Mulheres em transformação: marcas e intensidade da maternidade, um encontro consigo mesma

Por Thais Cimino – 24 Fevereiro 2016


A maternidade pra mim veio de surpresa, ainda que desejada. Para uma amiga veio de surpresa e indesejada, pensou em abortar mas não teve coragem. Já para outra amiga veio planejada e desejada. Uma amiga engravidou algumas vezes e abortou todas e hoje é mãe porque assim desejou. Tenho uma amiga que planejou e nunca conseguiu engravidar. E sei de outra que conseguiu mas perdeu o bebê. E tenho um tanto de amigas que não desejam a maternidade. Minha tia tem duas filhas e perdeu uma vez entre elas. Minha mãe perdeu duas vezes depois de mim. E tenho uma amiga que nunca realizou o desejo da maternidade porque não encontrou a pessoa certa e já não pode mais engravidar.

Daí a minha filha nasceu de um parto natural hospitalar porque eu quis assim. A da minha amiga por uma cesárea agendada por que sim. Outras tantas de cesarianas agendadas, enganadas ou nem pensadas. A outra fez 2 cesarianas na Holanda, necessárias, uma de emergência e uma agendada – ainda que desejou muito o parto natural. A minha mãe parto natural hospitalar com episiotomia e as duas perdas em casa. As minhas amigas que não têm e não terão filhos se interessaram por essa história de parto porque eu trouxe isso na vida delas. Minha tia teve uma filha prematura por cesariana e a outra também e hoje sente que foi enganada. E outras tantas amigas que tiveram partos normais e uma recém mãe de um parto hospitalar na banheira com direito à fotógrafa.

Eu amamentei durante 1 mês e meio e fui vencida por uma sensibilidade extrema na mama, mastite, abscesso mamário, muita dor, uma cirurgia (com anestesia geral) para drenar a inflamação e um corte aberto durante 1 mês de cicatrização. Minha amiga amamentou com tranquilidade durante 4 meses e desmamou para voltar a trabalhar. A outra amamentou o 1º por 9 meses (parou por que ele quis) e a 2ª fez dois anos e não sei se ainda mama, mas sei que mamou pelo menos até 1 ano e meio. A outra não quis amamentar, nem 1 dia, deu direto a mamadeira. A minha mãe me amamentou até os 9 meses e sofreu de dor no início. Outras deram mamadeira e peito. Algumas o leite secou por questões psicológicas. Tem outra que a filha dela faz 2 aninhos agora e mama no peito.

Eu trabalho desde casa no Temos que falar sobre isso e escolhi ficar em casa para cuidar da minha filha os 2 ou 3 primeiros anos, agora gostaria de colocá-la 2 ou 3 dias meio turno na escolinha, mas não posso pagar, estou esperando abrir vaga na escolinha pública. Uma amiga trabalha desde que acabou a licença-maternidade e deixa a filha com os avós paternos. A outra fica com o filho de dia e o pai fica com ele quando chega em casa de tarde pois ela vai trabalhar de noite, porque quer e precisa fazer algo para ela. Outra trabalha porque precisa e a filha vai pra creche desde bebê. A outra ficou em casa com o filho até os 2 anos. A minha mãe me colocou na creche meio turno desde que tenho 3 meses pois precisava trabalhar, e ia me amamentar ainda que fosse proibido pela creche! A outra deixa a filha na creche em turno integral porque quer, não precisa trabalhar.

Na minha casa se faz cama compartilhada, desde o 1º dia até hoje. A minha amiga fez um quartinho e a filha dela dorme lá desde o 1º dia. Outra fez o quartinho e nunca usou. Tenho algumas que têm o berço no mesmo quarto, do lado da cama delas. Tem uma que mora num apartamento de 1 quarto e não tem opção. A outra sempre disse que ia colocar no outro quarto porque precisava de privacidade, e no fim compartilha cama. A outra sempre achou que cama compartilhada era o melhor e não aguentou nem 1 semana. A minha mãe é separada desde que eu tenho 3 anos e nós sempre compartilhamos cama, até eu ter uns 11 anos quando nos mudamos para um apartamento maior e pude ter o meu próprio quarto por 1ª vez. Tenho uma amiga que dorme na cama com o bebê e o pai numa cama do lado.

Agora: em suas marcas, preparar, apontar, atirar, fogo!!

Não gente. Não.

A última coisa que precisamos é uma tropa de franco atiradores apontando diretamente para a nossa cabeça.

Essas histórias brevemente descritas acima, são de pessoas reais. É a minha história, das minhas amigas, das minhas conhecidas. É a história da minha mãe e da minha tia. Essas pessoas existem no mundo real. E assim como elas, os Desabafos, que são uma narrativa sobre si, retratam uma parte da vida de pessoas que existem de verdade. Que sofrem de verdade. Seres humanos sem igual.

Aqui, antes de mais nada é um espaço de singularidades. Somos um espaço onde as mulheres podem trazer a sua história única. Podem “falar” através de seus desabafos escritos. E vou contar uma coisa pra vocês, às vezes, é muito difícil conseguir sentar em frente a uma tela, colocar pra fora o que está incomodando e materializar a sua história no mundo. Porque o mundo vai atirar. Mais ainda o mundo virtual.

A ideia de abrir esse espaço há 9 meses se deu a partir da constatação de que falando, expressando e repetindo a minha história, eu ia entendendo, aceitando e transformando a minha história em algo mais. É complicado falar de dor, sofrimento, desespero. Mais complicado é calar esses sentimentos. Sofrer calada é cruel. Sofrer calada com um bebê nos braços, pode ser trágico.

