A loteria da pílula anticoncepcional e os seus efeitos sobre o corpo

Por – Maria Alice Gregory – Lado M


 

Você já tomou sua pílula hoje? Eu ainda não. Agora são mais ou menos oito e meia, e ainda faltam uns bons 40 minutos pro horário em que eu tomo a minha pílula normalmente. Se eu atrasar meia, uma horinha que seja, não vou ter problema nenhum também. Mas a preocupação tá sempre ali: já tomei? Tomei que horas? Tomei a de ontem? O adesivo com os dias da semana que eu colei pra me organizar na cartela está certo ou eu já tomei a de amanhã também?

Há algum tempo, tomar a pílula anticoncepcional no horário errado era o maior pesadelo que eu poderia ter. Assim como as 11 milhões de outras mulheres brasileiras que diariamente colocam aquele pedacinho inofensivo de remédio na língua e o engolem com um pouquinho de água pra evitar surpresas da fertilidade, o alarme do meu celular é o meu melhor amigo. Ainda assim, se por acaso o alarme falhasse, se eu não prestasse atenção na hora ou se ele tocasse em um momento que eu estava fora de casa e sem a cartela, já era. Não que a pílula fosse perder a sua eficácia e um bebê fosse aparecer ali mesmo na minha barriga só porque eu não a tomei na hora certa; na verdade, eu poderia até esquecer-me de tomá-la dentro de uma margem de 12 horas do meu horário normal que a eficácia do fármaco enquanto contraceptivo ainda estaria confiável.

O problema todo estava nas consequências adversas que a pílula anticoncepcional trazia pro meu organismo: dentro de um período de 8 horas a partir do momento que eu tomasse a minha pílula antiga, eu era inundada por enjoos e ânsias constantes. Tontura, fotofobia e enxaquecas surreais eram parte da rotina. Em uma pesquisa realizada no começo do ano aqui pelo Lado M, descobri, inclusive, que não sou a única: das 166 mulheres que responderam ao questionário, 119 identificaram a enxaqueca e outras 76 a náusea como uma constante em suas vidas desde que iniciaram o uso da pílula, sendo que essas não eram as únicas opções contidas na pesquisa.

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Ainda que a princípio possa parecer bastante inconciliável conviver com mudanças que podem acarretar problemas drásticos nas nossas rotinas corridas, esses efeitos colaterais da pílula não são nenhuma novidade para as mulheres. O efeito de cada marca diferente de contraceptivo oral vai sempre provocar consequências diferentes de corpo para corpo, portanto, não há como prever como cada pílula vai reagir no nosso organismo. “Vários estudos recentes [sobre a pílula anticoncepcional] têm demonstrado como elas podem provocar efeitos claros e alarmantes sobre a libido e a fertilidade, mudanças de humor, depressão, aumento de peso e fragilidade óssea”, comenta Alexandra Pope, criadora do projeto Red School, que promove, para além da aceitação da menstruação na vida da mulher, novos paradigmas no entendimento da saúde e bem estar da mulher. “Frequentemente, os meios de comunicação falam sobre estes tipos de efeitos secundários, mas normalmente estes são minimizados pelos especialistas que consideram suas vantagens compensam por essas ‘pequenas’ preocupações”.

É uma realidade: é difícil encontrarmos por aí qualquer lugar que vá nos dizer os reais efeitos negativos da pílula anticoncepcional sobre o nosso corpo. Não que isso signifique, aqui, que o ideal seria se todos os veículos começassem a divulgar casos e casos de mulheres que têm suas vidas atrasadas pelo uso de anticoncepcional; longe disso, acreditamos e compreendemos o valor social que a pílula têm sobre nossa independência sexual e o quanto devemos a ela em termos de emancipação e empoderamento da mulher.

A real questão aqui é entender o quanto a pílula realmente é a única saída na hora de praticar sexo seguro (entendendo aqui, com certa liberdade poética, a “segurança” como a contracepção) e questionar o quanto conhecemos sobre ela no momento em que decidimos utilizá-la. Para começar, a mulher deveria saber que as pílulas anticoncepcionais são um medicamento desenhado para interferir nas funções normais do nosso corpo. Assim, para serem efetivas, elas induzem o corpo a um estado bioquímico semelhante ao da gravidez, o que impede a ovulação e faz com que o muco cervical seja impenetrável, e que o útero não se mostre receptivo para a implantação de um embrião. Até aí, não existem grandes novidades. Ainda assim, Alexandra faz questão de lembrar: “alguns efeitos secundários [da pílula] são o resultado direto da introdução de produtos químicos sintéticos em nosso organismo que imitam os hormônios naturalmente produzidos pelo nosso corpo, ainda que não sejam idênticos a estes. Por um lado, os hormônios sintéticos são, aproximadamente quatro vezes mais fortes que nossos níveis naturais. Por outro, ainda que a influência de um procedimento ou de um método contraceptivo mecânico se limite a uma zona específica do corpo, os produtos químicos se distribuem por todo o organismo através da corrente sanguínea, afetando a todos os órgãos e processos que se desenvolvem no corpo”.

