LINHA DIVISÓRIA

 Por Flavia Camargo – na sua página Quatro Letras – 19 Outubro 2015


LINHA DIVISÓRIA

Escutei algumas pessoas dizendo que minha dor era menor que a dos pais que perdem um filho mais velho, pois quando a criança tem mais idade, houve tempo de existir maior envolvimento com ela. Aquilo me machucou, porque nenhuma mãe gosta de ver seu sentimento desvalorizado, mesmo quando essa atitude seja feita com o propósito de lhe trazer consolo. Quando praticamos uma conduta com o objetivo de abrandar determinado episódio trágico, temos que tomar um cuidado enorme para não acabarmos escorregando pela ladeira do desprezo, pois a linha divisória entre a amenização e a banalização é muito tênue. Pessoas que querem confortar alguém devem se recordar disso, e pessoas que estão sendo confortadas também precisam manter esta recordação, para evitar problemas.

Durante as conversas em que ouvi essa ponderação, abstive-me de retrucar, pois consegui perceber a verdadeira vontade do amigo ou da amiga de me confortar. Então, se eu replicasse, destruiria a sua boa intenção. Mas mesmo não tendo rebatido o argumento, fiz minhas reflexões internas. Pensei que, embora um filho mais novo tenha se envolvido menos com a mãe, em compensação não lhe mostrou a pessoa que era. A mãe que perde o filho mais tarde, sabe o que está perdendo. E isso é uma dor muito grande. Mas uma mãe que perde o filho mais cedo, não sabe o que está perdendo. E não saber como era o filho também constitui uma dor imensa.

Eu não tive a oportunidade de conhecer meu filho. Qual seria sua comida predileta? Que brincadeira lhe agradaria mais? Que motivos lhe fariam se divertir ou se assustar? Que jeitinho ele teria na hora de falar, de se vestir ou de fazer traquinagens? Não saber responder essas perguntas também não dói? Qual dor é pior? Acho que não devemos comparar nem competir. Cada dor tem seu tamanho e sua profundidade, e depende de múltiplos fatores. Toda dor é única e deve ser respeitada. Ninguém que tentou me consolar quis me faltar com o respeito. Por isso não fiquei chateada, assim como espero que não se chateiem com as minhas observações.

Se perder um filho mais cedo fosse realmente melhor do que perder um filho mais tarde, será que os pais de pessoas que morreram adultas diriam que preferiam que elas tivessem morrido antes? Acho que elas fariam questão de qualquer segundo a mais que fosse permitido passar junto de quem amavam. Se eu tivesse tido a chance de escolher se queria ficar um ano com o meu filho e depois desse prazo ele morresse de outra forma, acredito que eu não me arrependeria de ter optado por ganhar esse tempo ao lado dele, pois quando algo é muito bom, ter pouco daquilo é melhor do que nada, ainda que a gente quisesse ter mais.


2 comentários Adicione o seu

  1. Greice disse:

    Eu acho que jamais diria tal bobagem a alguém que perdeu o filho, fico impressionada como as pessoas podem ser insensíveis.
    Mas também jamais havia parado pra pensar nisso desta forma, gostei muito da reflexão.
    fique bem.

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  2. Erica disse:

    Perfeita descrição!

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