Mulheres e mães estão o tempo todo tentando provar para si próprias e para o mundo que estão fazendo o melhor segundo a cartilha imaginária que lhes é imposta. Com sorrisos elas escondem as suas dores porque né, não se pode falar sobre isso.

Porém, escrever, postar e compartilhar essas narrativas sobre si mesma pode ser muito empoderador e saudável pois é um encontro consigo, um tempo que tomamos para nós mesmas, de expressar a nossa singularidade em descrições de quem somos e do que estamos sentindo. Deixamos, assim, as nossas experiências e memórias gravadas para que possamos (re)ler a nós mesmas além de possibilitar que outras pessoas também nos leia. Isso define, por si só, que somos alguém, que existimos, que ocupamos um lugar no mundo e nos dá a chance de nos (re)inventarmos ou de que alguém nos reinvente. Podemos abrir portas para outras ou novas inquietações, nossas ou de outras pessoas, permitindo que surjam reflexões e diálogos sobre a nossa existência e desconstruções de papéis que desempenhamos diariamente às vezes no “piloto automático”. Essa é uma maneira muito potente de se autoconhecer e de conhecer partes da história de muitas mulheres em transformação ou transformadas pelas marcas e intensidade da maternidade.

Eis que suas vozes podem ser ouvidas. E podem ecoar em outras mulheres. Outras mulheres se identificam e começa a se formar uma rede.

Mas espere aí, pois muitos ainda desconhecem uma outra rede que existe por trás do funcionamento dessa parte do Temos que falar sobre isso. Um grupo de mulheres está trabalhando voluntariamente para que essas vozes possam ser ouvidas, e chegar a muitas pessoas. Esse grupo (onde muitas são mães, todas profissionais, que têm outras atividades) lê, edita, escolhe uma imagem para cada desabafo. Elas, além disso, tomam o cuidado de se colocarem à disposição e manter a comunicação aberta com cada uma dessas mulheres de carne e osso que estão por trás das palavras desses desabafos, caso as mães precisem de algo mais.

Posso garantir pra vocês que acordar de manhã e ler histórias reais de mulheres em sofrimento não é divertido, é um trabalho de empatia, lágrimas, dor, frustração, perda de equilíbrio, mas acima de tudo, é muita vontade de ajudar a mudar a realidade, de lutar pela transformação e de fazer alguma coisa para que isso aconteça.

As mulheres se surpreendem muitas vezes de terem um retorno. Porque nesse mundo ‘áspero’ como bem comentou a Teresa Ruas, poucos se dão ao trabalho de oferecer uma palavra afetuosa ao invés de pedras, tiros, juízos ou menosprezo.

Para cuidar das nossas crianças, temos que cuidar das nossas mulheres. Para cuidar das nossas mulheres temos que ouvi-las. Para ouvi-las temos que deixar que se expressem livremente e parar de julgá-las. Para parar de julgá-las temos que caminhar nos seus sapatos, ou seja, praticar a empatia, ou seja compreende-las emocionalmente, impregnar-nos da sua experiência, sentir o que elas sentem. Para praticar a empatia, temos que despir-nos das nossas próprias armaduras, deixar os preconceitos guardados e querer genuinamente acolher o outro, colocar-se vulnerável para olhar para si mesmo e encontrar em si o que irá lhe conectar com o outro. Requer envolvimento. Requer autoavaliação. Requer tocar nas nossas próprias feridas.

Devemos reconhecer que o sofrimento e a dor existem na maternidade. De nada adianta queremos sempre florear e mostrar o lado positivo quando as mulheres estão gritando, extravasando e clamando por serem ouvidas no seu problema ou dificuldade.

O que nós estamos propondo é justamente um espaço para isso. Um espaço que permite a troca empática entre seres humanos. A formação de uma rede de apoio. A oportunidade de conexão. Através de tudo isso surge a ocasião de transformar realidades difíceis e dolorosas em algo melhor para as mulheres, as nossas crianças, as nossas famílias e a nossa sociedade.

Mulheres que encontram onde expressar-se e serem ouvidas, que encontram acolhimento ao seu sofrimento diante de situações de transformação intensa e que encontram espaços que permitem a elaboração dos seus sentimentos, dores e marcas, se tornam potenciais agentes na construção de redes de apoio, de proteção à saúde, de empoderamento e de transformação social.

E é por isso que nós Temos que falar sobre isso.

Obrigada a todos que estão dando um pouco de si para ajudar os demais. Tenho orgulho dessa Equipe que se deixa tocar pelas histórias que recebemos, e orgulho dessas mulheres que compartilham um pouco de si através de suas histórias.

Obrigada às 19.000 pessoas que estão nos acompanhando pelo Facebook. Aos 841.000 visitantes no nosso blog. Aos cerca de 350 Desabafos Anônimos (ou não) que já recebemos.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ana disse:

    Escrever a vocês fez parte do meu processo de cura, uma cura da alma, muito dolorida, mas necessária… E isso não tem preço! Muito obrigada por abrir esse espaço.

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    1. Nossa Ana, que lindo, estou emocionada com o teu comentário. Que maravilha que você esteja nesse processo de cura da alma, é tão importante, né? Conte sempre com a gente, com esse espaço e consigo mesma. Um abraço,
      Thais Cimino
      Fundadora e parte da Equipe Temos que falar sobre isso

      Curtir

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