Perda gestacional e a saúde mental

Por Juliana Benevides – 27 Agosto 2015


A mulher que sofre a perda gestacional pode desenvolver vários problemas de saúde mental. Dentre esses problemas, a ansiedade, a depressão, a compulsão e tendências suicidas são relatadas em alguns estudos da área. A verdade é que o aborto é um tema tabu e pouco se fala sobre isso. Analisando casos clínicos, observando e ouvindo relatos percebo que após esta perda, há uma crise. Uma crise singular, complexa e subjetiva.

O que seria o aborto? O aborto é a perda do feto (de até 500g) que pode acontecer de forma espontânea ou provocada. Representa no Brasil um enorme problema de Saúde Pública e perpassa diversas questões ético-legais, psico-emocionais, sócio-econômicas, culturais, políticas, de gênero e religiosas.

Como acontece? De diversas formas e por vários motivos que nesse momento não são o objetivo deste post, mas o que a mulher sente e como ela é tratada e informada pelos profissionais de saúde é o grande X da questão. o maior questionamento que faço aos colegas da área de saúde é: Na sua formação você estudou algo relacionado a perda, morte e luto? Como você lida com isso? E a resposta vem através das mulheres que narram com teor desumano os detalhes nos casos de negligência, violência e falta de informação vivenciados naquele momento da morte. O momento não volta. As escolhas também não. Ver o feto, poder abraçá-lo ou se despedir com dignidade, fazer ou não um enterro são inquietações que geram transtornos, sérios. Lembranças e memórias que precisam ser ressignificados para suportarem a continuidade da vida e a falta dela. A mulher pode sofrer muito porque planejou e idealizou amamentar, cuidar, vivenciar a maternidade de uma forma que não foi possível. A relação com o marido também pode ter graves prejuízos. Emerge um sentimento de culpa, um culpado, uma razão científica e diversas dúvidas religiosas que consigam abarcar os reais motivos da morte fetal. O desgaste, as discussões, a raiva, a negação, o medo são experienciados e, a depender da relação, esse pode ser o motivo de um rompimento. Como se quebrasse o elo de união e então, a compreensão falta, as decisões geram angústia e a pergunta “qual seria mesmo o motivo da nossa união?” surge fortemente.

Podemos citar que, por exemplo, a relação da mulher com seu corpo pode mudar. A confiança até então depositada naquele organismo que naturalmente deveria proteger e favorecer condições para a vida se desenvolver agora representa um corpo frágil, que não é confiável, que pode falhar, gerando possível insegurança e temor nas próximas gestações. O sofrimento ocorrido pela perda ou tentativa de manter o feto vivo pode ser físico também, há mulheres que ficam acamadas a gestação inteira, privam-se de alimentos, atividades, relações para pouparem a tão desejada gestação sem consequências negativas.

O estresse gerado pela própria sociedade que não está preparada para falar neste momento, como os cumprimentos dados para a família no velório, quando há, com o intuito de confortar são colocados em consultório como confusos, sem sentido e, às vezes, até sem cabimento, gerando mais dor e sofrimento. A família que não consegue ver e lidar com uma mulher “descompensada” emocionalmente e tenta fugir do assunto, muitas vezes, como se o enterro fosse o fim e não o começo.

A desesperança, a dúvida, os pesadelos, os presentes, os sonhos e outras questões que são veladas e silenciadas para não causar mais tristeza. Como lidar? Como reagir? Para quê reagir? Qual o tempo dessa angústia? Perguntas que cabem com tanta frequência, mas sem repostas, porque cada um tem o seu próprio tempo para lidar com cada tópico desses.

Somos pressionados a abreviar o tema. “Morreu? Sim. Pronto, agora acabou! Vida que segue…” e cada um continua normalmente o rumo da sua vida sem poder (ou desejar) falar, sofrer, expressar suas sensações com aquele fato que efetivamente matou o maior sonho de alguém ou de alguns. A queixa frequente das mulheres que sofrem a perda é com quem ela irá falar sobre isso. Ninguém quer falar sobre a morte, poucos querem ficar relembrando. Evita-se “regurgitar” o tema, esquece-se, aparentemente, que não é tão simples quanto parece, mas é necessário para quem vivenciou. E quem vivenciou talvez não poderá esquecer deste momento. Porque ele não aconteceu para ser esquecido ou ele marcou tanto que trouxe outras consequências para a vida da mulher e das suas relações. E essas mudanças podem ter significados para toda uma vida.

Um abraço!


Juliana Benevides Psicóloga CRP 17.844 email: julianabenevides@gmail.com telefone/ whatsapp: 061 9138-3359 consultório: SRTV Centro Empresarial Norte, bloco B, sala 720. Brasília/DF instagram: juliana.benevides facebook: psicólogajulianabenevides

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