UTI e amamentação

Por Teresa Ruas – 27 Julho 2015


Olá a todos,

Ao ler o texto intitulado – Quem dá leite em pó faz o que?, postado em: https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com/2015/06/11/quem-da-leite-em-po-faz-o-que/, uma angústia entrou em meu estômago e, lá, ela residiu- se por algumas longas horas, durante todo o meu processo em recordar como é o dia a dia de uma mãe de UTI Neonatal, a sua relação com o leite materno e com a amamentação. Como resultado, algumas palavras, em forma de um profundo desabafo, tomaram forma de um texto. Resolvi publicá-lo sem nenhum medo dos julgamentos morais que giram em torno da amamentação, pois a essência de toda a minha escrita foi guiada pela minha própria experiência e por algumas cicatrizes em meu coração. Porém, antes, preciso agradecer imensamente a Chris Nicklas do Projeto Amamentar é… pelo lindo texto! Muito obrigada!


A difícil realidade de uma mãe de UTI: não basta ter amor para amamentar

Mãe de UTI Neonatal, frequentemente, após adquirir uma melhor estabilidade clinica- muitas ficam internadas alguns dias na UTI Adulto-, recebem em seu quarto a visita ‘da máquina para tirar o leite’, acompanhada de todas as orientações de como realizar a higiene de suas mãos, mamas e do aparelho para não transmitir doenças/infecções para o seu bebê de alto risco.

Enquanto a maioria das mães recebem como primeira visita o seu próprio filho e, com ele, orientações e tentativas para alimentá-lo, nós mães de UTI Neonatal recebemos a traumática notícia de que é aquela máquina é quem irá abocanhar o nosso mamilo, retirar o alimento para o nosso bebê e estimular a nossa produção de leite.

Bebês de alto risco e/ou prematuros extremos como a minha filha, às vezes, nem terão a experiência de receber o seu principal alimento, no colo de suas mães, sentindo os seus cheiros, abocanhando os seus mamilos, expressando choros de fome e acalmando-se após sentir o sabor e a textura do leite materno em suas bocas. Essas crianças ficam entubadas por meses. Toda a alimentação é dada por sonda. Não existe nenhum contato entre mãe e bebê que caracterize o momento da amamentação e, portanto, para muitas pessoas em nossa sociedade, como o momento que, realmente, expressa a mais genuína forma de amar na primeira fase do desenvolvimento de uma criança.

E nós mães de UTI Neonatal mesmo possuindo a real consciência de que o nosso filho não estará em nossos braços e colos para ser alimentado, por questões clínicas, sentimos uma angústia, um medo, um desespero e uma culpa avassaladora por não podermos oferecer as melhores condições de afeto, de segurança e de carinho para os nossos bebês. Ainda mesmo, que saibamos que a nossa maior expressão de amor em uma UTI Neonatal seja, apenas, a nossa longa permanência ao lado de uma incubadora e todos os aparatos tecnológicos que garantem a vida de nossos filhos.

E diante de um ambiente hospitalar e contexto tão longe do desejado, do imaginado e do sonhado, mesmo assim, nós mães de UTI Neonatal ‘aceitamos’ a dura realidade de tirar o leite com uma máquina. Máquina essa que não gradua, aos poucos, a velocidade para tirar o leite de nossos seios. Máquina essa que não emite cheiros, olhares, toques e aconchego para que você se sinta estimulada, apesar das dores nos mamilos e dos bicos sangrarem já na primeira tentativa de retirada do leite. Sem contar, com toda a vestimenta que somos obrigadas a colocar para que não haja nenhum perigo de contaminação no leite. Temos que tirar a nossa roupa e no lugar colocarmos uma toca na cabeça, uma máscara em nossa face e uma vestimenta esterilizada. Além de toda a limpeza que deve ser realizada na máquina. E toda essa rotina, várias e várias vezes ao dia e durante a noite.

