Mãe de Leite – Claete Brito Koch

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A Claete Brito Koch é nossa colaboradora. Ela estará aqui no Temos que falar sobre isso, mensalmente, falando sobre aleitamento materno. Casada e mãe de duas meninas.
Idealizadora e criadora do Projeto Mãe de Leite. Conselheira em Aleitamento Materno pelo IBFAN Portugal. Código Internacional de Marketing de Substitutos do Leite Materno pelo IBFAN Portugal. Aleitamento Materno pelo Hospital Regional Materno Infantil de Imperatriz, Maranhão.

Acompanhe aqui todos os posts dela!

Segue abaixo o Desabafo da Claete, não perca!!


A dor de ninguém ouvir o seu grito de dor – Parte I

Hospital:

Tudo começou ainda no hospital. No primeiro dia, ela chorava e ninguém me falava que isto também era normal… Ela ficava nervosa por não saber pegar o peito e eu chorava por não saber colocá-la no peito. E assim ficamos 5 (cinco) dias no hospital até a amamentação aparentemente estar estabelecida. O aparente tornou-se visível, ela não estava a pegar o peito devidamente e quando eu tentava, sem sucesso, acertar a pega e pedia ajuda, a enfermeira vinha e simplesmente a punha no peito sem mostrar-me como era o certo, não esclarecia absolutamente nada! O idioma (alemão) ainda era uma barreira, assim como o medo de minha filha tão pequena estar passando fome.

No segundo dia após o parto, minha filha ganhou um lindo “presente”: uma chupeta. Porque estava chorando demais. Eu, que até aquele momento, a única informação sobre amamentação que tinha era colocar o peito para fora e daria tudo certo, achei que o hospital estava agindo bem dando-lhe uma chupeta e assim seguimos mais um dia tentando amamentar com uma pega errada, mamilos fissurados, preocupação pela “falta” de leite e também por ainda não obter nenhuma ajuda concreta.

Ao terceiro dia, pela manhã, ela chorava como nunca. A enfermeira cansada e irritada com meus pedidos de ajuda para acertar a bendita pega, sugeriu que eu desse leite para ela, e eu aceitei achando que seria leite materno, de um banco de leite. Em segundos, ela chegou feliz, sorridente e radiante com uma mini mamadeira com leite na mão, ensinou-me com cuidado como dar a mamadeira e saiu me deixando ali, mais triste e mais arrasada do que antes… entretanto, meu consolo era saber que supostamente era leite materno.

Nesse mesmo dia, por volta das 12 (doze) horas, comecei a sentir a descida do leite, e sem estimulação correta, tive um ingurgitamento violento! Mais de 40° de febre que fazia-me tremer dos pés à cabeça! Quando procurei por ajuda, deram-me um Paracetamol e disseram-me para descansar, pois logo passaria. Duas horas depois, meu estado só piorou. Fui outra vez pedir ajuda… E neste momento, verdadeiramente viram meu estado. Novamente sem explicações, calma e cuidado, partiram para a suposta solução: apertar meu peito. Constataram o óbvio, o seio estava por completo como uma pedra, vermelho e muito quente. E sem nenhum pré-estímulo, orientação; colocaram-me para fazer ordenha. Sem massagem. Sem compressa. Sem consolo. Com todo esse contexto péssimo, meus hormônios mais ainda desequilibraram-se… e o leite não saiu. Nem sequer uma gota. A única coisa que eu sentia naquele momento era dor e frio.

A enfermeira não se contentando com meu sofrimento, não aceitou que sua técnica tinha falhado e começou a apertar meu peito como se apertava uma laranja seca. A cada vez que a bomba sugava, ela apertava na tentativa de que o leite saísse… Eu não sei dizer a vocês como eu aguentei, pois a única coisa em que eu pensava era que eu estava fazendo aquilo para o bem da minha filha. “Depois daquilo ela ia conseguir mamar”, pensei, e mesmo em meio aos gritos, eu me forçava a acreditar que aquele procedimento era correto. Depois de tentar em vão essa tortura e ver que o leite não iria sair, mandaram-me deitar novamente. Passado um tempo, chegou outra enfermeira, esta viu meu estado e, diferente das demais, deu-me compressas mornas, ensinou-me a fazer massagem e finalmente o leite começou a sair sem ajuda de bomba. Fizemos uma nova extração e depois de meia hora estava tudo melhorando, mas ainda com muita dor… não sei dizer se era por causa do ingurgitamento ou pela tortura de apertos desnecessários que recebi. Ao fim da extração, recebi compressas frias e tudo foi melhorando devagar.

No quarto dia, ainda com a pega errada… decidi deixar a mamadeira de lado, pois vi que eu tinha leite, e começamos a amamentação somente com LM, e assim seguimos, eu com muita dor e ela mamando em livre demanda e com pega errada. Eu com mamilos fissurados (leia-se. massacrados), mas seguia em frente.

Ao quinto dia, depois dos exames de rotina, ela recebeu alta. Estava super bem, peso na medida certa e eu… um trapo. Tentei um último pedido em vão de ajuda e a resposta foi: daqui a uma semana seus mamilos irão sarar, se não sarar, a senhora pode voltar aqui imediatamente.


