Um passarinho chamado Helena

Juliana Heck, dentista, 35 anos – 1 passarinho chamado Helena

Hoje faz um mês que minha Helena libertou-se de sua gaiola doente e voltou, como um passarinho, para os braços de Maria Santíssima. Mas antes do seu regresso, Helena teve uma passagem de 51 dias pela UTI neonatal. Essa foi sua única casa, já que nas primeiras horas de vida ela precisou ser transferida para lá.
A minha história com a Lele começa muito tempo antes dela nascer. Sempre tive um desejo muito forte de ser mãe, e sempre disse que seria mãe de uma menina! Qual não foi minha surpresa quando meu futuro marido me disse que não queria ser pai. Eu estava diante de um homem que tinha um medo enorme da paternidade, e que sempre explicava este medo por uma certeza absoluta de que seu filho teria um problema.
Essa foi a primeira batalha que a Helena enfrentou: convencer seu pai a recebê-la. Depois de muitas conversas, meu então marido disse que sentia tanta confiança em mim (eu batia no peito sempre e dizia: deixa eu acabar com seu medo! Confia em mim que eu dou conta de TUDO!) que achava que o momento de tentarmos um filho havia chegado!
Foram 8 meses de tentativa e o tão sonhado positivo chegou! Era dia 16 de março de 2015.
Logo depois, em um exame de sangue , o que eu sempre tive certeza se confirmou: esperávamos uma menina!
Estávamos radiantes, mas meu marido, muito cauteloso, pedia para eu não contar sobre a gravidez…queria esperar os 3 primeiros meses passarem e fazermos o ultrassom de 12 semanas para garantir que estava tudo bem com ela! Mas eu tinha certeza que tudo corria bem!
Bom, aqui começa o meu grande aprendizado: “estar tudo bem” de acordo com os planos de Deus não significa o mesmo que “estar tudo bem” nos nossos planos. Ele sabe para que colo destinar seus anjos ! Eu fui escolhida para receber um!
Helena apresentou uma alteração grave no ultrassom. Não preciso dizer que meu marido desesperou-se e repetia enquanto chorava compulsivamente: “eu sabia, eu sempre soube que nosso bebê teria um problema…”
Eu não sei de onde arrumei forças para consolá-lo. Abracei-o forte e disse: Se Deus nos deu ela com algum problema, é porque confia em nós!
Os exames posteriores não eram conclusivos, só quando Helena nasceu nos disseram que ela teria Síndrome de Edwards , a síndrome dos 100 dias, incompatível com a vida!
O Marcelo chorava em frente ao vidro do berçário vendo nossa pequena com tanta dificuldade para respirar. Chorava porque seu pior pesadelo virou realidade, chorava porque via crianças chegando e saindo dali direto para os braços de seus pais babões, chorava porque o dia mais feliz de nossas vidas, virou o mais triste. Lembro que uma das enfermeiras me visitou no dia seguinte e disse que não conseguiu ir embora enquanto a nossa bebê não desceu para UTI porque estava totalmente emocionada com a situação do meu marido.
Eu me lembro de repetir para ele: calma, não sabemos ainda o que significa tudo isso, não mate nossa filha com suas palavras!
Aquela foi a pior noite da minha vida: do meu quarto eu ouvia o choro das outras crianças, como ele ficava perto do berçário, ouvia o entrar e sair de bebês…e ficava tentando me lembrar do rosto da minha filha que eu tinha visto tão rápido quando ela nasceu e depois não vi mais.
No dia seguinte, começava minha nova rotina como mãe de UTI: visitas rápidas de meia hora de manhã e a noite, boletins médicos durante a visita de uma hora a tarde. Boletins esses que viraram “notícias da Helena”, que eu fazia questão de mandar aos amigos, através de um grupo no celular.
Eram notícias como:
“A Helena tem uma síndrome muito grave, mas de tudo que ela poderia ter, ela apresenta algumas alterações no coração, que seriam leves se fossem separadas , mas que juntas tornam a simples tarefa de respirar a sua batalha mais árdua.”

“Hoje uma médica disse que talvez a Helena nunca saia da UTI, então pediu para que fôssemos os melhores pais que conseguimos ser, em cada visita. É muito difícil ver todas as roupas dela e não poder usar, na UTI ela só pode usar lacinhos, luvas e meias…já separei tudo o que tenho aqui para enfeitar minha bebê.”
e as notícias seguiam:
“Hoje Helena precisou ser entubada”
“Helena teve uma parada cardíaca”
“Olha como nossa bebê está linda com o lacinho que ganhou de presente da madrinha”
” O quadro da Lele é estável, para um pessimista isso significa que ela não melhorou, mas para nós, significa que ela não piorou! Dia feliz!”

