Prefiro viver um dia de cada vez

Uma filha de 4 meses e meio, 34 anos


Tive minha filhinha Manu há quatro meses e meio. Parto cesáreo, sofrido, num hospital público da minha cidade. Todo o meu pré natal foi também feito neste hospital, médicas ríspidas, grosseiras.
No primeiro ultrassom, vimos que a translucencia nucal, exame que mede a espessura da nuca do neném com 12 semanas, estava alterado. Ficamos apavorados. Fomos à minha obstetra, que nos disse que o nenem poderia ter alguma síndrome genética. A mais comum é a Síndrome de Down, mas poderia ser qualquer uma. Ou nenhuma, pois o exame não é diagnóstico, mostra apenas uma probabilidade daquele bebe ter alguma alteração genética. Fizemos a amniocentese que um mês após confirmou: Síndrome de Down. E além da SD (Síndrome de Down), ela tem uma cardiopatia complexa, terá que passar por cirurgia cardíaca.
Hoje, vivo uma rotina de cuidados com minha pequena: mamadeiras, fraldas, remédios. E tem as crises de hipoxemia, quando a oxigenaçao baixa a níveis muito baixos. Volto ao trabalho mês que vem. Não sei como, mas terei que voltar. Coração na mão desde agora, não tenho nem como falar disso. Prefiro viver um dia de cada vez. E por hoje, tenho que cuidar dela…
Estou cansada e mal cuidada, não tenho tempo para mim mais… Tem dias que, fim de tarde, vejo que não penteei os cabelos, não escovei os dentes… E olho para ela: linda, bem cuidada… Apesar da cardiopatia, é muito saudável, graças a Deus! Tem horas que me pego pensando como vou continuar a vida com uma criança tão dependente, tão especial. Como vou continuar a minha vida se tenho que cuidar da dela antes e não sobra tempo para mim?
Quando eu tento descansar, sempre tem alguém que espera que eu seja a mulher maravilha, como se mãe não descansasse, não dormisse, não comesse, não fosse ao banheiro… Meu marido nunca ferveu uma mamadeira dela, pega tudo limpo e deixa bagunçado, como se a obrigação de cuidar das coisas dela fosse só minha.
Enfim, me sinto cansada, triste, isolada do mundo. E olho para minha filha, tão frágil, delicada, tenho pena dela ter síndrome de Down. Me pego pensando que ela não deveria ter nascido na minha família, pois não temos condições de dar a ela tudo que ela precisa, e ela precisa de muita assistência de diferentes profissionais. E me culpo por ter estes e outros tantos pensamentos. Por aí vai…
Obrigada pelo espaço. Gostaria de ter algo melhor a compartilhar.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Soraia Braz disse:

    Mamãe da Manu, eu também gostaria de saber dizer algo reconfortante, porém, o que posso compartilhar é quando eu me vi grávida sabendo da situação financeira desfavorável, me senti muito triste. E uma velhinha sábia me olhou nos olhos e disse: mais do que um lar abastado, uma criança precisa de amor. E o seu está transbordando. Vista seu casaco da super mãe que você é, e vá procurar seus direitos para oferecer esse amor com paz no coração. Um grande beijo

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  2. elisamorales08 disse:

    Eu quis comentar algo que te consolasse, mas fiquei sem palavras. Desabafei há um tempo aqui no TQFSI como eu estava em pânico com a rotina de ter um bebê pequeno o dia todo sozinha e quando li seu relato, fiquei com vergonha de mim. Pois meu filho não tem problema de saúde e meu esposo, quando está em casa, me ajuda com tudo. E ainda sim eu reclamo!
    Mas tente não se cobrar tanto nesse momento….eu também chego ao fim do dia às vezes sem pentear o cabelo ou lavar o rosto viu?
    Quanto ao seu comentário sobre as suas condições de cuidar de um bebê com necessidades especiais…..sossegue seu coração: busque ajuda da Justiça e do Estado para a parte prática/financeira da coisa. Pq o amor a dedicação que sua filha precisa, com certeza vc mostra ter de sobra. Você é exatamente o que ela precisa.
    Que Deus a abençoe e fortaleça nessa missão.

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  3. Ana Ribeiro disse:

    Bom Dia mamãe da Manu. Não se culpe por seus pensamentops, são normais para alguém sobrecarregada, angustiada pela possível separação de sua filha, preocupada com a saúde dela e o cuidado que vc mesmo gostaria de dar. Imagino sua angústia, mas de modo algum pense que ela deveria estar em outra família. Vc está preocupada com ela, pensa nela e a ama, e isso prova que és a mãe que ela precisava ter. meu bbzinho partiu quando eu estava de 8 meses de gestação, possivelmente faltou oxigênio, pode ser egoísmo, mas como eu gostaria de ter ele perto, seja como for.
    Vou tentar ajudar. Conversei com uma advogada, busque o ministério público de sua cidade ou um advogado trabalhista de sua confiança para eles te informar melhor. No caso de comprovação de filho menor com deficiência como Down, que exige assistência diuturna, vc pode ter direito a concessão de horário especial de trabalho sem precisar compensar e sem diminuir remuneração, com amparo na dignidade humana be proteção à família, já que sua filha necessita cuidados constantes.
    Acredito que com uma decisão tomada e mais tempo com sua pequena seu coração ficará mais em paz. Cuidem-se, beijo.

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