Muitas mães, como eu mesma, mesmo diante da intensa angústia e ansiedade vivenciadas em um parto de alto risco e de experimentarem, bem de perto, a possibilidade de perderem os seus filhos, ficam horas e horas com a máquina abocanhando os seus mamilos, machucando-os e não conseguem sequer tirar 1 ml de leite. E mesmo saindo sangue dos seus seios, ao invés de leite, elas sempre estão lá nos seus horários fixos do banco de leite, realizando mais uma tentativa para o alimento materno descer. Até porque para nós, ter a oportunidade de alimentar os nossos bebês com um alimento que brota de dentro da gente é uma forma concreta da nossa presença para os nossos filhos. É uma forma concreta da nossa ligação com eles.

Meu Deus! Quanta forma genuína, verdadeira e autêntica de expressão e de demonstração de amor aos nossos bebês. Eu me lembro como se fosse hoje das festas que haviam no banco de leite, quando uma mãe conseguia produzir o seu primeiro ‘ml’ de leite, frequentemente, após intermináveis tentativas com a máquina. Eram situações onde a tristeza e o desespero se encontravam com a alegria e a esperança. Mais uma vez… quanta demonstração de amor, de força, de superação, de resiliência individual e coletiva.

Mesmo algumas mães produzindo algumas gotas de leite por dia e necessitando do leite em pó para promover a nutrição de seus filhos, comemorávamos cada gota de leite. Pois em banco de leite, cada gota tem significado de muita superação!

Porém, muitas vezes, era só passarmos daquela porta do banco de leite para ambientes externos, que nós mães ouvíamos, frequentemente, de familiares e/ou amigos: “e ai, conseguiu produzir bastante leite hoje?”; “você conseguiu congelar algum excedente de leite”?…; “porque você sabe o quanto o leite materno pode salvar. Então você precisa fazer o impossível para que consiga produzí- lo e retirá- lo. O seu filho depende disso, também, para viver”.

E todo aquele significado de superação diante de gotas de leite, virava, em questões de segundo, uma culpa avassaladora. Culpa misturada com todos os sentimentos difíceis de estar ali naquela situação. Porque mais do que ninguém, nós, mães de UTI sabemos da importância vital do leite materno. Os nossos bebês possuem o aparelho digestivo imaturo e, somente, o leite materno é capaz de se adequar a essa imaturidade. E não somente isso. Pois, na verdade, os nossos filhos possuem todos os sistemas imaturos e o leite materno possui substâncias protetoras, como, por exemplo, as que protegem e fortalecem a retina – estrutura ocular fundamental para a visão – e o cérebro contra importantes hemorragias. Podem ter certeza de que, nós, mães de crianças de alto risco sabemos que nenhum leite em pó tem tantos efeitos protetivos como o leite materno. Por isso é que muitas mães, imersas no desespero em produzir o alimento materno, lançam mão até de medicamentos para estimular a produção láctea – todos os medicamentos eram sempre prescritos pelos médicos responsáveis-.

E sabe porque do motivo de todas essas perguntas ‘insanas’, sobre a amamentação/produção de leite, que muitas mães de UTI Neonatal recebem? Eu digo e sem nenhum medo: porque vários discursos sobre a amamentação são mal elaborados e ecoam em muitas mães como um discurso aflitivo, ditador e normativo. E quem não vive a dura realidade diária de uma UTI Neonatal, pode até pensar que uma das nossas funções e expressões máxima de amor genuíno ao nosso filho, é passar horas e horas com aquela máquina abocanhando os nossos seios. E fazemos isso sim! Porém, não sabem o que é receber a noticia de que seu filho piorou, de que seu filho, se sobreviver, pode ter sequelas, de que ele necessita de um procedimento cirúrgico para se manter vivo, entre muitas outras notícias… E mesmo diante de todo o sofrimento, inclusive uma das causas psicológicas/emocionais que dificulta a produção de leite em mães de uti, muitos podem achar que não estamos dando o nosso máximo.

