Família Quadros Gerhardt

Tudo começou quando nos mudamos para a cidade de Gravataí  há 11 anos…

Logo que nos mudamos, compramos um restaurante e fazíamos eventos para arrecadar donativos para instituições de crianças carentes (abrigos, casa de passagem, ong´s de apoio soropositivos e deficientes). Sempre nos envolvíamos brincando com as crianças e levando um pouco de carinho, atenção e amor.
Então pensamos se gostamos tanto de criança porque não temos a nossa?

Primeiramente nos inscrevermos no Fórum de Gravataí para o apadrinhamento afetivo (ficamos um ano e meio na fila para apadrinhar e nada de criança)… Então fomos ao Fórum novamente para solicitar informações de como deveríamos proceder para entrar no processo de adoção, já que o apadrinhamento estava tão demorado… Nos orientaram a entrar como casal homoafetivo (isso era uma dúvida que tínhamos, porque em muitos lugares o preconceito é grande e os casais decidem que somente um entra com pedido de adoção e depois de adotada a criança o parceiro entra com pedido de incluir o nome dele também na certidão.

Entramos com a documentação e levamos seis meses para nos habilitar, mais 3 anos de espera até que nosso filho João Vitor chegasse…

No mesmo dia que conhecemos o João (08/10/2010) já o trouxemos para casa e tudo foi muito novo para nós. 

Essa parte de trazer o JV para casa no mesmo dia foi algo inédito até onde sabemos… pois quando o JV nos foi apresentado no Fórum, pegamos ele no colo e ele nos “agarrou” na lapela das camisas, tanto na minha quanto na do Lúcio… isso foi o suficiente para emocionar todos que estavam na sala naquele momento… então após as perguntas básicas das assistentes, tipo vocês vão querer ficar com ele, o que acham?…

Falamos no mesmo momento que ele era nosso filho e que não tínhamos dúvida sobre isso… então elas (eram duas assistentes) nos informaram que deveríamos retornar no fórum somente na quarta-feira (após o feriado de 12/10)… na mesma hora pedimos para trazer ele para casa… e questionamos se elas iriam preferir que o menino voltasse para casa de passagem ou fosse para o shopping conosco para comprar roupas, etc… então elas nos pediram alguns minutos que iriam analisar o caso… foram falar com a Juíza e a mesma “comprou” a ideia solicitando que o escrivão retornasse para o fórum (pois já se passava das 19:00hs) para fazer um documento de visitas prolongadas para que pudéssemos ficar com o JV naqueles dias.

Acabamos saindo do Fórum já quase às 21 horas e ficou tarde para nos deslocarmos até o shopping na capital (moramos na região metropolitana – distante uns 35km da capital).

Saímos do Fórum e fomos até um hipermercado na cidade para comprar roupinha, mamadeira para passar aquela noite e no dia seguinte podermos sair com mais calma para comprar o enxoval.

Após as compras no hipermercado e fomos à casa de uma amiga nossa que mora no mesmo condomínio… chegando lá apresentamos o João para ela e seu marido e pedimos que ela nos ajudasse com mamá, trocar fraldas, etc… mas nem ela e o marido acreditavam no que estava acontecendo… somente após mostrarmos os papéis do Fórum que acreditaram e foi uma choradeira só… falamos para ela, primeiro nos ajuda depois tu chora… kkkk… então passado o susto, nos ajudou e muito com a sua experiência… e ainda ganhamos algumas roupas (ela tem um filho que na época estava com dois anos) e ela estava guardando as roupas, entre outras coisas para a irmã que tinha intenção de engravidar.

Marcamos para o outro dia pela manhã de ela ir nos auxiliar a dar banho e para nossa surpresa o marido (Jeferson) chegou na nossa casa com o carro carregado com bebe conforto, chiqueirinho, trocador, banheira… enfim ganhamos praticamente tudo o que nosso filho precisaria naquele momento…

Depois fomos apresentar o JV para sua vovó e dindos… no período da tarde tínhamos uma festa de aniversário do nosso sobrinho / afilhado e então o restante da família ficou conhecendo… claro que todos ficaram surpresos, pois ninguém sabia de nada… todo o nosso processo foi feito em sigilo, até mesmo para evitar angústias, cobranças, etc… naquele final de semana ligamos para nossos amigos mais próximos e pedimos que viessem a nossa casa porque tínhamos uma novidade…  quando chegavam aqui em casa era pura alegria e choro e isso se repetiu por todo o feriado…

Acabamos ganhando muitos presentes e fizemos dois chá de fraldas, um na nossa casa e outro na casa do dindo e o saldo foi mais de 1000 fraldas que nos ajudou e muito, mais roupas e acessórios.

