Não foi melhor assim!!

Quando eu tinha 22 anos, descobri, em novembro de 2005 que estava grávida. Era minha primeira gravidez, meu primeiro filho, um menino. Apesar de eu ser casada na época, não foi um bebê planejado, mas muito amado e desejado. Ele nasceu de 40 semanas de parto cesariana, de uma gestação tranquila, mas num parto bastante complicado. Meu filho não respirou no primeiro momento, só respirou após procedimento médico. Eu ouvi seu choro pela primeira vez depois de longos minutos angustiantes. Meu filho ficou internado por dez dias e, na alta, o que eu sentia era uma mistura de alegria e medo. Os meses que se passaram foram os melhores e os piores da minha vida. Melhores porque ele estava comigo e piores porque sofremos demais. Foi uma luta intensa: tivemos um diagnóstico de cardiopatia congênita, duas hérnias inguinais, uma cirurgia para retirada das hérnias, retorno das hérnias 15 dias após cirurgia, diagnóstico de leite fraco, introdução da fórmula (mesmo com meus peitos rojando leite), esofagite de refluxo causada por alergia ao leite, inchaço no fígado, retenção de líquido, pneumonia, pressão alta, candidíase oral por baixa imunidade e uso prolongado de antibiótico para então, com três meses e 20 dias ele partir durante um procedimento de cateterismo. Durante esses meses de luta, ainda superei uma cicatriz de cesárea aberta, feridas causadas por alergia ao iodo utilizado na cirurgia, mãos rachando por conta do uso excessivo de álcool 70% indicado pelo médico para eu cuidar do meu filho. Tudo isso foi muito muito doloroso para mim, mas ninguém me entendia. Algumas mães no hospital especializado eram mais humanas, pois entendiam minha dor, elas também lutavam pelas vidas de seus filhos. Mas as mães de filhos “normais” era muito difícil ver o olhar delas para o meu filho.

Quando da morte do meu filho, fui encorajada a esquecer, olhar para frente e ouvia absurdos do tipo “você é jovem, terá outros filhos”, “Deus quis assim”, “Foi melhor assim”. Alguém pode dizer para as pessoas que não foi melhor assim? Passei tanto sofrimento no meu luto, sem ajuda para vivê-lo que busquei uma forma de me ajudar. Fui fazer Psicologia e a matéria que mais amava era a de Psicologia Hospitalar, amava entender as fases do luto, aprendi a canalizar a minha dor ajudando outras pessoas a enfrentarem esse naufrágio.

Passados dez anos, hoje estou com 32, eis que, no mês passado (novembro de novo), descubro que estou grávida. Desta vez não estava casada, mas com um namorado maravilhoso ao meu lado. Também não foi planejado, mas queria me alegrar com essa nova chance que a vida estava me dando, não fosse o medo, que não ia embora. Eu não conseguia me sentir feliz e segura, chorava muito por medo desse filho também nascer com algum problema. Sentia-me fraca, impotente e infeliz. Conversava com meu bebê que não queria ficar daquele jeito, que não era com ele, que eu iria amá-lo muito. Mas de uma forma inexplicável eu não conseguia me conectar com esse bebê.  Quarta-feira passada (16/12) foi meu primeiro ultrassom, com dez semanas de gestação ainda não tinha tido coragem para vê-lo. Todos à minha volta estavam felizes e ansiosos para saber mais sobre o bebê, mas eu não. Não queria viver aquele momento. E na sala do ultrassom, recebo a notícia de que meu bebê nem chegou a ser bebê, não chegou ao status de feto, não passou de um embrião de seis semanas. Faz quatro semanas que meu “bebê” está sem vida na minha barriga, mas o saco gestacional corresponde a uma gravidez de 10 semanas e a placenta continua evoluindo. Meu organismo ainda acha que estou grávida. Ouvi da médica que o ideal seria eu sangrar sozinha, mas se isso não ocorrer nos próximos dias terei que me submeter a um processo clínico que envolve medicação para dilatação, que ela afirma ser demorado e doloroso, para só então eu poder fazer a curetagem. Quando a médica disse isso, em tom normal e sem hesitação, senti uma incapacidade maior em mim, é como se nem para “abortar” eu sirva.
Hoje meu coração está em pedaços. Me sinto em cacos…
Me sinto incapaz de gestar, incapaz de gerar um filho saudável, incapaz de viver a maternidade, incapaz de ser feliz.
Não planejei nenhuma das gestações, mas amei incondicionalmente desde o princípio.
E agora novamente as pessoas vêm com aquelas frases clichês, “seja forte” “você é forte, guerreira, já passou por uma perda, vai superar isso”, “foi melhor assim” “não era para ser”.
Quando será melhor? Quando chegará a hora de ser? Quando vou parar de chorar minhas perdas?
Por que é tão difícil para as pessoas entenderem que não carregar um filho morto nos braços e outro no ventre, não requer força, não requer coragem? Não escolhi isso, não queria passar por isso, simplesmente me deixem chorar minha dor, me deixem viver minha raiva, me deixem cruzar o fim dessa estrada de luto sem críticas porque não agradeci a Deus porque ainda estou viva. Afinal, muito do meu eu já morreu mesmo, hoje continuo sendo uma sobrevivente que nem queria mais viver.

