Entrevista com a psicóloga Aline Melo de Aguiar

 Gostaríamos de agradecer a psicóloga Aline Melo de Aguiar, fundadora do espaço AMA psicologia, pela entrevista concedida a equipe Do Luto à Luta, pela sensibilidade, profissionalismo, empatia e solidariedade a dor do luto na perda gestacional! E pela criação de um espaço dedicado ao bem estar das mulheres no período gravídico puerperal, iniciativa de suma importância social!

Vale ressaltar que esta profissional além de oferecer acompanhamento psicológico individual, possui um grupo online no facebook de suporte no período gravídico-puerperal e fundou o espaço AMA psicologia, lugar de cuidado, atenção e bem estar ao público citado acima.

Parabéns, querida, por dar voz também as dores no período gravídico-puerperal das mulheres, através do espaço AMA, do facebook, ou dos atendimentos individuais. Precisamos falar sobre as dores, as dificuldades enfrentadas neste período, como no nosso caso, sobre a perda gestacional!

Do Luto à Luta


1 – Fale um pouco da sua trajetória pessoal, profissional, como uma apresentação sua que gostaria que fizéssemos. Como surgiu o espaço AMA Psicologia? Quais os serviços oferecidos? Como foi o processo de escolha do nome?

Minha graduação em psicologia foi fruto de uma escolha consciente, que tinha por intuito ampliar e aprofundar meus conhecimentos sobre temas relacionados ao desenvolvimento humano e à maternidade. Após a graduação, dei sequência aos estudos cursando o mestrado em psicologia social, com foco em psicologia do desenvolvimento, no qual pesquisei crenças de pais e profissionais de saúde sobre crianças com síndrome de Down (Melo-de-Aguiar, 2010). O interesse pelo tema deveu-se ao fato de, ao trabalhar com maternidade, eventualmente, me deparar com pais que tinham filhos com alguma deficiência. Na continuidade dos estudos, um acréscimo importante ao meu desenvolvimento acadêmico foi ter cursado a especialização em atenção integral à saúde materno-infantil na Maternidade Escola da UFRJ. Em paralelo à vida acadêmica, desenvolvo trabalhos com grupos educativos e de suporte (presenciais e online) para gestantes e mães.

Por conta da especialidade na qual atuo, costumo receber dúvidas e perguntas de mulheres e mães sobre ciclo gravídico-puerperal e desenvolvimento infantil, pessoalmente, por e-mail e através das redes sociais na internet, como o Facebook. Em julho de 2011, motivada pelo grande volume de questionamentos recebidos e de respostas que eram dadas individualmente, mas que poderiam servir a diversas mulheres, criei um grupo de suporte online no Facebook, com o intuito de promover uma rede de apoio mútuo entre as mulheres, pois a dúvida de uma, poderia ser a mesma de outras tantas mulheres. Dessa forma, além do meu trabalho ser facilitado, um maior número de mulheres receberia as informações, pois elas próprias poderiam interagir entre si, ampliando o alcance de apoio pretendido. E, também, reconhecendo o valor da contribuição dessas mulheres que, vivenciando de formas diferentes a mesma fase do ciclo vital, são capazes de perceber os problemas experimentados, umas das outras, e de oferecer opiniões, sugestões construtivas e apoio mútuo.

Pelo que tenho observado no grupo de suporte online que administro e nos estudos sobre psicologia do desenvolvimento e suporte online, entre alegrias e tristezas, as mulheres encontram-se, perdem-se, reencontram-se, até que construam efetivamente a forma como irão vivenciar o papel materno em suas vidas. De um modo geral, as mulheres que me procuram são primíparas (ainda gestando o primeiro filho ou com filho recém-nascido), de classe socioeconômica média, possuem, em sua maioria, bom nível sociocultural e de escolaridade, vivem em companhia de um parceiro, prezam por uma carreira profissional e desejam um corpo saudável e bem cuidado. Em relação à gravidez, ao parto e aos cuidados com o bebê, a grande maioria deseja/desejava parir por via vaginal (e quase sempre terá/teve cesariana), quer amamentar, amar o filho e dar-lhes tudo o que de melhor estiver ao seu alcance, tanto em termos materiais quanto emocionais. São usuárias assíduas da internet, que buscam na rede mundial de computadores, informações diversas, inclusive sobre maternidade, e que encaram, portanto, a instrução e o apoio obtido através da internet como uma realidade e uma prática comum em suas vidas diárias. Ou seja, são típicas mulheres contemporâneas, escolarizadas, que vivem em um meio urbano, ocidental, globalizado, conectado, industrializado e capitalista.

Na cultura atual, a mulher vive diversos papéis simultaneamente. Precisa ser, ao mesmo tempo, mulher, profissional, mãe, esposa, amiga. Muitas trabalham, não tendo apenas o rótulo de “do lar” que suas avós e bisavós vivenciaram. E se já era difícil cuidar de uma casa e dos filhos, a mulher de hoje acumula novas demandas que exigem diversas adaptações. Ela soma às tarefas de cuidados com o filho e com a casa, o papel de esposa, precisando, também, dar atenção ao marido (que nem sempre se adaptou aos novos tempos, em termos de divisão de tarefas domésticas); além de precisar cuidar de si mesmo, de manter seus relacionamentos com amigos e familiares e, dedicar um bom tempo à vida profissional, que, no caso de mulheres que acabaram de ter filhos, demanda o retorno ao trabalho assim que a licença maternidade terminar. São demandas que dividem essa mulher em muitas, exigindo dela o desempenho de diferentes papéis sociais. São muitas facetas em uma pessoa só. Muitas transformações, cobranças, sonhos e frustrações, principalmente no momento do estabelecimento do seu papel materno que requer uma imersão intensa em termos psicológicos, sociais e físicos.