O machismo por trás da indústria farmacêutica

Na nossa matéria sobre as propostas de pílulas anticoncepcionais masculinas, mostramos um pouco sobre várias frentes que vêm pesquisando e tentando inserir no mercado uma nova forma de contracepção voltada para os homens. Afinal, se 98% das pessoas (homens e mulheres) que responderam à nossa pesquisa consideram a pílula masculina como uma necessidade do mundo moderno, porque ainda não vemos esses fármacos com facilidade nas nossas farmácias?

A resposta é meio vaga e divergente: alguns dizem que a pílula ainda não pode chegar ao mercado por causa dos efeitos colaterais imprevisíveis; outros, já afirmam com propriedade que seria impossível lançar um medicamento que pode comprovadamente causar complicações cardiovasculares, aumentar a probabilidade de câncer e ainda provocar a infertilidade se tomado a longo prazo. Ué, mas nós, mulheres, já não temos que lidar diariamente com isso? O risco de trombose, aumento da depressão e maior riscos de câncer não deveriam ser questões preocupantes com relação ao nosso uso da pílula também?

Enquanto mulheres, nós somos responsáveis pelo consumo de uma fatia bastante considerável do mercado farmacêutico. Somos as maiores consumidoras de cosméticos, remédios para dor de cabeça e cólicas e, é claro, pílulas anticoncepcionais, de tal forma que em 2008, a crise nem passou perto das indústrias cosmética e farmacêutica, que cresceram por volta de 8%. As mulheres compõem a maior fatia desse mercado consumidor, em uma busca incessante de moldar o corpo, a aparência e o comportamento.

Transcendendo a pílula anticoncepcional e conhecendo novos mundos contraceptivos

Você já deve ter percebido, a essa altura, que mesmo conhecendo todas as consequências negativas que a pílula traz à minha vida e rotina, euzinha, que vos escreve, não deixei de consumi-la. Para sanar ao grande “ué” que se põe na mente de muita gente que acha que o simples fato de não gostar de algo te faz parar de fazê-lo, explico: passei muito tempo tomando uma pílula anticoncepcional que não gostava e da qual era consciente sobre os efeitos no meu corpo. Ainda assim, eu não conseguiria me prestar a confiar em nenhum outro meio de prevenção à gravidez (e mesmo não sendo um risco constante, só conseguia pensar na pílula e na camisinha como métodos contraceptivos aceitáveis nos dias de hoje). Foi só depois de muito tempo conversando com meu ginecologista, fazendo uma bateria de exames para entender a composição de hormônios naturais do meu corpo e lendo muito, mas muito mesmo sobre os métodos contraceptivos não tão conhecidos no mercado que eu comecei a entender que talvez a pílula não fosse a única saída para mim.

Continuo tomando a pílula, por enquanto, porque gosto dos efeitos colaterais positivos (ainda que totalmente focados em padrões estéticos construídos socialmente) que ela traz pra mim, como diminuir os meus pelos, a sudorese e, é claro, me manter segura de que não engravidarei enquanto estiver tomando tudo dentro dos conformes. Me acostumei ao fato de que a minha pílula anticoncepcional atual me fez ganhar algum peso, piorou consideravelmente minha ansiedade e me deixa um pouco mais sonolenta que o normal, mas procuro não pensar que, somente por estes serem alguns dos poucos efeitos negativos que ela tem, este seria o melhor meio que eu poderia encontrar para não engravidar.

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre as diferentes formas de contracepção nem sempre divulgadas na mídia e na educação sexual escolar, fica a dica do site Direito de Escolha, que tem alguns textos bastante informativos sobre outras formas de se prevenir para a gravidez.


Post da página Lado M, obrigada Ana Paula Souza pela colaboração em nos permitir divulgar esse conteúdo tão importante.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Ana Paula Zeni disse:

    Super concordo com a matéria e ainda acredito que seja importante lembrar que quando você decide ter um filho (em algumas mulheres) aparecem os efeitos da pílula. Quando você pára de tomar a pílula, seu corpo muda e começa o processo de “desintoxicação”, leia-se sofrimento. Há muito o que se estudar ainda, afinal não é só a mulher que deve cuidar do corpo e decidir a hora de ter um filho. Acredito que a comodidade como a autora citou é o que não deixa a mudança acontecer. Obrigada pela matéria!!!

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