Mães possíveis, o melhor possível, mas apenas isso.

2 filhos, sou médica pediatra homeopata, 39 anos.


Quando eu fiz 20 anos, estudante do segundo ano de medicina, eu já estava com meu bebê nos braços, ele tinha 1 mês de vida.
Desde que soube da gestação lutei pelo meu filho, não faltaram vozes de recriminação. A minha ginecologista, sem olhar pros meus olhos me perguntou: “E ai nega? Vai tirar?” Eu levantei e sai da sala pra nunca mais voltar. Seguiram outros momentos com meus pais. Eu era a filha estudiosa e obediente. “Como você foi fazer uma coisa dessas! Como foi engravidar no início do curso de medicina! Você é burra? Você está colocando sua vida a perder!”
Eu estava começando a viver e conceber por amor era e é tudo de mais valoroso que se pode querer nessa vida. Eu amei meu filho desde o primeiro momento, desde o meu sim pra nós, ao pegar o resultado do exame positivo. Eu e meu namorado casamos em 5 meses. Era a condição imposta por meu pai. “Filha minha não vai ser mãe solteira.” Quase um decreto!
Nós ficaríamos juntos de toda forma.
Enquanto assimilávamos a vida de casados eu já tinha a convicção que faria um parto vaginal, era coerente com tudo que eu aprendia na faculdade, com o que eu acreditava, então procurei um obstetra, particular, que pagamos com viagens do meu marido ao Paraguay, com muito suor e esforço.
O médico havia sido muito bem indicado, professor, doutor, o tal. Mas como toda história tem um porém, foi ocorrendo um gradativo processo de quebra de confiança. Primeiro, no oitavo mês de gestação, surgiu um congresso imprescindível que ele precisava participar. Depois na última consulta quis mostrar o cabelinho do meu filho para o jovem papai, através de um colposcópio. “Olha que lindo!” Meu marido caiu desmaiado na sala do consultório. Arbitrariamente, depois desse ardiloso teste, o obstetra, proibiu meu marido de me acompanhar no trabalho de parto. Eu enfrentaria tudo sozinha!
Entrei em trabalho de parto no dia 02 de novembro, feriado de finados. O médico já havia voltado de seu congresso, mas desta vez, estava em um compromisso muito importante, jantava com um amigo. Fui para maternidade conforme sua recomendação, começaram os infindáveis toques das estagiárias. Eu estava assustada, apavorada, os toques doiam muito, elas não chegavam em um acordo se estava de 3,5,4 cm de dilatação. Quando finalmente o médico chegou, umas 3 horas depois, ele repetiu o toque. Porque, só consideraria válido o seu próprio toque. Ora! Porque que foram feitos os outros então? Se eu pudesse teria escalado a parede atrás da maca de costas. Gritei de medo e de dor, tentando me manter no lugar. O médico queria me subjugar e afirmou: “Não dá! Melhor fazer uma cesárea!” Nessa hora eu fiquei muito brava. “Cesárea tem indicação! E seu despreparo para lidar comigo, não é uma indicação!” Meu marido e o médico discutiram, o médico começou a ter uma crise de asma. Estão imaginando a cena? Por fim, eu me coloquei e disse: “Se entendam, se acalmem. Eu me preparei para ter um parto normal e é assim que meu filho vai nascer.”

