Aos que cuidam dos nossos filhos

Por Cibele Aguiar. Jornalista e mãe de Raul, prematuro de 31 semanas, 46 dias na UTI. – 22 Novembro 2015

O texto da Cinthia Barbosa, uma das cuidadoras zelosas do meu filho Raul, despertou em mim a vontade de responder com os olhos de uma mãe de prematuro que passou por todos esses momentos relatados…Cinthia, só podemos dizer obrigada pela presença em nossas vidas!


Meu filho chegou ao mundo em hora não programada. Não tive tempo de avisar os familiares, nem mesmo escolher com zelo suas primeiras roupinhas. O quarto não estava pronto; o enxoval, incompleto. Minhas expectativas foram prematuramente interrompidas. Ao invés do dia mais lindo e memorável da vida, um dia cheio de medo. Ao nascer, meu filho não foi para o meu colo. Saíram correndo com ele, para garantir as práticas protocolares para sua sobrevivência.

Não pude amamentá-lo nas primeiras horas de vida. Não pude dar carinho, tirar fotos, mostrar sua carinha para todos da família. Meus amigos não receberam a mensagem de alegria contando sobre sua chegada. Pelo contrário. O vazio de não tê-lo mais no ventre, não foi preenchido pelo prazer de tê-lo nos braços. Foi para uma sala fria, asséptica e com um ruído amedrontador. Um sinal sonoro que apontava riscos a todo o momento, e que logo você aprende a rezar para que a luz não acenda na incubadora do seu filho. Mas, aos poucos, você começa também a sofrer pelos filhos das mães que estão a sua volta e o ruído parece não ter fim.

E, em meio a tanta frustração e medo, você começa a perceber a equipe que cuida do seu filho. Começamos a desenvolver um sentimento de respeito, diante até mesmo da fragilidade em que nos encontramos. Afinal, naquele momento, não nos é dada a oportunidade de escolher quem cuidará do nosso pequeno… e, assim, passamos a confiar genuinamente em cada palavra que nos é dita, mesmo que todas as palavras sejam para ilustrar um quadro estável. Aliás, a palavra estabilidade é a mais desejada nesse ambiente de alto risco.Com o tempo, começamos a entender até mesmo as feições e o comportamento de cada enfermeira: se está preocupada com o resultado do exame ou se demora a atender ao chamado sonoro do oxímetro porque sabe que não é nada grave. Começamos a entender o perfil de cada atendente, se mais zelosa ou mais eficiente, se compartilha as impressões que ela tem do bebe naquele dia ou prefere não opinar. E, aos poucos, as chamamos pelo nome, conhecemos sua rotina, observamos se lavou as mãos entre as passagens nos pacientes. Decoramos a tabela de plantões, identificamos o perfil de cada médico e suas peculiaridades.

Rezamos para que esses cuidadores reservem para nosso filho o carinho que na maioria das vezes não podemos dar-lhe. Que, ao pegar no colo, mesmo que seja para a dolorosa medicação, haja afeto e zelo. Que em cada troca de fralda ou amamentação seja proferida uma palavra amiga, que dê conforto humano ao bebê em meio a tantos procedimentos frios e doloridos.

Rezamos para que a equipe diurna tenha uma boa noite de sono e tranquilidade para enfrentar o próximo plantão e, para que os desafios pessoais da equipe noturna não interfiram em suas decisões na madrugada, quando a maioria das pessoas está dormindo. Porque a vida de nosso filho depende, muitas vezes, dessa vigília, enquanto tentamos recarregar nossas energias em casa, em noites mal dormidas, para um novo dia.

Assim, essas pessoas passam a ser tão importantes que muitas vezes achamos que nem conseguiremos viver sem o seu cuidado zeloso, sem a sua experiência nas horas mais difíceis e emergentes. O sentimento passa a ser quase que de dependência. Surge uma amizade fraterna e um reconhecimento enorme pelo cuidado diário que despendem ao nosso filho. Agradecemos pelo fato de que, em muitos casos, deixam a própria família para estarem num ambiente inóspito, zelando pela vida de um bebê que, no início, era só um número, mas vai ganhando identidade a cada novo cuidado. E, então, passam a vibrar com a gente a cada novo exame negativo ou quilograma alcançado.

E enfim, na hora mais sonhada, de ir para casa, temos mesmo a vontade de levar esses cuidadores para casa, para garantir que a saúde do pequeno não será abalada pela nossa inexperiência com um bebê tão frágil. Mas o dia mais feliz, ao ultrapassar a porta da UTI neonatal com o filho nos braços, embora não nos acompanhem para a nova jornada, estarão para sempre em nossa memória. Uma gratidão que seguirá por toda a vida… Desejando que todo o carinho dispensado ao nosso filho seja, por Deus, transformado em bênçãos para todos os que lhe são caros.

Revisada: LW

1 comentário Adicione o seu

  1. teteruas disse:

    Nossa! Ao ler o seu relato, um filme veio a minha cabeça. Independente de quanto tempo ficamos na uti, o sentimento é o mesmo. São muitas aflições, muitas experiências difíceis. E você tocou em um ponto importantíssimo. A uti se transforma em nossa casa, a equipe em nossa familia. Desenvolvemos um afeto muito grande mesmo. E levaremos isso por toda nossa vida. Muito obrigada pelo seu relato. Um grande abraço, Teresa Ruas

    Curtir

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