório e o resultado só ficaria pronto em uma hora.
Fui encontrar minha irmã em uma amiga nossa e aguardamos por lá.
Na hora de buscar o teste, percebi que eu estava literalmente nervosa, fiquei no carro e minha irmã e minha filha desceram.
Mal pude acreditar quando vi minha irmã sair com o envelope aberto e pulando feito louca do laboratório, chorei. E chorando percebi que estava com medo de mais um negativo, mas não, dessa vez era o meu positivo, eu seria mamãe novamente.
Tudo aconteceu muito rápido, fiz surpresa para meu marido com o teste final, contamos para a família e amigos, postagens bonitinhas no face e quando vi, já estava de 22 semanas.
Era a hora da descoberta de ouro. Não tínhamos preferência alguma, mas estávamos ansiosos e curiosos. Menino. Um príncipe só meu, meu mundo azul, mãe de princesa e mãe de príncipe.
A alegria foi tremenda, meu afilhadinho teria um amiguinho para correr, brincar e ser seu companheiro por toda uma vida.
Estava passando tudo rápido, uma gravidez linda, tranquila, sem nenhuma intercorrência… até agora.
Comecei a sentir dores nos ossos da pelve, doía pra andar, pra sentar, pra deitar, para mover a perna de qualquer forma e não era uma dorzinha incomoda não, doía pra valer mesmo.
Fui no GO e ele diagnosticou uma Disfunção Sinfise Púbica (Pubalgia).
Nada poderia ser feito, apenas amenizar as dores com Paracetamol (que era como água pra mim) e alguns exercícios.
Mas o que o GO e ninguém entendia é que eu não dava conta de fazer exercício algum, doía muito e eu só queria ficar quietinha.
Comecei a diminuir meu ritmo, comecei a curtir meu afilhadinho, meu presentinho de Deus e passei a lidar com as dores.
Aí veio o questionamento do parto.
Da primeira vez eu tive uma pré-eclampsia, minha filha veio ao mundo mais cedo por cesariana.
Dessa vez eu estava com o peso controladissimo, sem edemas e minha pressão estava sendo uma mãe, super normalzinha.
Sem contar que eu não queria mais sofrer com um corte, nem com uma dieta dolorosa, queria tudo o mais tranquilo possível, eu queria meu parto normal.
Bati o pé, conversei com o médico, eu estava apta para isso… Discuti com pessoas conhecidas, me impus para a minha família e pronto, eu estava preparada.
Com 28 semanas vou parar no Pronto – Socorro da cidade, muitas dores e diagnosticada com trabalho de parto prematuro.
Fiquei internada por três dias recebendo medicações intravenosa e continuei o tratamento em casa, sem cessar.
Desse dia em diante minha rotina eram dias bons e dias ruins, cheios de dores e contrações e um medo absurdo de acontecer algo com o meu bebê.
As medicações continuaram a todo vapor também, algumas idas ao Hospital…
37 semanas.
Era uma quinta feira e eu estava sentindo dores absurdas ao longo do dia, respirava fundo, não queria preocupar ninguém. Esperei meu esposo chegar do trabalho e fomos até o hospital, examinada, tocada e a descoberta do inicio da dilatação. 2 cm, colo ainda alto, porém amolecendo.
Por determinação médica, voltei pra casa e aguardei por lá, ele disse que agora não demoraria muito.
Na sexta entrei em contato com uma enfermeira obstétrica da cidade vizinha, na minha nem Doula tinha, mas eu precisava me cercar de todas as informações possíveis e apenas ler sobre, não estava sendo suficiente.
Conversamos muito, uma pessoa calma e que me passou muita tranquilidade. Ela estaria viajando naqueles dias, retornando no domingo e nesse mesmo dia iria me ver.
No sábado senti uma coisa estranha saindo, fotografei e mandei para a enfermeira, ela afirmou ser o tampão e disse que tudo estava se encaminhando.
Fiquei radiante, estava tudo como planejado, eu teria aquele momento mágico mãe e filho, eu daria a luz a ele, eu o traria ao mundo através das minhas forças. Era o nosso momento.
Era domingo, dia da chegada da enfermeira e as dores só pioravam, juntando com as dores da Pubalgia, eu estava praticamente sem andar, tudo doía, tudo incomodava, eu mal respirava…
A noitinha ela chegou, digo que ela fora meu anjo da guarda naquele momento, transmitia muita calma, conversamos um pouco, logo ela montou sua maca no quarto da minha filha e fomos auscultar o coração do meu príncipe, batimentos excelentes.
Era a hora do toque, internamente eu estava rezando pra ela dizer que estava praticamente na hora, que a dilatação estava avançada e o colo baixo.
