A intensidade de um puerpério

E., professora, 31 anos, 1 filho de 50 dias

Sempre fui uma pessoa ansiosa. Já tratei Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno Obssessivo Compulsivo (TOC). Quando tinha 4 anos, tomava estabilizador de humor. Sou introspectiva, tímida, perfeccionista, não admito erros…e erro muito mais do que gostaria de admitir.
Por conta disso, sempre tive medo que, durante a gravidez, eu ficasse aquelas grávidas neuróticas. Foi uma surpresa ter uma gestação tão tranquila, sem maiores intercorrências (fora o enjôo, o sono e a micção frequente). Engordei pouco, trabalhei até quase o fim do oitavo mês, foi uma gestação tranquila, abençoada. Meu filho nasceu de 40 semanas e 4 dias, lindo, forte como um touro, apgar 9 e 10, de uma cesariana tranquilíssima, com um obstetra maravilhoso, em quem confiava muito. Até aqui, seria perfeito para um “e ela levou seu lindo bebê para casa, amamentou em livre demanda, era uma mãe super calma e carinhosa e viveram felizes para sempre!”. Mas o que eu tive foi um verdadeiro puerpério das trevas! Já cheguei em casa com os seios machucados, por conta da amamentação, já que meu filho só fazia a pega correta quando uma terceira pessoa experiente tascava a boquinha dele no meu peito. Entrei em pânico, pois além de ter ouvido histórias escabrosas de peitos sangrando e bicos caindo, ainda não conseguia colocar o bebê no peito corretamente, ele não pegava, se pegava, soltava, dormia. Era um estresse, uma angústia, uma ansiedade. Eu só chorava. Depois de 15 dias, duas idas ao banco de leite e a consulta em uma especialista em amamentação, desisti. Passei a ordenhar meu leite e dar para o bebê na mamadeira. Foi meu primeiro fracasso como mãe. Ainda está entalado….não desce, minha falta de capacidade, de calma, de maturidade…esfrego na minha cara dia após dia. Mas a vida segue. Fiquei o primeiro mês na minha mãe. Fui ficando mais calma, parei de chorar, engoli o fracasso. Depois passei a ir dormir na minha própria casa. Agora, depois do ano novo, resolvi vir para casa de vez. Não faz nem uma semana e já quero sumir. O dia todo sozinha com o bebê, nenhum adulto para conversar ou dividir uma opinião, ou ficar com o bebê para eu ordenhar o leite (hoje ele chorou 20 minutos no carrinho enquanto eu fazia isso). Minha casa está um nojo, mas ele só tira sonecas de no máximo 30 minutos. Me sinto esgotada, incapaz, angustiada com a possibilidade de não conseguir fazê-lo dormir. De noite, meu marido é um paizão. Mas agora saiu o edital do concurso que ele quer prestar…e vou ter que ficar o terceiro período com o bebê sozinha para ele estudar. Ele diz que é um sacrifício em nome do NOSSO futuro, mas não vejo nenhum NOSSO nisso tudo. Vejo ele passando num concurso federal, garantindo um bom salário, enquanto me viro com uma criança que consome 100% do meu tempo. Quando minha licença acabar, terei o mesmo emprego de sempre que eu detesto, só que com carga horária reduzida….e salário também. Me sinto um nada…e ainda tenho medo de, no fim disso tudo, ainda receber um pedido de divórcio….porque sou uma imatura ridícula…e agora ainda uma baranga com estrias por toda a barriga. Minha auto-estima está destruída.
Esse turbilhão de pensamentos me enlouquece…e me sinto muito culpada. Afinal, eu quis esse filho, ele foi planejado! E ele não pediu para nascer, não merece que eu sinta isso tudo em relação a ele. Definitivamente, a maternidade é para as mulheres equilibradas e maduras. Temo não ser esse o meu caso.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Poliana de Oliveira disse:

    Olá querida…

    O puerpério realmente é intenso, e ele pode ser para todas. Falando assim parece fácil né? Mas sabemos que não é. Sentimos muito pela sua dor. É compreensível seus sentimentos, você não está sozinha nessa. A partir de agora começa uma longa caminhada: conciliar o “ser mãe” e o “ser mulher”… Mas calma… este processo não será da noite para o dia e você não precisa estar sozinha nessa. É sempre importante contar um apoio, e quando a rede mais próxima (amigos, familiares) não supre isto, um profissional pode ajudar. Se quiser pode nos escrever neste e-mail: equipe@temosquefalarsobreisso.com, que podemos tentar lhe ajudar a encontrar profissionais ou grupos de apoio próximos a você.

    Sinta-se abraçada por todas nós. Com carinho,
    Poliana de Oliveira
    Conselheira equipe Temos que falar sobre Isso

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  2. Post profundo este, em que vejo muito de “um futuro eu”… Não consigo visualizar tudo isso acontecendo ao mesmo tempo ainda porque ainda não sou mamãe, estive grávida mas infelizmente perdi, e sofri muito com um aborto retido… Mas apesar de tudo isso que você vem passando este é o meu maior sonho… Que sejamos fortes para resistir, superar, e aceitar erros, pois somos uma só e não podemos ter o controle de tudo! Um conselho é que você foque no agora, e tente ir organizando as coisas, um pouco de cada vez!!! Sinta-se abraçada! Fique com Deus!

