Apenas quinze minutos…

Diário da Violência – Por Enfermeira Obstetra Anônima – 2 Agosto 2015


Apenas quinze minutos…

É inegável a situação caótica que se encontra a obstetrícia brasileira. O favorecimento de práticas desatualizadas e não condizentes com as evidências científicas, o descaso no pré-natal e o comodismo financeiro dos profissionais, tornam a prática perigosa. Moramos em um país onde as mulheres morrem de hemorragia, a maior causa de morte materna, e o pior de tudo, uma causa evitável. A negligência a esta situação e a camuflagem na investigação dos fatos permitem que ainda se indique uma cesariana, mesmo quando o parto normal ainda é uma opção.

A hemorragia pós-parto, aquela que matou minha colega enfermeira, é velada no Brasil, e muitas mulheres são submetidas a uma cirurgia sem conhecer devidamente seus riscos e tudo acerca do procedimento, aliás, nós mulheres muito pouco sabemos sobre o nosso corpo, de uma maneira geral. E se eu for uma mulher com poucos estudos, com pouca renda, atrelada aos afazeres dos filhos, casa e marido, sem acesso à internet, com acesso limitado ao sistema de saúde, estarei sujeita aos determinismos e achismos do profissional. Ainda assim, vejo que o pré-natal realizado pelo SUS colabora para uma construção do conhecimento corporal e do trabalho de parto, muitas vezes devido às consultas serem intercaladas entre médico e enfermeiro.

Certa vez discutindo sobre o tema parto humanizado com um colega médico escutei que as mulheres não precisam conhecer o seu corpo precisam saber a quantidade de fraldas que vão ter que utilizar. É dentro deste contexto machista, e patriarcal, que se encontra a grande maioria dos profissionais que atuam na obstetrícia, sejam homens ou mulheres, ou infelizmente médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. A cultura médico-centrada nos tornou incapazes de questionar condutas, refletir sobre o fazer, sobre o processo de saúde-doença. E assim, por décadas a fio, fomos sendo levados por um estigma:

O saber tem dono, tem conselho e não pode pertencer ao senso comum.

E dentro deste contexto, a maternidade é a forma mais materializada da prova do feudo intelectual, domínio de poder e intimidação. Discordar de uma conduta, baseada em cientificidade, parece um absurdo, um desrespeito total a uma classe que já se acostumou a controlar a tudo e a todos. Foi neste contexto que Luciana internou, com 40 semanas e 3 dias de gestação. Estava acompanhada de seu marido dirigiram-se a maternidade simplesmente porque amigos e conhecidos disseram que ela já estava “passando do tempo”. E para tanto, uma cesariana foi indicada.

Mesmo trabalhando em uma maternidade pública, os índices de cesariana ainda são elevados, e o pior de tudo, são dependentes do nome do profissional de plantão, e não de indicações clínicas sólidas e reais.

Quando ela chegou à maternidade, esta estava além de sua capacidade. Haviam quatorze puérperas na sala de pronto atendimento sentadas em cadeiras com seus bebês. Outras esperavam o trabalho de parto em assentos chamados longarinas, outras tantas para curetagem devido a diversos motivos. Eu tinha três cesarianas para encaminhar ao bloco cirúrgico, mesmo não havendo vagas para as respectivas gestantes. Enquanto aprontava Luciana, lhe orientava sobre a cirurgia, seus riscos, como deveria ser um trabalho de parto, as recomendações do Ministério da Saúde, o protocolo de esperar até 41 semanas e três dias e então tentar a indução do parto. Também falava das dificuldades oriundas da recuperação pós cirúrgica, muitos temas a serem abordados em apenas quinze minutos.

Eis então que seu companheiro me pergunta:

– Teríamos então mais cinco dias para esperar entrar em trabalho de parto antes de procurar atendimento?

O bebê com ausculta perfeita, cardiotocografia realizada, bolsa íntegra e mulher saudável respondi:

– Sim.

Em meio as urgências e demandas, entra e sai do quarto, escuto o companheiro de Luciana me perguntar:

-E desproporção céfalo pélvica?

Meus olhos marejaram. Me virei para contemplar aquele homem, de mãos engraxadas, pés cheios de lama da chuva, roupa simples e olhar sereno. E utilizar aquele termo técnico? Pensei comigo:

– Nem tudo está perdido!

Daí discorri sobre a raridade do fato, como acontecia a dinâmica do trabalho de parto, a dilatação, as contrações, como ajudar, como lidar com a dor, o que ler, onde ler, e fui tentando desconstruir tudo o que na gestação havia criado de expectativas e então elaborar um novo processo, que possibilitasse uma escolha justa. Tudo em apenas quinze minutos.

O companheiro de Luciana me disse:

A senhora está iluminando minhas ideias…

Fui chamada para resolver a burocracia dos leitos, as vagas, as escolhas infelizes de quem entra e quem fica, quem ocupa uma cama e quem continua sua espera lá fora. Esqueci de Luciana. O tempo passou, já haviam duas parturientes pós cesarianas aguardando uma vaga que não existia. Eis que saio então a perguntar por Luciana e uma colega no corredor falou:

– Luciana? Aquela que desistiu do procedimento? Pediu para tirar a sonda e o soro dizendo que iria esperar entrar o trabalho de parto para retornar, e a equipe embora indignada liberou devido a lotação.

Luciana partiu. Levou junto com ela a esperança, a autonomia e a vontade de parir. Levou meu desejo de um pré-natal que empodere os casais sobre educação perinatal, sobre como funcionamos, como somos, e sobre o que podemos. Embora tenha sido vítima de um sistema caótico, capenga e que se auto destrói, Luciana me mostrou que sempre podemos ajudar o empoderamento de uma pessoa, respeitar seu corpo, sua dignidade e lhe fornecer conhecimento, assim como, ferramentas possíveis de autonomia.

Ela me ensinou a não desistir mesmo quando estamos na frente de um bloco cirúrgico. Mesmo quando nos achamos impotentes frente a engrenagem da máquina manipuladora. Até mesmo quando não encontramos saída efetiva.

Ainda é possível!

Não importa o tempo, mesmo que seja apenas quinze minutos.

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