O psicodélico mundo das mães que não dormem

Por Paola Rodrigues – 18 Março 2015 – Não Pule da Janela


 

Era um dia normal, tirando o fato de que fazia três meses que não dormia duas horas seguidas.
Me deitei como sempre às 23 horas, e Helena dormia. E é deste ponto que começa a aventura.
Acordei às oito da manhã sem a calça do pijama, com a camiseta suja de geleia e leite escorrendo pelo pescoço. Estava sentada na beirada da cama segurando um bebê imaginário e balançando.
Não lembro absolutamente nada naquela noite: quantas vezes acordei, o que fiz, o que comi, porque acordei com a sensação de que havia alucinado.

Então imaginem como me senti quando um dia na fila da loja de roupas no shopping, vi uma moça com seu bebê no colo, chorando. Algumas lágrimas escorriam do canto do olho, ela segurava dois pares de roupa de criança e estava visivelmente esgotada. Quando encostei no braço dela e disse que um dia estive numa situação parecida, ela apenas desatou a chorar na loja e nós ficamos lá, chorando, com um bebê, sacolas e um monte de gente olhando.

 Ninguém sabe dessa história porque ela nunca havia me autorizado a conta-la. Nem meu marido ou familiares sabem que nos sentamos depois numa sorveteria e ela me contou que fazia seis meses que não dormia, que o bebê só queria mamar e colo. Que ela se sentia drenada, exausta, que vivia irritada e não sentia que havia solução ou que poderia falar sobre isso francamente. Porque, veja bem, ela amava o filho, amava ser mãe e planejou engravidar por anos, mas nada, nada nesse mundo poderia tê-la preparado para o desafio que seria ficar tantas noites sem dormir.

E eu sei exatamente como é isso e tenho certeza que outros milhares de mães também sabem.

Passei exatos onze meses buscando na internet dicas de como fazer Helena dormir. Tentei rotina do sono, banho antes de dormir, massagem, tomei litros de chá de camomila, ouvi todos os conselhos: mãe, sogra, tia, moça do blog, mulheres do grupo, enfermeira e pediatra. Acredite, tudo que lia, e não achava absurdo, ganhava lugar na minha lista de tentar fazer Helena dormir.

E o motivo de escrever este texto é que vai fazer um ano e nove meses que não durmo uma noite inteira.
O primeiro ano aqui em casa foi uma loucura. Revezamos, a madrugada era minha e a manhã e parte da tarde pertencia ao Marcelo, criamos táticas para tentar cozinhar, limpar, cuidar e trabalhar nessa rotina caótica. Muitas vezes ouvimos críticas, pitacos e ninguém nunca entendia como sempre vivia cansada, com sono, porque dormia até tarde.

É normal nesse caminho de amamentar exclusivamente e em livre demanda ouvir que você está mimando. Que “a criança não dorme porque vocês não dão limite”. E foi numa dessas que deixei de acreditar que minha filha ou nós tínhamos um problema.

O problema está em calejar bebês com choro até que eles entendam que devem dormir sozinhos, rápido e a noite inteira. É normal um recém nascido acordar dezenas de vezes durante a madrugada pedindo colo, peito ou apenas para ouvir a voz da mãe. Também é normal crianças de dois, três anos, não dormirem a noite inteira.

E está tudo bem você falar sobre isso. É exaustivo, é absurdamente irritante por vezes e nessa caminhada dá dúvida. Poxa, nós não lembramos da época que éramos bebês, só conhecemos a realidade de noites de sono profundo, então parece imensamente errado e preocupante um pequeno ser que chora a todo momento.

Li um texto semana passada que falava exatamente sobre o peso de não poder externar angústias porque o mundo, e principalmente aqueles que não tem ou querem filhos, acreditam que aquela mulher que se tornou mãe não queria um filho ou não entendeu que ter um bebê tinha tudo isso, portanto, faça silêncio.

Um dia fui parar no hospital. Estava ficando doente toda semana e consegui chegar ao ponto de cair de exaustão. Helena não queria o pai, a avó ou quem quer que seja, ela me queria e eu estava lá. Naquele dia percebi que não estava mal por acordar várias vezes de noite, mas que não conseguia dormir mesmo com minha filha dormindo e vivia irritada porque realmente acreditava que tinha algo errado.

Um dos dias mais felizes e libertadores da minha vida foi quando me perguntaram se Helena dormia a noite inteira e respondi que não. Helena não dorme uma noite inteira e é terrível isso às vezes, mas estamos bem, é uma fase e a acolhemos como é.

Mas você já falou com o pediatra? Falei. E já procurou ajuda? Procurei. No fim percebi que meu melhor amigo mora aqui dentro e se chama instinto.

Quando ela tinha onze meses me aboli das amarras do medo de minha filha ter algum problema e coloquei uma cama de solteiro do lado da minha e ela começou a dormir conosco. Acordamos todas as vezes que ela chamou, passei madrugadas amamentando e lendo livros enquanto isso. Desisti de tentar controlar a rotina que acreditava ser a ideal e fiz a minha rotina, aquele que se aplicava a minha família.