Esse discurso de que a amamentação é a máxima expressão de amor a um filho, precisa, primeiramente, compreender o que de fato significa amar. E depois, contextualizar a ação de amar nos diferentes e variados ambientes que uma mãe possa estar e/ou viver. Afinal de contas, esse discurso ao invés de acolher e fortalecer as diferentes realidades da maternidade, é um discurso excludente e, muitas vezes, desrespeitoso.

E não adianta dizerem que em mães de UTI esse discurso deveria ecoar diferente. Não. Não ecoa. Pois , apesar de uma grande maioria de pessoas sentir ‘pena’ de nossa realidade, desfrutamos dos mesmos valores sociais que qualquer mãe e mulher vivenciam. Só que com uma grande diferença. Apesar de nossas intermináveis tentativas com a máquina e de vivenciarmos dores nos seios, com os nossos braços vazios, nossos úteros em choque diante do nascimento prematuro e de nossos corações dilacerados, nunca, como eu mesma, saberei o que é a experiência afetiva da amamentação. Minha filha, após meses e meses recebendo leite pela sonda, não sabia sugar o meu bico, além de não ter condições respiratórias para tal ato.

E ai? Diante de uma situação de extremo sofrimento para mãe e bebê, ainda somos obrigadas a nos sentirmos culpadas e excluídas diante do discurso sobre a amamentação e sua expressão máxima de amor ao filho.

Quanto julgamento moral! Quanta falta de solidariedade! Quanta falta de amorosidade! E diante de tanto julgamento social e cultural as mães de UTI se culpam e se sentem excluídas. E pelo contrário! Deveriam ter muito orgulho de suas resiliências e potências internas, justamente, pela capacidade infinita de amar o seu filho, independente se ele sairá do hospital com sequelas ou não. E para mim, depois de toda a minha experiência como mãe de UTI, amar genuinamente um filho é, antes de tudo, aceitá-lo como ele realmente é, com todas as suas características e particularidades. Isso sim é AMOR! Um amor que não é maior ou menor diante da ausência da amamentação.

E para finalizar, desejo, com muita intensidade, que nossa sociedade possa ser mais acolhedora e menos ditadora com os seus julgamentos morais.

Um forte abraço a todos, até o próximo post, Teresa Ruas

5 comentários Adicione o seu

  1. Larissa Oliveira Machado Damasceno disse:

    Belíssimo texto ! meu bebe nasceu com cardiopatia grave, passei por tudo isso ! E hoje quando saio com ele, as pessoas perguntam e se bebe não mama não? E me olham torto, mau sabe elas de tudo o que passamos !

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    1. Camires disse:

      Oi estou passando por isso minha bebê tem cardiopatia e qria saber qto tempo vc ficou na UTI, é muito difícil

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  2. Elaine dos santos paranha disse:

    Parabéns pelo texto querida…vc contou minha história…com cada letra e póntuacao….chorei pq equando eu lia passou um filme de todo o q sofri….e além do mais não só com a situação de ser uma mãe utineonatal…mais pq apesar de todo sofrimento ainda assim não consegui amamentar…carrego um tristeza profunda…terceiro filho que não consigui…fiz laqueadura…0% de apoio em maternidade!
    ✅sónho não realizado com sucesso!
    BB de 6 meses..mais foi bom reviver tdo obg〽❤👏

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  3. Renata Batista disse:

    Lindo texto.Me veio o cheiro das luvas da minha filha prematura que eu levava para a sala de ordenha.Era o único cheiro dela que conheci por 28 dias até que pude pegá-la no colo.Consegui manter o leite nem sei como e amamento até hoje.Sofri muito durante 71 dias de internamento.A ordenha era manual e dificil de ser realizada,dolorosa.Hoje minha filha está com 1 ano e 4 meses ,é um bebê lindo e perfeito.Obrigada por suas palavras .Um grande beijo.

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  4. Jonas disse:

    Querida, sei muito bem o que tu passou e hj tenho meus dois milagres em casa, meu casalzinho de gemeos… grande abraço e sorte na tua jornada

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