A família também vem se transformando ao longo do tempo e se adequando à nova realidade. A família de classe social média atual, objeto deste estudo, não é tão numerosa quanto a de tempos atrás, em geral, ela é nuclear (pai, mãe e filho) e pequena. No entanto, a diminuição do número de filhos não reverteu em menos preocupação e trabalho. Se em gerações mais velhas o grande foco de atenção nas famílias eram os pais, hoje, o foco são os filhos. A criança é muito mais valorizada em termos de investimentos emocionais e financeiros do que antigamente e tem suas mais diversas demandas (necessárias ou não para o seu bem estar e desenvolvimento) colocadas à frente de quaisquer outras demandas familiares.

Convivendo diariamente com mulheres que atravessam esse momento que reflete todas essas mudanças e acompanhando a reconfiguração de suas famílias, pude aprofundar meu interesse e curiosidade pela complexidade da maternidade contemporânea, pois são essas mulheres de hoje, essas famílias de hoje, as responsáveis pelas futuras gerações. Através do acompanhamento online e presencial da vivência da maternidade, tenho a grata possibilidade de refletir sobre o passado, olhar o presente e tentar projetar o futuro. Creio que aliar essa experiência prática ao estudo teórico renderá um bom caminho para o entendimento de algumas das questões da construção da maternidade na contemporaneidade.

Como embasamento teórico, desde 2007, participo do grupo de pesquisa Interação Social e Desenvolvimento (CNPq) na Uerjhttp://www.desin.org. Nele investigamos questões ligadas à psicologia do desenvolvimento humano em interação com a biologia e com a cultura, fundamentadas pela psicologia evolucionista e pela psicologia sociocultural. Fazer parte do grupo é também uma aventura prazerosa, que tem gerado resultados proveitosos para os futuros pesquisadores e apreciadores do tema, como eu.

Desta trajetória surge o espaço AMA como Um espaço pensado para o bem-estar

Trabalhando com o conceito de práticas integrativas em saúde, o Espaço AMA tem como proposta integrar corpo e mente através de atividades que promovem bem-estar, autoconhecimento e autoestima, conduzindo o indivíduo ao seu desenvolvimento pessoal e à melhoria da sua qualidade de vida.

Como não existe uma atividade que perpasse os diversos aspectos individuais e áreas do conhecimento, capaz de atender a todas as demandas de um indivíduo, contamos com atividades terapêuticas, educativas e/ou físicas – oferecidas nas modalidades individual, grupo e oficina – que se complementam, evidenciando demandas e potencializando mudanças:

Através do que se fala, do que se ouve e mesmo do silêncio.

Através do que se revela, do que se oculta e do que se deixa subentendido.

Através do que se sente e do que expressa o próprio corpo.

Através de vivências particulares e do contato com outras pessoas.

E, principalmente, através do acolhimento e da experimentação de momentos de reflexão e prazer.

Nossos profissionais e parceiros são especializados em suas áreas de atuação e comprometidos com a ética e a missão de fazer do Espaço AMA um espaço de promoção do bem-estar, do desenvolvimento pessoal e da qualidade de vida.

O nome, Espaço AMA alias as iniciais do meu nome Aline Melo de Aguiar a algo fundamental no meu trabalho, Amor!

3 – Vocês trabalham com o luto na perda gestacional? De que forma?

O trabalho com luto e perdas é feito através de psicoterapia individual.

4- Você já vivenciou o drama da pera gestacional ou conhece alguém próximo que tenha vivenciado? Se sim, poderia compartilhar um pouco com a gente. Caso a resposta seja negativa, conte um pouco sobre o que te fez trabalhar com gestante.

Eu, pessoalmente, não vivenciei a perda gestacional. O que me fez trabalhar com gestantes está descrito na primeira resposta.

6 – Acredita que a experiencia pessoal influenciou no seu trabalho como psicóloga de uma instituição que oferece apoio e suporte para quem vivencia o luto e perdas? De que forma?

Sem dúvida. A principal influência é ser mãe.

7 – Acreditamos que a morte ainda é um tabu na nossa cultura e sociedade, que precisamos quebrar o silencio sobre o tema da perda gestacional/neonatal, e você, concorda com a gente? Por isso iniciamos o abaixo assinado online pedindo Um maior cuidado com a perda gestacional, criamos a fanpage Do Luto à Luta: Apoio à perda gestacional e o nosso grupo de apoio presencial mensal. De que outra maneira você acredita que podemos fazer esse movimento?

Concordo sim. Os encontros presenciais e o grupo do facebook são ótimas ferramentas para falar do assunto.

Para atingir mais pessoas, talvez um evento online sobre o tema pudesse ser bem aceito.

8 – O que diria aos pais que vivenciaram o drama da perda gestacional e não sentem seu luto autorizado/reconhecido socialmente?

Que busquem psicoterapia para poder vivenciar o luto, ressignificar a perda e poder seguir adiante sem culpas. Se o luto estiver sendo trabalhado internamente, o meio social que a pessoa convive perceberá e poderá lidar melhor com isso.

Entrevista concedida pela psicóloga Aline Melo de Aguiar

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