Chorei, chorei, chorei por ser fraca

O meu relato de gravidez e parto

Tenho 29 anos e estou um país da Europa, na região dos Balcãs. Eu SONHEI a vida inteira em ser mãe. E numa fase de total mudança eu engravidei, tinha acabado de me mudar as pressas para o país do meu marido e minha adaptação estava sento muito muito difícil assim como ainda está, porém com a notícia da gravidez eu me desliguei do mundo que me perturbava e decidi viver a minha gestação como eu sempre sonhei. Como sempre ninguém fala que os sonhos tem lados tão escuros. A comunidade brasileira aqui era tão pequena e as meninas que moram aqui já estão totalmente satisfeitas e conformadas com tudo aqui, a maioria com filhos crescidos que não achei apoio nenhum naquilo que eu precisava apesar de todas me acalmarem pra eu me sentir segura. Eu queria um parto natural, humanizado assim como eu tinha planejado em Belo Horizonte. Minha família é de mulheres enfermeiras então em casa eu teria todo apoio pra isso. Mas eu não tinha como voltar pra casa neste momento, então comecei as buscas por informações de médicos e doulas e maternidades. Logo fui frustrada pq a médica pública era a do bairro sem poder mudar, a maternidade era a da cidade sem poder mudar e doulas não existem aqui. Acreditem, estou na Europa e isso não existe aqui! Pedia pro meu marido e sogra me ajudarem e só ouvia: “Se o médico disse cesariana vc terá que fazer!” 😕 Eu lutava contra isso todos os dias, e busquei em sites e páginas do Brasil como fazer pra ter maiores chances de um parto normal e aqui por relatos, que também são poucos e nem sequer fotos de parto aqui eu encontrei (depois eu conto por que). Eu fiz um programa de tudo a ser feito e comprado durante a gestação como todas as mães, de forma a fazer da minha vida mais fácil pq já sabia que teria pouca ou nenhuma ajuda do marido, e eu mão queria ficar incomodando minha família no Brasil pra não ficarem desesperados lá sem poder fazer nada, e eu já tinha feito um curso de cuidadora de bebês em Belo Horizonte e trabalhei por um tempo com 2 crianças, fora que eu sou a neta mais velha de 15 em casa, então me sentia mais segura de algumas escolhas pelo que eu já tinha visto e vivido, mesmo assim um tanto insegura por estar fora da minha área de apoio. Nos primeiros 3 meses eu paguei uma médica privado (mas a bonita me disse que muito provavelmente minha gravidez não iria prosseguir pq o FETO era muito fraquinho ( óbvio, 4 semanas) e ainda me receitou um medicamento proibido para gestantes no início da gravidez, para tratar um infecção urinária e eu descobri Graças a Deus pq a bula era em idioma local e eu tive que Googlar né! Meu marido ligou pra saber se era isso mesmo e ela somente se desculpou sem receitar outro ou dar maiores esclarecimentos.) Nunca mais viu minha cara e eu fui a primeira vez no sistema de saúde público. Por sorte a médica era ótima, mas depois de 3 meses se mudou e veio uma outra que eu odiei que não dava informação nenhuma, mas obrigatoriamente eu me firmava em informações que eu tinha recolhido e fazendo uma média em comparações e relatos encontrados em diversos portais de gestantes na internet, eu sentia que tudo estava indo bem, fora os enjoos eu estava ótima, sem nenhum problema. E também a partir do sétimo mês eu já iria fazer o pré natal na maternidade que meu filho nasceria. Chegando lá, nem curso básico de gestante, nem carteira de gestante, nenhum cuidado especial por parte dos médicos, mas as enfermeiras foram meus anjos a cada consulta e me davam informações preciosas em inglês, em italiano (muita gente aqui fala alguma coisinha em italiano, mímica e “misturês”). Quando cheguei na semana 40 graças ao marido que não me permitiu voltar pra casa e ter o meu bebê na segurança do meu lar e do meu país, meu filho não tinha nada, a não ser o que a minha família mandou do Brasil graças a Deus e nesta semana MEU SOGRO deu de presente o berço, um guarda roupas, o carrinho e mais dinheiro pra eu comprar o que faltava pro meu pitico.

