Os médicos estão examinando seus órgãos genitais sem motivo

Por Amanda Hess – 30 Junho 2014


 Os médicos estão examinando seus órgãos genitais sem motivo

Quando uma menina se torna uma mulher, ela é iniciada em um ritual anual bizarro e misterioso. Ela tira a roupa, põe os braços através de um vestido médico aberto nas costas, se reclina em uma mesa de exame, e abre as pernas. Um médico encaixa seus pés em um par de estribos, olha para seus órgãos genitais, põe um espéculo metal frio em sua vagina, vai abrindo-o com uma manivela, e examina. Quando o espéculo é removido, o médico insere um dedo ou dois, e toca em torno para sentir os órgãos internos da mulher. Às vezes, os dedos examinam seu reto também.

espéculo

Em 2010, os médicos realizaram 62,8 milhões desses exames pélvicos de rotina em mulheres em toda a América. No total, exames ginecológicos custam aos EUA 26 bilhões de dólares a cada ano. E, no entanto, um novo estudo publicado na revista Annals of Internal Medicine relata que não há nenhuma justificação médica estabelecida para o processo anual. Depois de vasculhar quase 70 anos de estudos de exame pélvico, conduzidos entre 1946-2014, os pesquisadores não encontraram nenhuma evidência de que eles conduzam a qualquer redução em morbidade ou mortalidade de qualquer condiçãoentre as mulheres.
À luz do estudo, o Colégio Americano de Medicina, uma organização nacional de internistas, elaborou um novo conjunto de diretrizes alertando médicos de que os exames realizados em mulheres assintomáticas podem “submeter às pacientes a preocupação desnecessária e ‘follow-up’ (acompanhamento)” e pode “causar ansiedade, desconforto, dor e constrangimento, especialmente em mulheres que têm uma história de abuso sexual.
Em um editorial também publicado no Annals, os internos George Sawaya e Vanessa Jacoby, da Universidade da Califórnia, San Francisco, concluíram que o exame pélvico “tornou-se mais um ritual do que uma prática baseada em evidências“. Sawaya disse que o exame ginecológico de rotina é como uma pedra angular fundamentalda ginecologia, é difícil até mesmo traçar suas origens. O novo relatório pedindo aos médicos para reverterem o curso será “muito controversa“, diz Sawaya. “Espero que um monte de médicos levantem as sobrancelhas.”
Há apenas dois anos, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) admitiu que “não há evidência que apoie ou refute o exame pélvico anual para a paciente assintomática de baixo risco“. No entanto, ACOG voltou a endossar o seu apoio ao exame, dizendo que “parece lógico”. O procedimento que é rotineiramente iniciado cedo na adolescência de uma mulher e realizado anualmente – pode ajudar a estabelecer a relação médicopaciente e fornecer “uma excelente oportunidade para aconselhar os pacientes sobre a manutenção de um estilo de vida saudável e minimizar os riscos de saúde”, relatou a ACOG. Em outras palavras, de acordo com ACOG, enquanto o exame pélvico anual pode não valer a pena por si só, pode ser um dispositivo útil para trazer uma mulher ao seu médico todos os anos para obter algumas informações necessárias sobre sua saúde reprodutiva.
Estas recomendações conflitivas – por um lado internistas, por outro ginecologistas falam dos efeitos da vergonha cultural na saúde das mulheres. Algumas mulheres em particular as mulheres que foram abusadas podem sofrer de ansiedade e dor suficiente a partir dos exames íntimos que se tornam menos provável a retornar para exames futuros. Isso poderia dissuadir as mulheres de ir ao médico quando sim tenham sintomas problemáticos ou risco de câncer aumentados. Além disso, as mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais normalmente têm de passar por um exame pélvico anual antes de um médico renovar uma prescrição, o que poderia impedir algumas mulheres de usar esse método anticoncepcional seguro e eficaz. (O ACP insiste que reabastecer uma prescrição de controle da natalidade oral não deve exigir um exame pélvico.)
Enquanto isso, outras mulheres experimentam suficiente ansiedade generalizada sobre os seus órgãos genitais e sistemas reprodutivos que o medo as empurra para vejam seus médicos a cada ano e a se submeterem a exames que, ao que parece, não vai realmente dizer-lhes muita coisa sobre a sua saúde. Enquanto os 70 anos de estudos analisados em Annals pinta um quadro incompleto de todos os efeitos que um exame pélvico pode ter sobre o bem-estar de uma mulher, eles sugerem que os exames podem produzir tanto “falsos positivos” e “falsa confiança” entre mulheres.
O exame pélvico é apenas o mais recente ritual de saúde das mulheres a ser reexaminado à luz de novas pesquisas. Em 2012, a US Preventive Services Task Force (USPSTF) e a Sociedade Americana do Câncer divulgou novas recomendações sugerindo que as mulheres devem ser submetidas a testes de Papanicolau de rotina a cada três anos, e não uma vez por ano. Em março, a Food and Drug Administration (FDA) votou para substituir o exame de Papanicolaou, em que o médico raspa células do colo do útero que são analisadas sob um microscópio para detectar anomalias visuais por um teste de HPV alvo de identificar as estirpes do vírus mais susceptíveis de levar ao câncer cervical. E em 2009, a USPSTF mudou sua posição sobre mamografias de rotina, recomendando que as mulheres comecem a fazer as mamografias na idade de 50, não 40, e que fazê-las a cada dois anos, e não a cada ano.

