Voltar a vida

Depois de perder um filho o que mais se pensa é, como vou retornar a vida? Como vou ter forças para seguir em frente.

E agora quase um ano da perda do nosso filho eu decidi publicar o que passamos para tentar ajudar outros casais que assim como nós perderam seus filhos e a esperança que vocês vão ter forças para seguir.
Infelizmente perdemos nosso Felipe. De uma forma que ainda não foi explicada, se é que tem explicação. A dor da perda é imensa, parece que tem um buraco no meu coração. Estou tentando me reerguer mas as vezes parece ser impossível, acho que somente quem já passou por isso consegue entender como é, e o quanto dói passar por isso. Já estava com 19 semanas e de uma hora pra outra descobrimos que o coraçãozinho dele havia parado. Acho que foi a pior notícia que já recebemos na nossa vida. Fui internada e começou todo o processo de “expulsão do feto” como os médicos e enfermeiros se referiam, pra mim era o parto do meu filho morto. Colocaram um remédio horrível dentro de mim para estimular a dilatação do colo do útero e em menos de 40 minutos comecei a ter dores quase que insuportáveis. Mas o pior não era a dor, era sim saber que a dor não me traria meu filho, só iria fazer meu coração sangrar ainda mais. As contrações eram muito fortes e passei a noite inteira e a manhã em trabalho de parto. E depois que ele nasceu a dor passou, logo depois fui pro centro cirúrgico passar pela curetagem. Depois da raquidiana, que por sinal era meu maior medo, tive que voltar pro quarto. Voltar pro meu marido, pra minha família e amigos que me aguardavam no quarto do hospital. A todo instante eu desejava que aquilo fosse um pesadelo e que eu acordasse logo pra que eu conseguisse olhar pra minha barriga com meu filho dentro e sentir ele mexendo. Mas infelizmente aquilo não era pesadelo, era real, e no outro dia quando tivesse alta teria que lidar com a perda do meu primeiro filho. Fui pra casa sem dor, aliás com uma dor inexplicável na alma, no coração. Quantas vezes depois disso choramos abraçados, somente choramos, sem falar nada, sem nos olhar, o colo um do outro simplesmente consolava um pouco da dor que sentíamos no momento. É difícil não se revoltar com o mundo, se revoltar com Deus, sim é isso mesmo, dois dias depois da alta que minha ficha começou a cair, chorei copiosamente pensando e questionando. “Que Deus é esse?? Que Deus é esse que é bom, mas levou meu filho????” Doía cada vez que eu lembrava, e eu lembrava a todo instante que meu filho não vivia mais… Como é difícil ainda abrir os olhos e lembrar de tudo que aconteceu, lembrar que em julho ele não estará nos meus braços, que ele não vai dormir no berço que compramos, nem que ele não vai usar os sapatos que ele ganhou… O pior pra mim foi guardar as coisinhas dele, parece que nessa hora meu coração ia arrebentar de vez. Meu marido queria fazer isso sozinho para que eu não sofresse ainda mais, só que eu precisava fazer isso, eu precisava encarar essa situação de uma forma que fizesse eu entender que o Felipe tinha ido embora. 10 dias depois saiu o resultado da autópsia, e nada foi achado… A dor aumentou ainda mais, enquanto eu esperava a minha vez de ser atendida no consultório do meu médico várias mulheres estavam esperando para consulta, nunca pensei que isso iria doer tanto. O tempo todo eu chorei, foi difícil encarar, e hoje quase um mês depois ainda é difícil ver mulheres grávidas na rua ou com bebês no colo. Quando o médico disse que o Felipe era perfeito e que não tinha nada de errado com ele meu questionamento com Deus foi maior ainda… Porque Deus??? Porque levou meu filho perfeito??? Como o tempo de gestação já estava avançado ele me mandou ir ao hematologista pra tentar buscar uma resposta, talvez pudesse ser uma trombofilia. Engraçado como a nossa vida muda de cabeça pra baixo quando isso acontece, perder meu filho, passar pelo parto, e agora ir atrás de uma doença que podia ser a causa da perda. Fui ao hemato e depois de muita insistência ele me deu as guias para fazer os exames para detectar a tal trombofilia. Tive que dizer que era meu segundo aborto e que toda minha família tinha histórico de trombose, sabe porque??? Porque os médicos só começam a investigar se tem algo errado após a 3 perda. Agora eu me pergunto, ter que lidar com 3 perdas???? E o psicológico? E a minha vida? E meu coração? E meu marido tadinho que sofreu acho que mais do que eu. Acho que nunca disse que a mãe dele morreu quando ele ainda era criança, e por isso com toda certeza a dor dele deve ter sido muito maior do que a minha. Alguns exames saíram, outros ainda vão sair, dois deram alterações, mas tenho uma prima médica que disse para eu repetir porque pode ser falso negativo. Ferritina deu acima do normal, mas pode ter sido pelas vitaminas que tomei na gestação. E o FAN que deu reagente no núcleo. Esse último me preocupou um pouco, porque ele indica algum tipo de doença autoimune que eu sinceramente não estou preparada para lidar. Teria a resposta pela perda do meu filho, mas começaria um medo muito maior. Não está fácil acordar nem dormir, não tem nada que nos blinde desse sofrimento. Ontem pela primeira vez nesse último mês choramos abraçados no sofá da sala pensando em tudo isso. E tentando achar um porque, Acho que nunca vamos o saber o porque de termos passado por isso. Mas ainda tenho fé que vamos ser pais e em breve com certeza. No centro cirúrgico fiz duas perguntas a médica que estava fazendo a curetagem. Se iria doer quando a anestesia passasse e em quanto tempo eu poderia tentar de novo. Meu médico disse que daqui 6 meses poderia tentar de novo, mas vamos esperar até dezembro. Porque no hospital mesmo, antes do meu filho nascer meu marido me pediu de novo em casamento, e resolvermos sim realizar o nosso sonho de casar na igreja. Isso tem sido um escape para os dois, e fez com que a dor diminuísse um pouco. Como li ontem em uma entrevista de uma jornalista: “O desejo de ser mãe me empurrou pra frente. Me obrigou a levantar da cama, a voltar ao trabalho, a olhar pro futuro e a acreditar que seria possível sim ter em breve um filho.” É esse desejo que tem me motivado dia a dia, é ele que tem me feito forte para que eu continue tentando.
Depoimento enviado pelos pais Carol e Tiago
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