Eu já sentia contrações mais fortes do que as de treinamento, falei com a médica que fez o toque e disse que eu estava com 2 cm de dilatação e que podia voltar pra casa e ficar atenta. Assim eu fiz, permaneci atenta até que um dia resolvi caminhar no parque pq estava muito nervosa, caminhei por 40 minutos e as contrações ritmaram-se a cada 15 minutos.Voltei pra casa, deixei a mala pronta e as contrações pararam, eu fui então limpar a casa (17:00 hrs), coloquei a roupa pra lavar e lavei o banheiro. Comecei a tomar o meu banho e percebi contrações ritmadas outra vez por volta das 19:30 a cada 5 minutos. Fomos para a maternidade e para minha sorte a enfermeira anjo, já senhorinha estava lá. Eu só consegui pedir que ela me ajudasse pois eu queria um parto natural, sem analgesia e estava muito nervosa. Ela disse que ficaria ao meu lado enquanto pudesse, e me explicou com mímica os procedimentos normais do hospital. Eu decidi não relutar tanto pra estar bem durante todo o trabalho de parto. Ela injetou o soro pra fazer a lavagem e pediu que eu fosse ao banheiro. Assim foi feito (sensação terrível, mas foi rápida) depois disse: “Seu marido vai poder ficar aqui com vc pq vc não fala nossa língua, mas quando o médico chegar ele terá que se retirar. Pode caminhar pelo quarto e ficar tranquila, eu vou fazer o possível pra estar aqui quando seu bebê nascer, mas se demorar muito eu não poderei pq tenho outro plantão.” Logo minha bolsa rompeu e ela disse que eu estava já com 6 cm. Tinha esperança que ia conseguir. A dilatação aumentou e as contrações tbm. Porém fiquei empacada no último centímetro por horas e a dor era insuportável, eu estava cansada e a enfermeira veio se despedir de mim, dizendo sentir muito por não poder ficar, e me aconselhou no começo da manhã a tomar uma analgesia pra aguentar o trabalho de parto pq eu já estava há 12 horas sentindo dor e precisaria ser forte. Eu confiei nela outra vez e tomei… fiquei assim por mais 5 horas e durante todo esse tempo conectada ao cardiotoco, monitorando meu filho e não podia me mover, por mais que eu pedisse pra ficar de pé e de cócoras pra ver se este último dedinho dilatasse logo, não adiantou. O enfermeiro não permitiu em nenhum momento. Eu não podia comer, nem beber água… nada… só tinha que ficar ali, imóvel e calada pra não atrapalhar as outras grávidas. Mas eu me lembro a começar a sair de mim de tanta dor, foi quando o enfermeiro disse que eu poderia tomar um soro para hidratar e ganhar força e ajudaria a dilatar rápido pq faltava muito pouco. E ia veio colocando o soro e eu perguntei se era ocitocina e ele não me respondeu. Logo as contrações aumentaram e aumentou a dor e diminuiu minhas forças. Eu percebi então que era sim, “o sorinho maldito” . Eu não aguentava mais e comecei a gritar desesperadamente e ele disse que eu precisava esperar o médico passar, e demorou mais umas 3 horas nessa angústia pro médico aparecer com mais uns 12 estudantes, ficou olhando pra minha cara, fez um toque que me dói só de pensar ainda hj. Me disse: “levanta!” Eu não conseguia parar de pé de tão fraca, eu pedi água por favor e ele disse que estava saindo do plantão e outro médico viria e ele passaria o meu relatório. Assim, ele disse que tinha uma brasileira fazendo um escândalo desnecessário e que ele (o próximo doutor) já podia me levar pro bloco e fazer o parto cesariana pra acabar logo com isso. Eu só me lembrei da minha sogra dizer: não relute, pode ser pior! Logo eu não vi mais meu marido e já estava sentada na mesa com o anestesista (outro anjo) falando comigo em espanhol e me fazendo um carinho no rosto: “Calma mamãe, a enfermeira da noite me disse que vc queria um parto normal, mas eles não vão fazer. Já faz muito tempo que vc está aqui, poderiam ter te colocado pra caminhar e fazer exercícios, ou te levar pro chuveiro pra vc ganhar força, mas nem todos os médicos fazem isso. Agora vc está exausta eu vou te anestesiar e vou ficar com vc, seu marido foi retirado daqui e está lá fora, agora não pode entrar. Confie em mim e fique calma.” Assim entrou outro médico e sua residente…
Nem me olharam na cara, só disseram seus nomes e conversavam entre si, eu tenho pra mim que quem estava fazendo o meu parto era a residente pq o médico estava muito afastado da mesa. Quando meu filho nasceu, o anestesista que ainda segurava minha mão disse: Olhe, o seu bebe nasceu tão lindo e moreno como vc! A enfermeira passou ao meu lado e eu percebi que estava amarrada, quando fui toca-lo e não consegui. Eu vi meu filhinho de longe e ouvi o seu choro. Vi todos os médicos saindo e ficando só o anestesista que recusou o chamado e permaneceu ao meu lado e a residente fazendo a sutura. E eu adormeci. 1 hora depois eu estava no quarto e outra enfermeira trouxe meu filho, já limpo e enrolado. Eu fiquei sozinha com meu filho, sem nenhuma instrução. Eu mesmo deitada retirei ele de dentro do embrulho, tirei suas roupinhas e coloquei ele no meu peito, e chorei, chorei, chorei por ser fraca. Sozinha no hospital permaneci por 7 dias e meu marido só podia entrar na hora da visita 1 vez por dia. Mas eu não deixei que tirassem meu bebê de mim por 1 segundo sequer, fiquei 7 dias com ele no colo, 7 dias sem banho e sem dormir pra que não o levassem…. e quando cheguei em casa (risos) todos esperavam que eu estivesse com cara feliz (Afinal meu primeiro filho tinha acabado de nascer) ninguém arrumou minha casa, ninguém fez 1 comida, nada. Eu não fiz resguardo, não me permiti chorar pq eu ia fraquejar (isso as mães não devem fazer: devem desabafar e chorar quando for preciso) mas eu não podia pq estava sozinha mesmo e eu não queria meu filho numa casa suja, e eu não podia ficar sem comer, pq queria e deveria amamenta-lo. Então eu ficava com ele, cuidava, trocava, dava banho, e quando ele dormia eu ia aos poucos arrumando minha casa. Depois, na próxima soneca, eu fazia comida, e na próxima tomava banho (com ele no carrinho, no banheiro comigo) e nas próximas eu dormia com ele. E nessa hora chegava sempre alguém da casa pra dizer que eu estava ótima, que já conseguia só comer e dormir. E assim é até hj com meu bebê com 5 meses. O que eu escuto é que só como e durmo. Pq meu filho é um anjo, só teve cólica 2 vezes e nada nunca mais até hj, que já dorme a noite toda. E o resto, bem…. A casa se arruma sozinha, a louca se lava, a comida se cozinha e se põe na mesa pro marido, a roupa se lava, se passa e se guarda, e eu… só como e durmo.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Fernanda disse:

