As crianças também sentem…

Por Patrícia Guillon – 16 Fevereiro 2016


 

Desde o fim do ano passado venho acompanhando algumas mulheres que perderam seus bebês e outras que os acompanham na luta diária internados na UTI. A perda gestacional tem sido um tema constante nas minhas reflexões e não sei ao certo a razão, mas o fato é que me vejo mobilizada a pensar a respeito desse tema. Tenho lido muitos depoimentos e acompanhado pacientes no dia-a-dia dessa dor que muitas vezes é solitária e incompreendida. Ao longo desse processo, percebi que nessas histórias existe um personagem que também sofre muito mas que é pouco visto: o irmão ou a irmã mais velhos que também estavam esperando por esse bebezinho.
Nossa comunidade cobra das mães que sejam fortes porque precisam cuidar dos filhos que já têm. Mas como? Cada filho é único e perdê-lo, independente de que forma seja, é dolorido demais. É comum, então observarmos as mães fazendo um esforço imenso para não chorar na frente dos pequenos, para serem FORTES, apesar da dor que sentem. Nós não sabemos lidar com a própria dor e menos ainda com a possibilidade de ver nossos filhos entrando em contato com o sofrimento.
Pois bem, digo então, que acho que estamos errados. A tristeza faz parte da condição humana, assim como a alegria e o amor. Independente da nossa vontade, nossos filhos ficarão tristes e perceberão nossa tristeza, pois eles também nos conhecem. Se não conversamos, se não os ajudamos a compreender a razão da nossa emoção, como crianças eles ficam confusos. Percebem que existe alguma coisa errada, identificam que os pais não estão bem, que aquela alegria da espera não existe mais, mas não compreendem essa exatamente o que está acontecendo porque observam nos pais um comportamento como “se nada tivesse acontecido”. O que acontece, é o que sentimos diante do desconhecido: MEDO.
É importante que essas emoções sejam demonstradas para a criança e comunicadas de acordo com a linguagem característica da faixa etária de cada uma. Sem grandes dramas e cuidando para não assustá-las ainda mais, que isso seja feito de forma delicada porém, autêntica e verdadeira. Que seja permitido à criança fazer perguntas e compreender que a tristeza e a raiva são emoções desagradáveis mas autênticas e que fazem parte de alguns momentos da nossa vida. Se necessário, peça ajuda a um psicólogo. Esse profissional é habilitado a auxiliar em situações de crise.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Excelente! Também temos que falar com os irmãos sobre a perda do bebê e sobre a tristeza da mamãe e do papai…não abordar o tema da morte com as outras crianças pode ter como consequência um luto não elaborado, culpa e até um trauma para o resto de suas vidas…

    Alessandra Arrais e Luciana Rocha

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