Mandava fotos, compartilhava vídeos, mas o que mais me ajudou foi conversar com outras mães! Eu sabia que o quadro da minha filha era muito grave, sabia que sair com ela dali era muito difícil, então para que me desesperar! Ia viver TUDO o que eu podia com ela ali! Decidi que chegaria para as visitas arrumada, perfumada, alegre! Ela vencia tantas batalhas…a minha luta era essa: permanecer lúcida!
Ensinava as mãe a ordenhar o leite, explicava para as mais tristes que “estável” era bom sinal e não ruim, abraçava as que choravam, procurava mostrar que Deus não castiga ninguém…nossos pequenos estavam ali para nos mostrar que para amar não precisa estar em casa, no quarto bonito: basta existir!
E assim se passaram longos , angustiantes e desgastantes 51 dias! Quando o coração dela começou a dar sinais de cansaço eu pedi para ela ir…seguir seu caminho: “vai meu passarinho…voa…esse corpo é só uma gaiolinha doente…você merece ser feliz! A mamãe sempre dizia no seu ouvido: calma , vai passar, isso tudo vai passar! Agora é hora…”
O que mais me marcou naquele dia foi que quando saí da sala onde me despedia dela, havia vários casais me esperando. As mães me abraçavam, choravam comigo…e me agradeciam!!! Demorei pra entender isso…agradecer?
Uma me disse:
“Ju, você sempre conversava com a gente com um sorriso no rosto. A gente reclamava que nosso filho não ganhava peso…uma coisa tão simples perto de tantas coisas graves que a Helena tinha e a gente nem sabia porque você sempre falava dela como se ela não tivesse nada.”
É…que bom que deixei sementinhas para trás. A Helena também…
Foi doído, ainda está sendo. Tem dias que me permito arrebentar os pulmões de tanto chorar, mas aí me lembro da minha guerreira.
Lembro-me também da minha lição: Deus coloca seus anjinhos sob colos fortes! Minha força está aqui…é nela que me agarro para acordar e seguir a diante todos os dias!
Obrigada Helena! meu eterno passarinho!

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8 comentários Adicione o seu

  1. Rita Pralom disse:

    É Ju nossas princesas nos ensinam muito, principalmente que temos uma missão nesta vida “amar um amor sem medidas”.
    Tenho a minha passarinha que já está com 7anos e também tem a síndrome de Edward ‘s e assim vamos vivendo um dia de cada vez!
    Bjs e parabéns por tanta sabedoria!

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    1. Juliana Ferezin Heck disse:

      Nossa Rita, 7 anos??? que benção! imagino que seja uma batalha diária mas que é recompensada por muito amor! por isso nunca me conformei com o diagnóstico “incompatível com a vida”, ou ” aberração genética”. Nossas filhas são do jeitinho que Deus quis e Ele permiti o tempo necessário conosco. Sorte a sua ter mais tempo que eu ao lado da sua menina. Mas me sinto lisonjeada por ter vivido um amor tão intenso!

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  2. Fátima disse:

    Jú linda e emocionante a historia sua e da Helena, e só quem compartilhou com vocês, sabe que as duas foram muito guerreiras. E que realmente existe um planejamento reencarnatório e que fazemos parte dele antes de nascermos.Bjão no seu coração e de Helena tbém, que ela possa receber nossas vibrações de paz e amor, porque com toda certeza do mundo, ela foi muito bem amada aqui..

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    1. Juliana disse:

      Tenho certeza q ela recebe muitas vibrações amorosas Fatima! Obrigada por tudo!

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  3. Debora disse:

    Ual !!!! Que força, que guerreira! Eh de inspirar !! Obrigada, o seu relato me deu forças pra lutar por outros problemas. Deus a abençoe!!!

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  4. monica correia disse:

    Juliana, muito emocionante sua história com sua bebê ! Nós temos a opção de nos entregar ao desespero e a revolta, ou enxergar a beleza de termos recebido um anjo de Deus. Também eu tenho uma fadinha chamada Lelê que voltou para o lar, para o colo da mãe santíssima e embora tenha dias que seja muito difícil e dolorida a saudade, imagino todos esses anjos vivendo libertos e felizes depois de nos lembrar que o amor sobrevive para sempre. Desejo que Maria derrame muitas bençãos sobre você e sua família, que sua Helena se faça presente sempre em sua vida.

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    1. Juliana disse:

      Libertos e felizes! Pensar nos nossos anjos assim é q me faz aserenar o coração!

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  5. Clara disse:

    Obrigada por compartilhar tua história de amor, força e dedicação. Que Deus esteja sempre contigo e com tua bebê amada ❤ Um grande abraço!

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