Após aquela semana que tiramos folgas para ficar com o JV em casa, procuramos escola para ele começar na próxima semana (pois não tínhamos direito de tirar a licença).

Então começamos a luta pelo direito de tirar licença, mas nos foi negado por sermos do sexo masculino… Então abrimos um processo administrativo no INSS, alegando o que consta na Constituição Federal que todos somos iguais e temos os mesmos direitos e deveres, e porque esse direito nos era negado? E também no ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) consta que toda criança tem o direito de ficar assistido nos primeiros meses de vida… então este direito que estavam nos negando, não era para nós e sim para nosso filho… Imaginem, a criança sai de um lar perturbado onde já foi abandonado, vai para uma casa de passagem, depois para casa dos pais adotivos e acaba indo direto para uma Escolinha, lhe tiram o direito de receber o amor e carinho que os pais adotivos tem para oferecer à criança…

Após 2 anos de recursos e contra recursos, audiências em Brasília (por teleconferência), conseguimos o direito de tirar a licença \o/ \o/ \o/

Sempre deixamos muito claro que nossas lutas são por direitos iguais para todos… porque o nosso filho que tem dois pais não tem os mesmos direitos um casal hétero ou que uma criança que tem mãe?

Sempre exigimos que se faça valer a lei, visto que temos todos os deveres de qualquer outro cidadão como pagar impostos, etc…  não pedimos e nem queremos nenhum privilégio especial para nós ou nosso filho, apenas lutamos para que nosso filho tenha os mesmos direitos que qualquer outro cidadão… e assim vamos lutando e conquistando não somente nosso espaço mas também da população em geral como por exemplo porquê necessariamente o trocador tem que ser colocado no banheiro feminino? Até parece que os homens, no caso os pais, não saem com seus filhos.

Outro ponto importante que conquistamos também foi a agenda da escola que constava nome de pai e mãe… esse ano tivemos a grata surpresa de receber a agenda nova constando somente filiação ao invés de pai e mãe… e sempre deixamos bem claro que essas mudanças são para todos… como faz a mãe solteira, ou o pai solteiro? Eles riscam onde consta pai ou mãe? Ou deixa em branco e não coloca nada? Então filiação atende a toda demanda, sem ofender ninguém.

Quanto a discriminação, graças a Deus, até hoje não sofremos… acreditamos que muito disso se deve a nossa postura perante a sociedade, pois não nos expomos e respeitamos a todos e é o mínimo que esperamos das outras pessoas…. por exemplo, não gostamos de ver um casal hétero se agarrando na rua, então também não fazemos… não pedimos a ninguém que nos aceite, mas exigimos que nos respeitem e é isso que estamos ensinando ao nosso filho no dia a dia… respeitar ao próximo de todas as formas.

A discriminação e o preconceito é algo que o adulto coloca na cabeça das crianças, porque elas são puras… neste caso podemos falar dos coleguinhas de escola do nosso filho, que todos nos conhecem por Pai Rafa e Pai Lúcio e não tem o menor problema com isso… esperamos de coração que esta geração cresça assim, com mais respeito, tolerância, dignidade, sendo mais amáveis e felizes.  Vivendo as suas vidas e respeitando as diferenças de cada um.

O que acontece em algumas ocasiões é que as pessoas, a sociedade em si, não está preparada para esses formatos de família… exemplo: fomos fazer o CPF do JV e não tem como colocar o nome de dois pais… então um fica no nome da mãe… diferente da certidão e RG, onde consta apenas filiação… mas acreditamos num mundo melhor onde todos serão “Humanos e Felizes” por serem o que são.

Participamos sempre de palestras e eventos para encorajar outras pessoas a adotar crianças para tirá-las da vulnerabilidade como nas casas de passagem, abrigos, onde muitas são maltratadas, abusadas, entre tantas outras coisas ruins que acontecem lá (não generalizando)…


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