Nunca mais tomei aquele chá de camomila nojento ou chorei de desespero todos os dias, por solidão, por ter medo de dizer que estava ficando meio doida. E quando parei com tudo isso encontrei a solução: nos adaptamos a quem nos transformamos com a chegada da nossa filha e aceitamos que bebê é um ser humano, ou seja, diferente. Com hábitos, personalidade e peculiaridades.

E com isso agora, com um ano e nove meses, nossa filha dorme oito horas muito bem. Acorda duas ou três vezes para mamar, quando o dente está nascendo quer ficar brincando às três da manhã, mas são raras as ocasiões que sentimos o gosto daquela exaustão. Criamos o hábito de deita-la na cama e ficar ali, só com a presença, esperando ela dormir e isso nunca mais passou de dez minutos no máximo.

Hoje nós terminamos de arrumar o quarto novo onde ela irá dormir sozinha, e podemos dar tchau, até logo, para esta fase e esperar as próximas.

E quando alguém te falar que seu filho não dorme a noite inteira porque você é azarada, educa errado ou que precisa deixa-lo chorar no berço, mande essa pessoa pastar. Exatamente.

No psicodélico mundo das mães que não dormem as regras tocam com a música da casa.


Fonte – http://www.naopuledajanela.com.br/2015/03/18/o-psicodelico-mundo-das-maes-que-nao-dormem/

 

Anúncios

14 comentários Adicione o seu

  1. Ana disse:

    Nossa… me vi nesse texto. Minha filha é exatamente assim .Está com 11 meses e acorda pelo menos 3 vezes… eu faço exatamente isso… já aboli conselhos e palpites da minha vida há algum tempo. É sempre bom saber que não estamos sozinhas nessa…

    Curtir

  2. Aline disse:

    Muito obrigada. Foi ótimo ler esse texto hj. Principalmente hj. Obrigada! obrigada mesmo.

    Curtir

  3. elda disse:

    nossa essa é a história da minha vida e da minha Helena

    Curtir

  4. Raquel disse:

    Eu sei bem o que é isso, tenho dois filhos: uma menina de 3,6 anos e menino de 1,3 . E minha filha até os 3 anos acordava mínimo 6 vezes por noite, e sim é muito estressante e, nos deixa muito irritada e abalada psicologicamente, afinal somos seres humanos antes de mãe, abraços a todas mamães.

    Curtir

  5. Danielle disse:

    Estou emocionada com esse texto. Eu não durmo direito faz 3 anos e meio. Eu e meu marido. Quem não vivência isso não tem idéia do que as noites acordadas fazem : comigo, me levaram a piora da minha crise de enxaqueca com direito a uma crise convulsiva. O meio que encontramos a tudo isso foi revezar com a minha mãe (meu filho “dorme” duas vezes na semana na casa dela ) para que meu marido e eu consigamos dormir ao menos 2 vezes na semana o ciclo de sono todo, quando temos a sorte de não ter insônia, tamanha foi a alterações que isso provocou na fisiologia do nosso sono.
    Quantos pitacos. Sabe aquela coisa do tentamos de tudo. Chegamos ao limite. Procuramos profissionais. Fizemos de tudo. Exceto mediação. Mas sempre acreditamos que o amor é a melhor alternativa. Ainda que emocionalmente esgotados e é stressado. Realmente não e fácil. Quantas vezes chorei por que gostaria de dormir algumas horas e precisava trabalhar?

    Curtir

  6. Manuela disse:

    Eu to chorando agora!!! Que coisa…eu sofri tanto…tanto! E qdo eu perguntava para outras mães sobre a rotina de sono dos filhos e elas diziam: minha filha deita as 18h e acorda as 10h….queria morrer….sempre acordei, sempre peguei no colo e fiquei ninando num ritmo de dança lenta (ai todo mundo dizia: isso é suicídio, a criança acostuma…), mas era a forma de fazer minha bebê se sentir confortável e ver que estava lá para ela….cantava para ela….e hj qdo ela ouve a música chora! Enfim….Eleonora completará 3 anos este mês e acorda pelo menos uma vez por noite (algumas dorme a noite toda)…e eu vou lá, falo com ela, explico e ela volta a dormir! Parabéns e vc não está sozinha.

    Curtir

  7. Erica disse:

    Contemplada com teu relato. Meu filho tinha quase 4 anos quando teve sua primeira noite de sono, cerca de 6 horas ininterruptas. Não tinha ninguém com quem revezar e trabalhava em 3 empregos, incluindo finais de semana e feriados. Enfim, passou. Mas foi realmente uma fase muito louca que me ensinou duas coisas: coragem e auto-superação.

