Menos julgamento, mais união social!

Por Teresa Ruas – 23 Fevereiro 2016


É fato inquestionável do quanto nossa sociedade vivencia um intenso período de transformações sociais. Transformações essas que nos permitem dialogar, refletir, rever, viver e opinar sobre diferentes temáticas, realidades e condutas que, ainda, perpassam por valores, normas que foram construídas socialmente/culturalmente e “impostas” em nossas relações.

Atualmente, discutir, por exemplo, sobre a liberação do aborto, sobre as desigualdades sociais que impõem diferenças na forma de viver e lidar com as escolhas femininas, sobre os direitos da licença maternidade e paterna, sobre as demandas da amamentação, sobre os sentimentos que surgem diante da vivência consciente da maternidade e da não maternidade, dos transtornos psíquicos que podem surgir diante de períodos tão singulares quanto o período gravídico-puerperal, entre outros, reflete, primeiramente, uma possibilidade nesse mundo tão ‘áspero’ e, ainda tão baseado em comparações, em julgamentos e competições, do quanto o dialogo e a compreensão dos problemas e das dificuldades que o ser humano vivencia deve ser valorizado em nossas relações, em nossa sociedade e em nossa cultura.

Quando expomos lugares e ferramentas para que essa dialogicidade – seja virtual ou presencial – ocorra, estamos expressando, especialmente, a nossa preocupação social e consciente com o outro. Estamos expressando a nossa preocupação enquanto um cidadão e um ser humano do século XXI, que já compreende em seu cotidiano, o quanto a articulação social e o suporte social e, em rede compartilhada, pode ser, sim, um recurso facilitador para a expressão de quem somos.

É válido ressaltar que o suporte social, de acordo com Bullock (2004), é composto por quatro classes: suporte emocional/afetivo – afeto, escuta, estima, respeito, igualdade -, suporte de reforço – expressões afirmativas e sentimentos de reconhecimento -, suporte informativo/informacional – sugestões, conselhos, informações e conhecimentos cedidos – e suporte instrumental – auxílio financeiro, tempo, espaço físico e recursos materiais -.

Portanto, quando fornecemos algum tipo de suporte social seja pela escuta, pelas palavras escritas, pela arte, pelo encontro presencial, pelo encontro virtual, acreditamos o quanto as palavras, as ações humanas, as ocupações humanas e os sentimentos carregam em si, tamanha singularidade, importância e sentido.

E quando compreendemos o valor e a importância de uma escuta, de uma narrativa escrita e/ou falada como ferramentas para a expressão da singularidade de cada ser humano, vamos muito além de qualquer movimento ou concepção defendida ou rejeitada nos dias de hoje. Porque, antes de qualquer movimento e suas ideologias, existe um ser humano que carrega a sua história de vida, as suas marcas, os seus processos e as suas escolhas.

De acordo com Ruas (2014), as palavras carregam sentido, significado, sensações. É um corpo mesmo! Um corpo dotado de sentido linguístico, cultural e afetivo, expresso em pensamentos, em memórias, em trechos e em narrativas. Narrativas carregadas por um significado singular e único. E por isso mesmo podem ser transformar em um recurso potente para desvelar experiências dotadas de tamanho sentido para mulheres, homens, pais e mães diante do enfrentamento de situações difíceis, sofridas e/ou alegres.

É intrigante como a nossa sociedade julga e exclui, até mesmo ações que tentam, ao máximo, dar o devido valor ao afeto, ao acolhimento, à escuta, às palavras narradas frente ao sofrimento, às necessidades, às especificidades e às diferenças humanas. É intrigante como mesmo diante de transformações sociais significativas que ocorreram ao longo do século XX, ainda temos dificuldade de compreender ferramentas e recursos que tentam valorizar e dar espaço ao que chamamos de experiências significativas. E, aqui, entende-se por experiência dotada de sentido:

Algo que nos acontece, que nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e que nos transforma. Quando falamos em “fazer” uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, “fazer” significa aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo e da vida. Heidegger, 2006.

Quando permitimos espaços nos quais o sujeito tem a possibilidade de ‘se abordar por ele próprio’ estamos indo muito, mas muito além de movimentos sociais/culturais classificatórios, excludentes e/ou baseados em interpretações de que as queixas, reclamações ou desabafos da vida cotidiana são atos que acabam sendo prejudiciais para o sujeito.

Afinal de contas, estamos antes de tudo, tentando, ‘labutando’ desconstruir práticas sociais excludentes, normativas, classificatórias e que ainda não valorizam o impacto e o papel da cultura, da história de vida, do afeto, da espiritualidade e do contexto/entorno social na vida diária dos indivíduos (GIACON, 2002; FERREIRA, 2004; FREITAS, 2004; MORIN, 2011; RUAS, 2014)

Portanto, finalizo esse texto afirmando que antes de julgar, desqualificar e desvalidar a ação do outro, seja por uma rede social de suporte presencial e/ou virtual, deveríamos nos unir e de forma intersetorial. Pois acredito que essa união seja extremamente potente para demonstrarmos o quanto as nossas práticas e determinantes sociais/culturais , ainda, desqualificam estratégias subjetivas para o enfrentamento das dificuldades próprias do existir, especialmente, as voltadas para as identidades femininas. Além de desvalidarem estratégias que permitem a mulher se tornar mais resiliente, empoderada e consciente do seu poder enquanto atriz da sua própria existência e vida.

Menos julgamento e mais união é o que desejo a todos os atores e atrizes sociais que tentam, de alguma forma, construir um mundo e uma sociedade mais humana e igualitária.

Um grande abraço, Teresa Ruas

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