Entrevista com a Mariane Maciel do projeto Vamos falar sobre o luto

Gostaríamos de agradecer a querida Mariane Maciel pela entrevista concedida a equipe Do Luto à Luta, com sensibilidade, empatia e solidariedade a dor do luto na perda gestacional!

Vale ressaltar que a Mariane em conjunto com mais 6 amigas que vivenciaram a experiência de perder um ente querido, criaram a plataforma online Vamos falar sobre o luto? visando auxiliar na elaboração do luto dessas pessoas, através deste espaço de troca e compartilhamento de historias e emoções.

Agradecemos ao Vamos falar sobre o luto? pela importante iniciativa de querer descomplicar o luto e torna-lo partilhado, desmistificando o tema, permitindo que os enlutados possam ter acesso a informação qualificada (especialistas), vivenciar o luto sem medo, e quem sabe encontrar um novo sentido para vida, reinventar a própria vida.

Obrigada pela parceria, amizade e carinho! Juntas somos mais fortes, querida!

Do Luto à Luta


Apresentação pessoal e profissional dos integrantes do projeto

Meu nome é Mariane Maciel, tenho 38 anos, nasci em Vitória e há quase 6 anos vivo no Rio de Janeiro. Criei o projeto ‘Vamos falar sobre o luto?’ no final de 2014 com 6 amigas queridas: Rita Almeida, Cynthia Almeida, Amanda Thomaz, Fernanda Figueiredo, Sandra Soares e Gisela Adissi. Ninguém é especialista em luto, nosso background é em comunicação (jornalismo, publicidade, inovação).

1 – O que motivou vocês a criar uma plataforma on line para falar sobre o luto?

A maior parte dos projetos e organizações sociais nasce de uma vivência pessoal e o nosso projeto não é diferente. Na verdade, ele nasce de várias experiências já que somos um grupo de amigas. Nós já passamos por perdas difíceis e vivenciamos o luto e, pelo caminho, criamos uma empatia muito forte com aqueles que estão passando por isso agora, principalmente nos primeiros meses e anos após a perda. Então nossa maior motivação é contribuir, de alguma maneira, para que o luto de amigos e desconhecidos seja menos solitário e complicado.

2 – Qual o propósito maior de vocês com essa iniciativa?

A gente sempre fala que ‘falar sobre o luto é um projeto pra vida’ e, espontaneamente, esse acabou virando o slogan do projeto. Nós queremos criar um espaço onde seja possível encontrar informação e inspiração para viver o luto e reinventar a vida. São duas coisas diferentes, mas igualmente importantes. Viver o luto é não ignorar que ele existe e precisa ser vivido. É aceitar essa fase, esse processo natural que precisamos passar para assimilar a perda e viver com saúde. Mas também julgamos ser muito importante pensar em como reinventar a vida… e por isso falamos tanto em inspiração. Quem amamos estará sempre vivo dentro de nós, isso é fato, mas queremos ajudar as pessoas a encontrarem maneiras de seguir em frente. Temos alegria de viver, temos um pacto com a vida, e encontramos muita gente que pensa de forma semelhante pelo caminho – como você, querida Larissa. Então por que não acolher e inspirar mais pessoas?

3 – Vocês receberam depoimentos sobre perdas gestacionais? Como foi ter acesso a esses relatos?

Na primeira fase do projeto, disponibilizamos um formulário online para quem quisesse dividir sua vivência do luto com o grupo. Fizemos um convite bem simples e disponibilizamos nas nossas rede sociais. Em menos de meia hora, recebemos o email da Karina. Ela contou sua história e ao final se despediu assim: “Obrigada pela oportunidade de abrir meu coração, acho que nunca tinha escrito sobre isso antes!” Algo que nos chamou bastante atenção: Karina nos falava sobre a perda da sua avó que havia acontecido há 14 anos!!! Depois da Karina, mais de 170 pessoas nos escreveram. Grande parte dessas pessoas também nos agradece, na primeira ou na última frase, pela oportunidade de falar. Alguns passaram por perdas recentes, outros resgataram memórias de 20, 30 e até 40 anos. Mães, pais, filhos, netos, companheiros, amigos… diferentes histórias de amor e também maneiras distintas de viver o luto.