Mas não, sem ela me falar nada, pela cara dela já percebia. Eu continuava do mesmo jeito, apenas 2 cm, colo alto, mas com um agravante, estava com sangramento, e não era sangramento do colo, aquele amarronzado, era um sangramento vivo, iniciado pelo toque, mas que precisava ser investigado.
Ela olhou nos meus olhos e com toda a calma do mundo me disse que eu deveria procurar meu médico e optar pela cesariana, comecei a chorar.
Ela me explicou que o sangramento estava preocupante e que precisava de mais exames para ter certeza, mas que eu não poderia ficar em casa contando com a sorte.
Nessa hora meus pais chegaram em casa e quando minha mãe me viu, começou a chorar também.
Eu me sentia inútil, tanto fiz que fugi da cesárea, não era uma opção, eu contei luas, fiz tudo direitinho, era meu direito…
Chegando ao hospital, o médico que me atendeu disse que o sangramento era normal, que eu deveria voltar pra casa e aguardar por mais dilatação ou pelo rompimento da bolsa.
Eu estava em choque, com medo, confusa… Ligamos para a enfermeira e ela ficou inconformada com o atendimento daqui, pediu que eu entrasse em contato com o meu GO, mas quem disse que conseguíamos?
Passei a madrugada com dores, apreensiva e chorando muito.
Eu estava cansada, precisando de ajuda, gritando internamente para alguém tomar as rédeas e cuidar de mim, de nós.
Na segunda eu já acordei com as dores, com ânsia e totalmente indisposta.
Com muita dor no coração, com a sensação de impotência e fracasso, liguei no consultório e agendamos a cesárea particular para o dia seguinte.
Eu estava com muito medo.
Garanti várias vezes que a anestesia tomada seria a peridural, pois tinha sido essa que tomei da primeira vez e pelo menos a minha movimentação pós parto tinha sido boa.
O dia não passava, eu e a minha filha passamos a madrugada em claro, ajeitando as ultimas coisinhas, o cabelo dela, o meu e pronto, eram 06:00 AM, hora de ir pra maternidade.
Entre o processo de internação e a subida até quarto, as 07:15 AM eu já estava no quarto e com a camisola aguardando a maca me buscar.
Comecei a sentir dores, dores fortes, dores desconhecidas, intensas e ritimadas, a cada dor uma vontade imensa de fazer xixi, isso ocorria a cada 5 minutinhos.
Eu estava totalmente em trabalho de parto, ouso dizer que estava dilatada e pronta pra trazer meu filho ao mundo de forma natural, minha barriga tinha baixado e as dores eram muito fortes.
Mas ninguém me ouvia, nem sei se meu esposo acreditava em mim, as enfermeiras nem deram bola.
Me sentia fraca, eu queria o meu parto normal e quando eu vi, estava na maca a caminho do centro cirúrgico, vi minha mãe, ganhei um beijo na testa e lembro de dizer a ela que estava com contração, mas também não sei se ela acreditou.
Ao entrar na sala de parto comecei a me sentir mal, não sei se era o nervoso ou as dores, elas me preparavam e eu me sentia completamente paralisada, não conseguia esboçar reação, apenas me curvava de dor.
A hora de aplicar a anestesia foi torturante.
Me mandaram sentar e não me mover nem um centímetro que eu iria sentir uma picadinha.
Mentira.
Senti várias, eu sentia cada agulhada entrando nos meus ossos, era horrível, doía muito e ainda por cima as duas enfermeiras me seguravam e uma jogava o peso do corpo no braço que empurrava meu pescoço pra baixo. Levei incontáveis picadas até alguma começar a fazer efeito, eu estava chorando.
Logo que meu GO entrou na sala, sem ao menos me dirigir um “oi”, comecei a sentir falta de ar, elas me monitoravam a todo momento, era um misto de ânsia de vomito, falta de ar, sensação de morte.
Quando meu esposo entrou pra ficar comigo, eu suspirei aliviada, eu estava com medo e pelo menos tinha um rosto conhecido por lá, se por um acaso acontecesse algo comigo.
Ele me deu força, brincou comigo e cada vez que eu passava mal, olhava apreensivo para o monitor atrás de mim, eu sabia que algo estava errado, mas ele disse que minha pressão estava 11×8, então fiquei tranquila.
Em meio a toda a minha tristeza e medos, ouço o choro do meu filho, meu príncipe. Chegou gritando, tão lindo e tão perfeito.
Apaguei.
Quando acordei na sala de recuperação, instintivamente levantei minha cabeça procurando por alguém, foi quando uma enfermeira me empurrou pela testa e disse que eu não poderia me levantar, pois tinha tomado a anestesia raqui, eu debati, disse que não, era a peridural. Ela pegou meu prontuário e repetiu que eu tinha sido anestesiada com a raqui.