    Vc é guerreira! Forte e abençoada! Peça a Deus uma direção pra sua vida em relação a seu marido,pois ele não merece vc,essa sua sogra… inimiga maior não tem!
    Desejo toda sorte de bençãos a vc e seu BB.
    Família são aqueles te amam,acho que vc deveria voltar pra sua casa aqui.
    E lembre-se Deus ama vc e seu BB imensamente e tem o melhor pra vcs.

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  2. Samira disse:

    Você é tudo menos fraca, chorei com o seu relato, que você tenha força por seu filho.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Tatiana disse:

    Gente, que espécie de marido é esse???? Fico indignada com tanto descaso com quem está precisando tanto de apoio e ajuda nesse momento…

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  4. Lu disse:

    Você foi muito forte, imagino tudo isso acontecendo em um país estrangeiro, longe de sua mãe, de sua família…Mas não existe a possibilidade de seu marido ajudar um pouco pelo menos? Já conversou com ele sobre isso? Lavar uma louça, ficar com o bebê pra vc dar uma voltinha, tomar um banho mais longo? Você merece! Ainda mais depois de tudo que passou!
    Torço pra que as coisas melhorem pra vc, que você consiga sempre encontrar forças nessa jornada tão difícil! Beijos!

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  5. Renata disse:

    Relato muito intenso! Só posso desejar mais força ainda para essa mãe!

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