Eu renasci quando o perdi

Laura, um filho-anjo, professora, 30 anos.


Há exatamente um ano, descobri que estava grávida, Murilo (meu filho-anjo) começou a me gestar como mãe. Não somos apenas nós que gestamos, eles também nos desenvolvem, nos fazem crescer. Foram 37 semanas perfeitas, as melhores da minha vida. Uma gestação sem intercorrências, todos os exames perfeitos, todos os meses iluminados, não deixei de me cuidar, não perdia nenhuma consulta, não atrasava nenhum exame.

E a cada dia Murilo ia crescendo lindo e me tornando uma mãe atenciosa, preocupada, coruja… sentia vontade de abraçar minha barriga e coloca-la bem próxima do meu rosto. Talvez por que algo me dizia que eu nunca faria isso com o rosto do meu filho.

No dia 21 de agosto de 2015, fui à minha consulta de rotina. Deitei para vê-lo no Ultrassom… eu contava as horas para esse momento, eu adorava vê-lo. O médico, sempre feliz por ver Murilo bem, ficou em silêncio, aquele silêncio interminável que muitas mães que lerão este desabafo irão se lembrar. Um silêncio sucedido de perguntas do tipo: “ele estava mexendo? você sentiu algo nos últimos dias?” E a cada pergunta você torce para que elas terminem com a frase “calma, tá tudo bem, o coração está batendo, ouve!!” Mas não, o coração não batia mais. Comecei a gritar e chorar compulsivamente. Como? Minha gravidez foi perfeita, meu filho é perfeito, insucesso no meio de tanto sucesso? Eu estou aqui, estou gestada, sou mãe, estou pronta!! Mas gritar já não faz mais sentido, não traz mais meu Murilo de volta. Ele já havia sido acolhido em outros braços que não os meus.

Sonhei e me preparei tanto para o parto humanizado e para o momento em que pegaria ele no meu colo ainda ligado pelo cordão umbilical, que fazer um parto seria um terrorismo psicológico e mesmo com todos os riscos, optei pela cesárea. Foi naquele mesmo dia 21, em uma sexta-feira, até hoje elas começam nubladas. Foi insuportável dar a notícia para o meu esposo, era impossível discar os números de telefone para avisar a família e os amigos que nosso conto de fadas havia tido outro final.

Por algumas horas perdi a crença na vida e em tudo que a rege. Me matei junto com meu filho. É o momento em que seus sentimentos estão mais aflorados, você, porém, precisa usar a razão o tempo inteiro. Decidi viver um dia de cada vez, estou assim há cinco meses, uma semana e um dia. Comecei me preparando para uma cesárea sem recompensas, em seguida, me preparei para a ignorância acerca da perda gestacional e ainda existem muitas pessoas ignorantes (sem conhecimento mesmo) que querem falar, mas te magoam, que querem ficar junto, mas é por especulação e não por alteridade, empatia.

No momento em que o médico foi me dar alta do hospital, lembro-me que eu estava deitada na cama, de banho tomado e usando um vestido vermelho, pois decidi que ninguém me veria com “cara de pijama”. Ali começava o meu empoderamento, a minha luta pra que ninguém esquecesse a minha dor, mas principalmente, para que ninguém esquecesse que sou mãe e que tenho SIM um filho.

Um filho que me ensinou muito durante todos os dias da minha gestação: eu renasci quando o perdi. Por causa da passagem dele na minha vida, ressignifiquei meus planos, meus objetivos de vida, minha rotina, meu amor pelo próximo, meu respeito pela história do outro e pela minha história, enfim, entendi sua missão em minha vida e pratico todos os aprendizados que ficaram.

Hoje, não sinto mais tristeza, sinto gratidão. Sinto que não é necessário 90 anos para fazer a diferença, basta cativar pelo amor e você será compreendido muito antes. Murilo me cativou por seu amor e, por isso, eu compreendo a sua partida.

Eu sei as causas fisiológicas que o tiraram de mim. Segundo a biópsia placentária, tive infarto placentário, trombose placentária e Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG) tornando a placenta incompatível com a vida nas últimas semanas de gestação. Já investiguei todas estas causas, não tenho propensão à nenhuma delas, não tenho nada em meus exames de pré-natal (de imagem ou clínicos) que justifiquem este laudo. Tudo bem, eu não preciso dessas justificativas, o luto já se foi, a dor e a lacuna dele em minha vida serão eternas, mas os aprendizados e as transformações que vivi fazem com que eu tenha certeza de que meu filho-anjo conseguiu me gestar e fazer com que eu nascesse bem.

Também sei que é assim que ele gostaria que eu visse a sua passagem pela minha vida. Sempre que estou desmotivada, por diferentes motivos, me questiono: é assim que ele gostaria de me ver? E penso que não, um filho sempre quer ver sua mãe bem, com saúde, vaidosa, com um sorriso no rosto, disposta à recomeçar e é assim, e é por ele, que recomeço todos os dias.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Luz do sol disse:

    Queria tanto reagir assim, mas não tenho forças, só tristeza…

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