Em casa:

Chegamos em casa. Papai estava lá o tempo inteiro nos ajudando, cuidando da gente e sendo o melhor pai do mundo. E mesmo com toda a minha dedicação, ela ainda chorava muito… e eu caí na besteira de comentar com minha mãe e com algumas “amigas” tal fato. Mesmo tendo acabado de mamar, a pequena já saía do peito mostrando querer mais. Logo, rapidamente, começaram a chover os palpites: “É fome!”. Ao contrário de tudo, seguimos por duas semanas com amamentação exclusiva, livre demanda e com a chupeta que ela ganhou no hospital. “Ela ficava calma”, pensava eu, porém infelizmente ela estava apenas aprendendo e reforçando a sua pega errada.

Duas semanas seguiram. Cólicas começaram a aparecer em nossa rotina, e sem saber o que fazer, levei-a ao médico, o qual imediatamente receitou-me um remédio. Não importou-se em verificar ou perguntar sobre a minha pega. Não perguntou como eu estava ou como estávamos com relação à amamentação. Voltei para casa com aquele remédio, sem saber ao certo se eu daria mesmo para ela.

Não tardou, chegou a hora da cólica, que era normalmente entre 23h e 03h da manhã. Ela ficava vermelha, se contorcia de dor e chorava sem parar. Colocava-a no peito e ela sugava com tanta força que meu mamilo ficava achatado e esbranquiçado, devido a então pega errada. Fazia massagem; colocava compressa morninha; enrolava-a, caminhava, cantava, fazia tudo e nada adiantava.

E em uma dessas noites que me desesperei, comprei uma bomba e caí na besteira de ver quanto leite eu produzia. Em meio a prantos, tanto dela como meu de me sentir incapaz de produzir leite para minha filha, comecei a internalizar o que todos falavam durante duas semanas e eu, mesmo estando disposta a não ouvir, chegou uma hora em que eu não aguentei e acreditei. Tirei o leite em meio àquele caos, choro meu e dela. Desespero e sono meu e dela também…. Míseros 30 ml saíram dos dois seios – que mesmo dentro dessas condições era leite suficiente para amamentá-la – bastava a pega estar correta! E ter alguém pra dizer que o estômago de um bebê recém-nascido é do tamanho de um estômago de um bebê recém-nascido, não de um adulto.

Logo, até então a carência de exatas informações, fez-me acreditar que ela precisava de muito mais leite para ficar calma e saciada.

Fiquei arrasada, como era esperado, ao me deparar com aquela quantidade de leite. Deitei e concluí que eu era a mulher mais incapaz desse mundo, incapaz de produzir o leite que minha filha precisava para se alimentar. Meu marido, diante de tal desespero, acalmou-me dizendo que nós receberíamos pela manhã a visita de uma Doula e ela me ajudaria nisso. Deitada, ouvindo-o feliz e esperançosa, acabei por adormecer acreditando nessa solução.

A Doula chegou às 8h da manhã. Eu estava “morta”. Havia dormido apenas 3 horas, tinha acabado de amamentar e ela, sem introdução, pediu-me para tirar leite com a bomba para ver como estava minha produção. Tal como o médico, não se preocupou em ver a pega, uma mamada e nem ao menos saber como foi minha noite de terror. Mediante aquela “pressão”, consegui tirar mais 30 ml dos dois seios. Ela concluiu minha sentença de incapaz com a seguinte frase: “É, realmente você não tem leite!”

(O leite tirado com a bomba – elétrica ou manual – nunca vai ser a quantidade real tirada pelo bebê).

Aquilo foi o suficiente para eu desabar ali mesmo em prantos. Falei que queria muito amamentar. Perguntei o que eu poderia fazer apara aumentar meu leite, o que eu precisava comer ou beber. E ela, muito friamente, falou que tudo isso era em vão, seria melhor entrar com fórmula, pois minha filha estava com um peso bom, mas corria o risco dela ficar magra e, com o tempo, ficar desnutrida por eu ter pouco leite.

Isto acabou com minha vida… comigo… e com tudo que eu acreditava! Ali, naquele exato momento, morreu a parte que eu mais tinha orgulho, a mulher confiante e determinada que eu era.

A Doula saiu. Mesmo aos prantos, pedi ao meu marido que ligasse para o hospital e pedisse ajuda. Ligamos e a reposta foi: “Não podemos ajudar nesse sentido, pois quem é responsável por isso é a Doula que faz a visita no pós parto, mas se o senhor quiser, dê o leite que ela bebeu aqui…” e ouvindo pelo viva voz, perguntei: “que leite? Era leite do banco de leite, não era?” Para acabar com o resto de esperança e vida de dentro de mim, a resposta foi: “Não, não temos banco de leite aqui, o leite que ela bebeu era fórmula, marca x.”

Eu não consegui mais falar… não consegui mais respirar… e por alguns segundos, senti não ocupar mais o meu corpo. Aquilo doeu tanto em mim que até hoje me pergunto como eu suportei…


Para ler a Parte II clique aqui!

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