Ali começou o meu tormento. Comecei a chorar desesperada e dizer que não era esse o combinado, ela percebeu minha frustração e me acalmou.
Não conseguia mais raciocinar, queria matar meu GO, eu tinha dito que queria a peridural e ele tinha me garantido isso.
O turno das enfermeiras trocaram e aquela boazinha se despediu de mim e foi embora, logo uma brutamontes disse que eu deveria levantar a perna, mas eu não sentia nada, nada mesmo, mas ela disse que eu deveria me esforçar um pouco mais.
Como pode?
Como pode existir pessoas assim, para lidar com situações assim?
Fiquei insistindo nas minhas pernas e logo começou um formigamento, mas mesmo assim não conseguia levantá-la.
Pois ela veio, disse que eu deveria ir para a maca e subir para o quarto, ou ficaria lá mais quatro horas, ergueu minhas pernas e disse para eu passar pra maca.
Que tortura! Como aquilo doeu.
Mas fui firme e não demonstrei fraqueza, passei pra maca e chorei internamente.
Já no quarto, a enfermeira da maternidade foi mais branda, mais calma e me ajudou muito.
Assim que deitei na cama, vejo meu esposo e minha irmã, conto pra eles da anestesia e meu esposo fica indignado, ameaçando resolver ali mesmo isso, apenas pedi calma e disse que resolveríamos isso depois.
Ele começou a me contar do medo que estava, disse que na sala de cirurgia minha pressão estava a 6×4, mas que não podia me contar aquilo. Eu estava tendo uma hipotensão, por isso ele, meu marido, tremia tanto ao meu lado.
Na minha cabeça tudo o que eu vivi horas antes ainda estava vivo, todas as dores, temores… Ao meu lado, no outro leito, uma moça que se movimentava normalmente, aquilo me consumia por dentro. Porque eu?
Eu não pedi por aquilo, a tristeza ia me consumindo.
Meu pacotinho chegou no quarto, tão lindo, aquele cheiro de Vérnix inundando o quarto todo.
Mamou de primeira, sem nenhuma dificuldade, nasceu sabendo.
A única dificuldade era eu estar deitada, sem nenhum travesseiro e não poder nem levantar minha cabeça para beijar meu filhote.
Eu via as pessoas entrando no quarto, mas dentro da minha mente ocorria uma batalha silenciosa.
De um lado a glória da maternidade, do outro a tristeza e a frustração.
As 17:00 PM daquele dia, uma enfermeira entrou no quarto e disse que era hora de levantar e tomar um banho, eu não estava muito certa daquilo, já que minhas pernas ainda não respondiam muito bem, mas ela disse que eram ordens médicas.
Foi me colocar de pé e dito e feito, quase caí estatelada no chão.
Pressão baixou no zero e precisei voltar pra cama, minhas pernas não sustentavam no chão.
Pudera, eu estava de jejum desde as 22:00 PM do dia anterior.
Minha irmã discutiu com ela, mas eu já não via e nem ouvia mais nada, a tristeza novamente me assombrando e me fazendo reviver aquelas dores do centro cirúrgico.
Meu GO deu as caras no outro dia, no final da tarde, apenas para me dar alta, sem nenhuma recomendação, apenas uma receitinha.
Fomos para a casa e o medo me acompanhando.
Será que darei conta?
Tomei um banho para me livrar do cheiro do hospital e fui receber alguns familiares.
Eu não me sentia bem.
Apesar disso, meu pacotinho era lindo, calminho, tudo o que eu sempre sonhei.
Logo no outro dia, meu pesadelo de verdade começou, sentia dores horríveis na cabeça e no pescoço, comecei a tomar por conta própria a medicação que estava tomando no hospital, era acabar o efeito do remédio, para as dores voltarem piores.
Num dos dias cheguei a pedir pra morrer, não conseguia raciocinar, nem cuidar do meu bebê, se não fosse meu marido e minha irmã, eu estava perdida.
Ligamos para o GO pela manhã, mas o mesmo só retornou a noite, era o efeito raquidiano, disse apenas para eu manter meus remédios e que em 5 dias, a contar da data do parto, as dores passariam.
Eu só sabia dormir, ficar acordada era o meu tormento, dores atrás de dores e a tristeza que não me abandonava.
Como dito, as dores passaram, pelo menos as físicas sim.
Comecei a curtir mais meu pequeno, ele mamava super bem e isso me enchia de alegria.
Mas por muitos dias e até hoje ainda sofro com tudo isso.
Não fui ouvida nem cuidada como eu merecia.
Eu ia conseguir, eu só precisava de uma equipe menos mercenária e mais humanizada.
Tiraram o meu direito.
Mesmo eu tendo optado de última hora pela cesárea, eu ainda estava sobre os meus direitos, direito do meu corpo.
Eu não fui ouvida, não fui respeitada.

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