Revisão: LW

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5 comentários Adicione o seu

  1. Querida mãe

    É com carinho que nossa equipe recebe seu desabafo. Obrigada por compartilhar conosco tamanha dor. Saiba que estamos aberta se quiser falar mais sobre isso, pode escrever para nosso e-mail se quiser equipe@temosquefalarsobreisso.com.
    Não se sinta culpada por não agradecer pela vida. É altamente compreensível que num momento como este tudo que você queria era estar em outro lugar que não viva. Você tem todo direito de chorar sua raiva, viver seu luto.

    Sinta-se abraçada por todas nós. Com carinho,
    Poliana de Oliveira
    Conselheira equipe Temos que falar sobre isso

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  2. Olá querida

    Nós sentimos muito que teve que passar por tudo isso. É incalculável sua dor perante tantos sofrimentos do seu primeiro pequeno. Muitas vezes as pessoas não entendem mesmo as angústias que estão passando, principalmente quando elas não passaram por coisa parecida.
    Não se culpe por não agradecer a Deus por não estar viva, sentimentos assim são totalmente compreensíveis na situação do qual você se encontra. Buscar apoio é fundamental, e você tem todo o direito de chorar sua dor, sua raiva, seu luto. Quando este apoio vindo de família e amigos não é o suficiente, é interessante que busque uma ajuda profissional. Se quiser, podemos auxiliá-la a encontrar algum apoio.
    Se quiser escrevermos, falar mais sobre como está hoje, estamos aberta para ouví-la. Nosso e-mail é equipe@temosquefalarsobreisso.com.

    Sinta-se abraçada por todas nós e obrigada por compartilhar com a gente.

    Com carinho,
    Poliana de Oliveira
    Conselheira equipe Temos que falar sobre Isso

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  3. Priscilla disse:

    Querida, viva o seu luto. Vc tem esse direito. Sou mãe e consigo imaginar sua dor. Se eu pudesse te dava um super abraço agora.

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  4. ana carla disse:

    Maezinha sim vc e uma mãe de anjos sei que não foi sua escolha,ninguém escolgeria passar por essa dor sou vovó de uma anjinha a 3 meses no céu se foi com29 dias tbm com cardiopatia vejo essa dor nos olhos de minha filha e a eterna interrogação…porque comigo,com minha filha?não tenho a resposta nem.pra ela nem pra vc infelizmente so posso dar meu apoio deixar as lagrimas cair sempre que surgirem,o grito sair na hora que a dor parece mas forte…deixo ela a vontade pra brigar ,blasfemar o que ela quizer vcs tem esse direito pos so vcs sabem o que passam a dor que e e creio que Deus as compreendem .so posso lhe oferecer minhas orações que em.nada acalentara vc …sinto muito ,gostaria de apesar nao conhecer deitar tua cabeça no meu colo e deixaste chorar ate dormires …amiga. respeite seus sentimentos seus limites nao sr force a nada quem te ama de verdade vai te entender

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  5. Thaina disse:

    Força, muita força… sei que nada que qualquer pessoa diga vai conseguir te confortar… mas sinta o meu abraço tb!

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