    Curtir

    1. Juliana disse:

      Érica vc é top!!! 💜

      Curtir

  8. Gabriela Gz disse:

    Que desabafo acolhedor. Tambem passo por isso.
    Meu filho tem 1 ano e 1 mês e ainda não dorme a noite toda, e com certeza escuto tudo isso que vc escutou, todos acham um absurdo ele ainda ficar acordando a noite toda e me fazer de “chupeta” (o que não se lembram é que a chupeta é que foi feita pra imitar a mãe), e me dizem pra deixar chorar, que noite é feita pra dormir (ok, va dizer isso a um bebê isso então), que eu to colocando mau costume nele, e bla, bla, bla.
    Mas passar a noite aqui pra me ajudar ninguém quer ne.
    Então fiz como vc, deixei pra la os comentários e dou mamá sim pro meu bebê, quantas vezes ele acordar, que varia de duas a seis (sim, eu disse seis vezes!) por noite, e se isso ta mimando ele, que mime, eu que não vou deixar meu filhinho chorando ao meu lado, com o peito cheio de leite só pra agradar a sociedade em geral.
    Até a pediatra homeopata caríssima, onde eu fui buscar apoio, me olhou de cara feia quando soube do fato.
    Fazer o que né? Queria saber de onde vem todos esses bebês perfeitos que dormem 12 horas por noite desde o 3º mês.
    O meu é só um ser humano com todas as suas diferenças e particularidades, que me ensina a cada dia a paciência e o respeito às diferenças de cada um.

    Curtir

  9. Faço minhas as suas palavras! Já lá vão 7 anos e os meus filhos de 7 e 5 anos raramente dormem uma noite inteira. Mas nós sobrevivemos porque aceitamos e nos adaptamos às diferentes fases! Claro que isto foi depois de fazermos tudo e mais alguma coisa para mudarmos a situação, para os moldarmos, para elouquermos, nos zangarmos com eles, um com o outro e com o mundo em geral. Depois de muitos erros cometidos, aceitamos as evidências e simplificamos a coisa. Permanecemos juntos e apaixonados um pelo o outro e pelos nossos filhos. E de vez em quando, celebramos uma noite bem dormida, só essa, uma de cada vez, porque a próxima só Deus sabe e a gente já a aguenta!

    Curtir

  10. flavinhalv disse:

    Minha mais velha teve terror noturno até os 3 anos. Não era um ou outro episodio. Eram diários e muitas vezes 3x por noite. Alem disso ela tinha um refluxo violentíssimo: todas as noites, após a mamadeira da noite, vomitava. E isso podia acontecer 15min, 1h ou até 3h depois da mamada.

    Foram 3 anos absurdos na minha vida. As olheiras nas costas, irritada, nervosa. Um FDS por mês meus pais pegavam as crianças e eu hibernava em um sono sem sonhos, cansada no limite, sem vontade de levantar nem pra ir no banheiro.

    Aos poucos as coisas se acertam. Pode confiar. Beijos!

    Curtir

  11. Patricia disse:

    Também passei por isso e concordo plenamente. Adorei.

    Curtir

  12. Querida Paola, faço das suas palavras as minhas também, eu sou mãe de segunda viagem e minha caçula tem dois anos e dois meses, e até hoje não dorme a noite inteira, ainda mama no peito e só quer a mãe quando é hora de dormir.Enfrentei muitas críticas, de inúmeras pessoas, vizinhos, estranhos, médicos e parentes nem sempre tão bem intencionados, e, muitas outras vezes também escutei absurdos de pessoas que nem filhos tinham, pensei também que surtaria com tantas noites de privação de sono.
    Como você, adoeci, pois a minha imunidade estava baixa, tive depressão, tinha dias que eu achava que não ira sobreviver a tudo isso, mas, aqui em casa também nos libertamos da opinião alheia, fizemos também a nossa rotina, e estamos entre trancos e barrancos (sobre)vivendo essa fase, meio difícil, mas sabemos que passa, e que outras tantas virão, estamos juntas nessa batalha das noites insones e muitas vezes solitárias, sinta-se ternamente abraçada, obrigada pelo seu relato, beijos e carinho no seu coração e de sua família…Mylena

    Curtir

  13. Alessandra Arrais disse:

    Não deixar uma pessoa dormir era usado como método de tortura! Aguentamos ficar até 7 dias sem beber água, até 70 sem comer, mas não aguentamos três dias sem dormir,,após esse período começamos a alucinar…Então, é perfeitamente compreensível que as mães tenham reações “psicodélicas” no pós parto, que se acontecessem em outro período da vida delas seriam sérias candidatas à loucura..Por isso, preservar o sono materno é importantíssimo…A privação de sono pode levar a pessoa até a depressão…Nesse período puerperal contar com a ajuda do pai do bebê, das avós, titias, amigas e babas é fundamental…vale até fazer uma escala de plantão noturno e diurno…um revezamento 4X4!!!. Cuidar da mãe é essencial para que ela possa cuidar bem do bebê. Não deixemos nossas mães sozinhas nessa árdua tarefa que é cuidar de um bebê!!!

    Alessandra Arrais e Luciana Rocha

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s