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  3. Sabrina disse:

    Sinta-se abraçada! Respire bem fundo que falar assim, tão corajosamente de puerpério é para poucas. É coisa que ninguém te avisa (eu estou avisando todas as amigas grávidas).

    Tive 2 gravidezes e consequentemente 2 puerpério quase seguídos. 1 ano e 11 meses de diferença. Não pude amamentar o primeiro porque ninguém me orientou e também me senti o fracasso em forma de mãe. Não conseguia nem ordenhar e portanto ele foi para a mamadeira com 2 meses e meio e eu chorei por um dia e meio. Mas porque eu chorava se ele estava alimentado? Porque ele não dependia mais de mim e qualquer um poderia alomenta-lo. Ser mãe é perder um pouco todos os dias.

    Se ele já está na mamadeira, ordenhe um pouco a mais e deixe ele 2 ou 3 horas com a sua mãe. Vá ao salão, ou ao cinema, você não precisa deixar de existir. Você não pode e seu Filho não vai tirar vantagem nenhuma de você se anulando.

    Se você achar que o seu emocional está abalado demais no puerpério consulte seu psiquiatra, eu fui direto para a fluoxetina (não altera a amamentação) e com 8 meses da segunda gestação, suspendi a amamentação e voltei para os estabilizadores de humor (me identifiquei com o seu depoimento bastante)

    Eu fui relaxar mais ou menos e achar que não ia ser uma mãe tão desastrosa meu bebê tinha 10 meses.

    Sei que dá raiva quando alguém fala que logo vai passar. Se não tem com quem desabafar de verdade vai na terapia, vai na praça dar o banho de sol do bebê enquanto ouve um áudio book, ou caminha entre uma feira, veja e seja vista, encha seus olhos com coisas além do seu bebê.

    Ele vai ficar bem. Ele sabe que você está fazendo o seu melhor. Mesmo que você não ache que esse é o melhor que ele deveria receber ou que você deveria dar. (Eu gostaria que alguém tivesse me dito isso 3 anos atrás)

    Aproveite que ele ainda não pede está ou aquela musica/desenho e assista coisas que você goste.

    Quando ele começar a comer, engatinhar, andar e correr tente comer saudável e regradamente como ele e seu corpo vai ficar forte e saudável como nunca. Brinque com ele e leve-o para encontrar outras crianças (isso te desonera um pouco e tem mães e babás pra dividir).

    Poderia ficar horas e horas te dando mil exemplos do que me aconteceu nos últimos 4 anos, mas sei que quando é com a gente, tudo parece mais pesado e maia difícil e mais dolorido.

    Vou fazer diferente desta vez. Se quiser desabafar de novo, perguntar qualquer coisa, ou simplesmente xingar tudo e todos te deixo meu Email e me coloco a sua disposição no que eu puder ajudar.

    Não é fácil, mas o primeiro passo você já deu que foi desabafar. Nem todas conseguem.

    Um abraço,
    Sabrina

    Fairphillis@gmail.com

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  4. Débora disse:

    Acho q todas nós passamos esse puerperio com dificuldade! Amiga vc nao esta sozinha com certeza!! Pra mim tb foi horrivel, mas depois tudo passa e vc consegue aproveitar melhor o filhote, claro q sempre eh trabalhoso mas vc ja estara adaptada à vida de mãe!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Fernanda disse:

    Querida E., o puerpério é a TREVA! E ninguém fala isso para uma gestante! Todo mundo se preocupa com o parto o enxoval, mas ninguém se preocupa com a avalanche emocional, loucura hormonal, que vem depois no puerpério. Saiba que não é só com vc, eu tbm passei por isso, minha filha tem quase 3 anos, mas o primeiro ano de vida realmente é o mais difícil, pois requer que a mãe deixe do papel filha de esposa de mulher para assumir um novo papel de mãe, reescrevendo assim toda sua própria infância e vida adulta. Você não está sozinha, nem deveria passar o dia todo sozinha. Para mim, tbm foi terrível os longos dias de inverno sozinha sem nem poder sair na rua para dar um volta, ah que treva! Mas passa, e antes que vc perceba vai se ver forte e firme no fim deste turbilhão, e acredite, mal vai se lembrar destes primeiros dias tão difíceis. O que poderia ajudar é tentar ter uma companhia durante o dia, uma doula pós parto, uma babá, uma amiga, alguém para lhe apoiar, e ainda tentar conversar com marido para ele assumir o papel que lhe cabe antes que vc fique esgotada e a beira da loucura, o concurso tem de novo, o primeiro ano do seu filho jamais se repetirá. Se tiver condições pague por esta ajuda, é o melhor investimento, se não tiver, veja um grupo de mães para frequentar na sua cidade, comunidades no facebook e busque força com outras mulheres que passam pelo mesmo. Um abraço, vc não está sozinha. F.

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  6. crislene Reis disse:

    Amada! Sinta -se abraçada!!! E carregue consigo o mantra:Passa!! Tudo isso passa, leva um tempo,mas passa.. nenhuma hora ou dia são eternos..por mais q tudo isso seja difícil vai passar l. Aqui tmbm foi bem punk.. só agora com a minha filha com 9meses q estou comecaaando(bem iniciante) a ppder tomar um banho de 10minutos(com ela no chiqueirinho). Não é fácil.. nenhum pouco. Mas confia!!Teu corpo gerou… deixa as coisas fluirem.. nao se cobre tanto… abraço

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