O clima estava tenso. Consenti que fizessem a indução, consenti em receber analgesia. O anestesista me puncionou 2-3 vezes até conseguir realizar a analgesia, depois disso eu deixei de conseguir ajudar, não consegui mais perceber as contrações. Hoje eu creio que tenha sido administrada uma dosagem mais alta de anestésico nas várias tentativas feitas. Mas também até ali eu já havia feito muito, recolocando as pessoas em seus papéis.
Foi tudo muito rápido, pressionaram minha barriga, tentaram me invalidar porque eu estava exausta, apavorada, sozinha, fizeram uma episiotomia enooooorme, foi usado fórceps porque era necessário. Apesar disso tudo, meu filho nasceu bem, chorou logo, vi seu rostinho, mas havia alguma coisa de errado comigo, fui perdendo os sentidos, fui perdendo a força, levaram meu bebê pra longe de mim e a última coisa que lembro antes de apagar foi: “Abra e feche a mão”, enquanto tentavam pegar outro acesso venoso. Eu choquei, tive uma hemorragia muito intensa e desmaiei. Quando voltei a mim, estava sozinha, havia uma pilha da minha altura de compressas ensanguentadas no cando da sala. “Cade meu filho?” Comecei a chamar ajuda, mas não vinha ninguém. Pra eles já estava tudo resolvido, curetagem feita, sangramento estancado, tudo certo.
Eu não esperava por isso.
Fui me dando conta do que havia acontecido ainda sem conseguir entender direito.
Horas depois quando eu finalmente pude tê-lo em meus braços ele começou a apresentar uma gemência, estava com Distress respiratório. Uma dificuldade de adaptação respiratória que acontece em bebês de termo. O tempo dele não havia sido respeitado. A indução foi feita com 38 semanas, por ansiedade generalizada, do médico, da família e minha própria. Eu cheguei com 3 cm de dilatação e o parto podia ter demorado ainda vários dias.
Perdi a consciência de novo, quando a recuperei, ele já não estava mais comigo, estava na incubadora, na UTI. Levantei com muita dificuldade, estava fraca, debilitada, mas mesmo depois de 2 transfusões de sangue, subi duas rampas me esgueirando no apoio lateral, amparada por meu marido e fui colocar as mãos na incubadora, tentar explicar pro meu filho o que estava acontecendo, acalmá-lo, consolá-lo, dizer pra ele que tudo ia ficar bem.
Ficamos 4 dias na maternidade para que pudéssemos nos recuperar. No quinto dia de vida de meu filho, já em casa, liguei para pediatra dele, ele estava laranja. “Laranja como?” Bem laranja, parecia um canário alimentado com cenoura eu disse pra ela. Corremos para o hospital infantil em que ela trabalhava. Não permitiram minha entrada na sala de coleta de exames, com a desculpa esfarrapada que secaria meu leite. Fiquei desesperada do lado de fora, minha cria chorava lá dentro. Até que, invadi a sala, peguei-o nos braços, conversei com ele e foi possível nessa enésima picada, coletar o sangue para dosar a bilirrubina. Ele precisou ficar internado, ou melhor, nós precisamos ficar internados, para banho de luz por 5 dias. Eu amamentei em pé, debaixo das luzes, com seus olhos cobertos para não serem feridos pela luz e suas mãozinhas amarradas para que não arrancasse a venda dos olhos.
Quando enfim, chegamos em casa, eu não podia acreditar no que tinha ocorrido. Meu filho comigo! A maior felicidade do mundo! Mas a morte havia passado bem perto de mim. Ninguém poderia supor o quanto isso me assustou.
Com 13 dias de vida do meu bebê, minha mãe precisou voltar para sua cidade. Até hoje me lembro do que ela disse ao passar meu filho pra mim: “Toma que o filho é teu!”
Seguiram dias de muita desorientação. Eu não conseguia cuidar da casa ao mesmo tempo que cuidar do meu filho. As roupas se acumulavam sobre o sofá para serem passadas, eu não dormia, o pai não dormia, trocávamos fraldas demais, não sabíamos o que fazer quando nosso bebê não acalmava no peito. Eu estava aprendendo a reconhecer o choro dele, eu estava aprendendo a me reconhecer mãe.
Ele chorava por nós dois, era um choro desesperado, desamparado, que nem sempre eu sabia acolher, eu fui aprendendo. Ainda estou aprendendo a acolher meu filho.
Todos os pontos da mega episiotomia inflamaram e foram expelidos por reação de corpo estranho, um a um.
Lavava as roupinhas dele sentada em um banquinho na frente do tanque. Eu ainda estava anêmica. Tive uma infecção urinária porque na curetagem fizeram uma sondagem ureteral.
Eu não esperava que eu estivesse tão debilitada pra cuidar do meu filho.
Depois disso seguiram-se as cólicas irremediáveis do nosso bebê, era um troca troca de colo, balança pra lá, balança pra cá. Massagem daqui, dali, compressa, chupeta, tentamos de tudo, nada resolvia. Foi quando lembrei de consultar um homeopata e tivemos alguma melhora. O papai começou a conseguir acalmá-lo, buscava-o no berço pra eu amamentar, isso ajudava muito. Como meu menino mamava muito, meus seios racharam, havia muito leite, eu não tinha um sutiã apropriado, era leite pra todo lado, várias vezes empedrava. Meu marido trabalhava o dia todo e estudava a noite. Eu não conseguia preparar comida, e muitas vezes não conseguia comer, ele chorava, eu não conseguia ir ao banheiro, ele chorava novamente, estávamos sozinhos, aprendendo a ser mãe, aprendendo a acolher meu filho, a acolher meu próprio desamparo que eu nem sabia que existia.
Éramos estudantes, a grana escassa, o orgulho grande, a ajuda que vinha de todo tipo que fosse era pouca, e nem sempre bem vinda, apesar da imensa necessidade. Eu queria ficar com minha cria e só deixava o pai chegar perto.
Com tudo isso sentir-me deprimida, incapaz de dar conta, de cuidá-lo, foi quase inerente.
Chorei muito! Eu nunca havia pensado que o começo seria tão difícil.
Não faltaram também desaprovações quanto a minha determinação em amamentar, a prática da Shantala, a eduacação positiva, ao colo. Afinal, eu era uma mãe muito nova! Desculpem-me a ironia.
Foram 10 anos para que curássemos todos os medos, a maior parte da culpa, as feridas desse parto, desses momentos inciais, até que decidimos ter mais um filho. Não aceitei nenhuma intervenção, escolhi melhor a profissional que estava comigo, estava mais madura e empoderada, muito certa do que eu queria, meu filho caçula nasceu de 39 semanas mais 5 dias, no tempo dele de parto natural.
Mesmo com a maternidade segui a faculdade, fiz residência. Tornei-me pediatra. Praticamente não faço intervenções, uso a homeopatia sempre que possível. Estou em formação para tornar-me psicanalista. Atendo bebês e mães procurando fazer parte dessa rede de apoio nesse período de adaptação mãe e filho, auxiliando na compreensão dos sentimentos humanos que nos deparamos diante da maternidade, esclarecendo dúvidas e medos que por ventura existam nessa hora e devolvendo as mães a capacidade intrínseca de reconhecer o que seus filhos precisam e o que elas podem dar.
Winnicott falava das mães suficientemente boas, eu falo de ser mães possíveis, o melhor possível, mas apenas isso.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Willa Marques disse:

    Luciane, maravilhoso o seu relato! Sou psicóloga, engravidei recém formada e também não era pra ser Mãe Solteira. Casei, mas o casamento só “durou” até o nascimento do bebê. Tive depressão gestacional que prevaleceu no pós parto, mas por não ter ninguém por perto e pelo despreparo da maioria dos profissionais também tive que aprender a lidar com o meu despreparo, normal a qualquer pessoa que vivencia algo novo e acolher meu filho ao mesmo tempo em que eu nem sequer me reconhecia. Aos poucos fui me reencontrando, estudando e me tornei psicóloga comportamental de mães, acolho mães que tentam se encontrar nesse turbilhão de sensações. Também me identifiquei muito com o seu relato e esperamos fazer a diferença para mães que buscam encontrar-se nesse momento da vida. Abraços e gratidão por compartilhar conosco sua história!

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  2. Luciane,
    Seu depoimento traz uma história de vida muito tocante! A falta de preparo dos profissionais, o desamparo que sofreu, todo o sofrimento antes e depois do parto, as suas limitações, o amparo do seu marido, o amor e a determinação que fizeram parte dessa trajetória. É gratificante ver que você foi reconstruindo a sua história com a maternidade, assumindo que somos o que podemos ser no momento e dar continuidade, transformando essa marca em um marco, que te empodeirou para se especilizar e ajudar outras mulheres a viver a maternidade de uma forma diferente. Parabéns! Thalita Arruda – Equipe Temos que falar sobre isso

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  3. Júliana Valino disse:

    Uau! Que depoimento! Quando tive meu bebê, eu era recém formada e tive muitas frustrações como você. Desde o começo fui criticada por engravidar antes do casamento, casei em 5 meses com meu marido, pois meu pai não aceitava a filha sendo mãe solteira, fui praticamente “obrigada” pela minha obstetra que meu pai tinha que ser cesária, pois era a forma mais segura de um bebê de 52cm nascer, mesmo eu tendo o sonho de ter um parto natural, tive muita dificuldade para amamentar meu bebê e fui muito criticada por isso. Hoje, me tornei fonoaudióloga, trabalho em UTI Neonatal e faço consultas domiciliares para auxiliar mães puérperas na amamentação e no pós-parto.
    Amo minha profissão e a cada atendimento que realizo é como se eu tivesse ajudando a mim mesmo, me curando te todo o mal que me ocorreu no início da minha maternagem.
    Parabéns por esse depoimento sincero e realista. Me identifiquei muito com ele! Que possamos sempre ajudar mães puérperas com orientação correta e acalento, pois sabemos como difícil é o início da maternidade quando não de tem apoio e incentivo!

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