Invisibilidade e Infertilidade: Uma difícil realidade

Por Juliana Benevides – 29 Setembro 2015


“Como você vai saber as dificuldades de ser humano, se você está sempre voando para a azul perfeição? Onde você vai plantar suas sementes de luto?” – Rumi

Invisibilidade e Infertilidade: Uma difícil realidade

A dor de um casal infértil é pouco descrita e relatada. Cada mês há uma lembrança física de que os organismos envolvidos falharam na proposta da concepção. E essa dor silenciosa consome emocionalmente o casal, apesar de não ser legitimada pela sociedade. É uma perda, um luto, extremamente significativos, pouco compreendidos.
O nível de sofrimento e angústia de mais um resultado negativo de gravidez, o aborto espontâneo de mais um feto podem não ter o mesmo sentido, mas a sensação de perda e decepção são sentimentos que podem surgir igualmente. As incertezas diante de tantos tratamentos, procedimentos invasivos e técnicas podem enfraquecer em vez de fortalecer, porque conscientemente pode-se não mensurar o tamanho da tristeza, mas alguns sintomas surgem e podem se agravar diante das tentativas sem êxito:
– Algumas pacientes relatam falta de energia ao sentir que mais um ciclo terminou sem o sucesso esperado. Parece que a bateria vai se esgotando.
– Ao ver uma amiga gestante, o sofrimento parece ampliar porque o auto-questionamento e a auto-condenação surgem fortemente.
– Dificuldades na relação do casal podem vir à tona e uma sensação de que o vínculo é frágil e sem sentido.
– O isolamento se torna necessário porque não se suporta mais os questionamentos. As pessoas conhecidas ou não, sempre tentam se atualizar se você já está gestante, se está fazendo tal procedimento ou se deixou de fazer tal exame.
– As especulações e milhares de alternativas que surgem, fora do casal, através das pessoas como se isso fosse minimizar a situação: “Porque não adotam?” “Se você for maternal mesmo você acolhe um menino abandonado.”
– Insônia, incapacidade de se concentrar, irritabilidade ao lidar com os altos e baixos de expectativa e estresse.

Estudos indicam que o aumento de infertilidade acontece em função principalmente do adiamento da gravidez cada vez mais frequente. Tanto a paternidade quanto a maternidade são ciclos de transição na vida do ser humano. O estresse da não realização desse desejo de ter um filho pode gerar efetivamente depressão e ansiedade. Pertinentes ou não ao ciclo de luto e angústia, essas perdas sofridas necessitam de um cuidado maior. Aceitar as inúmeras dificuldades existentes seria um grande primeiro passo para cuidar de si mesmo e da sua dor.
O choque sentido após várias tentativas frustradas de engravidar pode dar lugar a raiva e a culpa. A raiva pode ser interpretada em alguns casos como a sensação de vulnerabilidade ou impotência diante do sonho idealizado. A sensação de desamparo ou falta de controle são experienciadas porque não se pode programar o futuro já que o presente está em dúvida.
Permita-se sentir essa raiva, pois ela é uma resposta normal à infertilidade. Chorar, sentir-se triste podem fazer parte da raiva também. Geralmente auxilio meus pacientes a listar em um papel todas as coisas que estão deixando-os com raiva. Comece com “Eu sinto…”, “Eu penso…”.
Outro sentimento relatado é a vergonha, como se a pessoa infértil fosse imperfeita (e todos os outros seres humanos perfeitos) e não pudesse participar de nenhum grupo porque não tem o que falar, já que a sua vida se resume a exames, injeções, expectativas, frustrações em um ciclo dilacerante de repetição e fracassos. É no processo de aceitação que conseguimos transformar o sentimento de fracasso em aceitação dos seus limites e empatia com seu corpo e você mesma, bem como compreender que assim como outras pessoas na condição de humanos, enfrentamos batalhas e muitas vezes não ganhamos.

O estresse é um dos fatores que também tem impacto na infertilidade porque bloqueia a comunicação hormonal e interfere no processo de ovulação. Lembra que sua menstruação está prevista para chegar em um certo dia, mas por vários motivos, inclusive emocionais, ela não chega? É disso que estou falando!

Trabalhamos a dor da perda e o luto em consultório de diversas formas, pois cada sujeito sente e reage de forma diferente, mas as sugestões que posso dar são:

– Escreva cartas para o seu bebê: Se ele foi abortado, se não veio ele foi imaginado e esperado. Escreva tudo o que gostaria que ele soubesse, fale sobre seus sentimentos com ele.

– Crie a sua história com os bebês que não está tendo: Imagens, resultados de laboratório, testes de farmácia. Cada história é ressignificada, reescrita podendo produzir novos sentidos quando vivenciar outras experiências.

– Cuide de animais, jardins: Observe que a vida pode surgir ou brotar em outros sentidos, você pode cuidar de animais e receber este amor naturalmente ou plantar frutas e colhê-las com um significado especial.

– Procure grupos de ajuda, compartilhe suas experiências, sinta-se e permita-se fazer parte de um grupo para falar somente sobre isso. É transformador!

– Crie, imagine, construa soluções para sua angústia: atividades que você gostaria de fazer e nunca fez, viagens que pode fazer, atividades artísticas, participação em atividades voluntárias…

Busque auxílio terapêutico para ajudar a lidar com emoções caso você não conseguir. Porque sofrer sozinha se existem especialistas preparados para te ajudar a enfrentar a dor?

Receba meu abraço,

Juliana Benevides
CRP 17.844/01
SRVTN Centro Empresarial Norte, bl B sala 720. Brasília/DF
celular: 061 9138-3359
email: julianabenevides@gmail.com
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