Os proponentes de exames pélvicos anuais podem dizer que eles obrigam as mulheres a procurar o conselho de seus médicos e receber informações vitais sobre a sua própria saúde. (Eles também, é claro, reforçam a segurança de que ginecologistas tenham trabalho). Mas está se tornando claro que esta linha de pensamento é auto derrotada: não há nenhuma razão para que as mulheres consultem seus médicos a cada ano, se elas não podem sequer confiar no lhes está sendo dito.


O Temos que falar sobre isso não defende de forma alguma que as mulheres não procurem médicos ou os serviços de saúde. Nossa intenção é apenas promover o debate, instigar a que as mulheres questionem e que também reivindiquem a sua voz na tomada de decisões sobre procedimentos e questões diversas que envolvam a sua saúde, que estas decisões sejam tomadas em conjunto com os profissionais e de maneira informada. 

Quando publicamos este artigo traduzido recebemos muitas manifestações, de diversos tipos. Uma das demandas foi de que o texto e os dados não se aplicavam à realidade brasileira. Nós, do Temos que falar sobre isso, buscamos por mais informações e encontramos esse texto Rotinas ginecológicas? Mulheres, tomem as rédeas de seus corpos e sua saúde! escrito por Halana Faria, Médica Ginecologista Obstetra brasileira, que também encontra importante que nós, mulheres, passemos a questionar e exigir participação nas decisões que dizem respeito ao nosso corpo e saúde.


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6 comentários Adicione o seu

  1. Karin disse:

    Desculpe, mas isso é um grande desserviço. Numa época em que se luta para diminuir os preconceitos, é um grande retrocesso. Muito melhor para o médico se não precisar examinar! O lucro da consulta será maior, diminuindo tempo de atendimento, gastos com materiais, funcionários, esterilização. Ou acham que os médicos têm uma tara especial que os fazem querer tocar em nossos corpos? Quem perde somos nós!. Daqui a pouco, alguém vai dizer que nem a médico mais precisa ir, que não está provado que aumente a longevidade. Não percebem que alguns estudos vêm só para polemizar e causar impacto e que isso é imediatamente captado pelos interesses econômicos por parte dos planos de saúde, sobretudo norte-americanos?

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  2. sara disse:

    Sempre ,desde que tenho vida sexual ativa….questionei a real necessidade desse exame anual e fui chamada de louca,
    Esse artigo so me fez crer mais na minha consciência corporal e intuição!!

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  3. Ca disse:

    O Papanicolau é um exame extremamente importante e barato, para a prevenção do câncer de colo de útero.
    É muito perigoso desmerecer um exame dessa forma, quando a informação que deveria ter sido passada é de que a periodicidade mudou de anual para a cada 3 anos.

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