Recebemos, sim, alguns relatos de perdas na gestação ou logo nos primeiros dias do bebê. E o que eu posso dizer após ter tido o contato com tantas histórias é que cada uma é singular, mas todas as dores precisam ser respeitadas. Não importa quanto tempo um filho viveu (dentro ou fora do útero), não importa se ‘ela era a minha avó que já viveu bastante’, não importa se ‘ele estava doente e sua morte era esperada’… só quem vive a perda sabe a dimensão da sua dor e essa nunca pode ser diminuída ou menosprezada.

4 – Como foi o processo de escolha do nome do projeto como uma pergunta, um convite? E a escolha do desenho?

Quando começamos o projeto, em Novembro de 2014, sabíamos que queríamos fazer ‘alguma coisa’ mas não exatamente o quê. Bom, havia várias ideias, mas não sabíamos o que era mais importante / urgente / útil. Por isso resolvemos começar ampliando a nossa escuta. ‘Vamos falar sobre o luto? ‘ era realmente uma pergunta. Será que alguém mais deseja falar sobre isso? E assim lançamos nosso convite online para quem quisesse nos contar como foi passar pela experiência, fomos conversar com especialistas, fizemos encontros presenciais e convidamos algumas pessoas para falar em um vídeo (veja em http://www.vamosfalarsobreoluto.com.br). Por fim, descobrimos que falar é o primeiro passo para transformar uma experiência que infelizmente está sendo sufocada por nossa sociedade apressada e obcecada pela felicidade 24 horas/7 dias na semana. Agora estamos pensando em mudar a marca e tirar a interrogação ;-), quando formos lançar o novo site onde poderemos falar sobre o assunto.

Os tsurus são aves sagradas no Japão, símbolo da saúde, da boa sorte, felicidade, longevidade e da fortuna. Mas, como todos os pássaros, eles também representam para nós coragem e libertação. É a cara do projeto.

5 – Vocês vivenciaram o drama da perda gestacional ou conhecem alguém que tenha vivenciado? Se sim, poderiam compartilhar um pouco dessa experiência conosco?

Não, não passamos por isso, mas conhecemos pessoas que já vivenciaram essa perda. Na minha visão, o assunto não é tratado com o devido carinho. Imagino que muita gente (mulheres e maridos que passam por isso) escutam um ‘bola pra frente’, ‘daqui a pouco vocês engravidam de novo’, como se fosse algo banal. Fico feliz de haver um projeto como o de vocês dedicado a isso.

6 – Sabemos que vocês foram motivados por experiências pessoais com perdas para a criação desta plataforma on line. Você poderia nos contar um pouco sobre a sua experiência com a morte, com a dor do luto?

Vou te falar algo que digo para todos os jornalistas, então não é nada pessoal. A minha experiência é tão importante como a das minhas amigas e das dezenas de pessoas que dividiram suas histórias conosco. Todas as histórias são importantes. Então prefiro que vocês assistam o vídeo que preparamos com tanto carinho pois ali há pelo menos 10 pessoas contando como foi viver esse período triste, mas também muito transformador. Eu sou uma delas, então vocês ficam sabendo um pouco mais de mim por lá.

7 – Apoiam e se identificam com a nossa causa de pedir um maior cuidado com a perda gestacional? Por que?

É claro que apoiamos e somos fãs do projeto. Vocês estão transformando dor em amor ao acolher mães e pais que muitas vezes se encontram sozinhos em suas vivências.. e ainda dialogando com as maternidades para que haja um cuidado maior nesse momento. Sensacional! Desejo boa sorte, que esse projeto cresça e chegue a todo Brasil e que nós possamos estar sempre juntas e trabalhando em rede.

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