Hoje a dor insiste em não abrandar

2 filhos, tradutora, 33 anos


 

Estes depoimentos de perdas são tão cheios de companheirismo, de amor e de apoio que eu nunca me senti a vontade de escrever. Mas hoje a dor insiste em não abrandar e a saudade do que poderia ter sido é tamanha que só escrevendo talvez estes sentimentos possam se transformar.
Faz dois anos que eu estava grávida do meu terceiro filho. Faz dois anos que eu estava assustada com a ideia de ter mais um filho. Faz quase dois anos que eu sofro por ele não estar aqui.
Engravidei no susto. Estava tomando anticoncepcional e acabei sofrendo um acidente que me obrigou a tomar antibióticos fortíssimos. Final do mês eu fiz o exame e estava grávida. Meu ex marido já tinha retornado para casa após uma viagem familiar e eu ainda estava na casa dos meus pais. Quando o avisei lembro da frase até hoje: então vamos lá. Ele parecia preocupado mas feliz… grande ilusão minha.
Em duas semanas eu retornei a casa, passei muito mal no voo, minha filha mais velha foi um anjo e meu pequeno também. Chegando aqui foi uma recepção tão fria que logo me dei conta: algo estava errado, alguma coisa tinha mudado.
No sábado seguinte fiz a primeira ultrassonografia. Meus filhos foram junto e estavam super animados com a ideia. Meu ex marido parecia que ficava cada vez mais distante e apavorado. Eu já pensava que ele estava com outra mulher, mas eu estava decidida a primeiro cuidar do meu bebê.
Uma semana depois eu acordei com uma pequena mancha de sangue na calcinha, meu ex havia passado a noite fora. Eu liguei para a médica que disse para eu repousar e parar de me preocupar com ele. Fiquei quietinha com meu filho, minha filha estava viajando com uma amiga.
Fomos almoçar com a mãe dele, e então o sangramento se tornou mais forte. Ele não expressou um único sentimento de preocupação. A mãe dele não sabia. Assim que pude, pedi que ele me levasse ao plantão da maternidade. O tratamento do médico foi frio e seco. Meu ex não me acompanhou na sala. Ficou fora esperando com o meu filho.
Dali eu saí com receita de dois remédios, que não tinha nem noção do que era e uma requisição de uma ultrassonografia. Consegui marcar a ultrassonografia para o mesmo dia (era um sábado) e resolvi tomar os remédios depois.
Durante a ultrassonografia tive a notícia de que precisaria voltar à maternidade fazer curetagem. Eu tinha perdido o bebê com oito semanas de gestação. Decidi não ir e não tomar os remédios. Tinha consulta marcada com minha médica na segunda-feira, conversei com ela e ela me disse que não havia problema em esperar.
Eu tive o aborto em casa, sem tomar medicamentos para dor. Minha médica disse que havia passado por um mini parto. Na frente de amigos, meu ex era um poço de compreensão e amor. Ele levou meu filho para ficar com minha sogra, demorou cerca de 3 horas para voltar para casa. Quando voltou, me olhou no sofá e subiu para a cama. Parecia aliviado e totalmente despreocupado. Até hoje não sei se minha sogra soube que naquele dia que eu havia perdido o bebê ou se ele foi avisar a outra. Nem sei se ela sabe que eu estava grávida. Só sei que meu choro foi tão alto e sentido que ele veio na sala ficar comigo. Mas de qualquer forma me sentia sozinha, sabia que ele não estava ali.
Cerca de um mês depois ele me comunicou que queria se separar. Eu ainda estava muito fragilizada e confusa em relação à qualquer decisão, mas mesmo assim tinha certeza de que ele não era o companheiro que eu queria, que eu precisava. Foi duro pedir para que ele saísse de casa. Mas eu pedi.
De repente tudo se tratava da separação. Da guarda das crianças. Da campanha de difamação que ele iniciou contra mim. O luto foi abafado pela necessidade dos meus filhos, pela força que eu tinha que passar a eles. Me afastei de muitas pessoas que eu achava amigas, infelizmente não tinha tempo para isto, não queria explicar a elas que nem tudo que ele falava era verdade. Até esqueci de tentar encontrar a amante ou se ela existia mesmo. Eu tinha uma dor absurda para lidar e duas crianças para cuidar. Esperei muito que elas me buscassem e apoiassem, e na verdade continuo esperando. Gostaria de contar a elas o que me aconteceu.
Eu adoeci. Tive tumores. Fiz cirurgia. Tive que me tratar de clamídia (o que me deu a certeza de que eu havia sido traída já que até então só tinha tido ele como parceiro sexual). Mas só curei meu corpo e meu coração quando enxerguei a verdade: eu estava enlutada.
Eu mesma demorei algum tempo para me dar conta de que o meu luto não era pela separação que apesar de ter sido inesperada, foi meu desejo. O meu luto tinha sido abafado mas ele era real. Ele é real. Eu me sinto em um luto solitário.
Parece que este filho só existe para mim. Ele nunca existiu para mais ninguém. Mas ele é a minha realidade e meu amor, uma saudade que nunca vai morrer.

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