Dando voz ao silêncio

Texto anônimo da nossa colunista enfermeira obstetra


Dando voz ao silêncio
Há muito as mulheres são violentadas. A cultura patriarcal favorece a violência contra os valores femininos, e sua autonomia. Há vários níveis de violência: agressão física, abusos, violência sexual, violência psicológica, e mais atualmente a violência obstétrica. Esta tem vindo à tona, depois de muito sofrimento velado, de mulheres que, caladas suportaram além da dor do parto, a dor das intervenções, ofensas, a separação imediata de seu filho, a solidão do desacompanho, o medo e a culpa.

Quando se aborda o tema violência obstétrica, muitas de nós vão aos poucos identificando fatores em seus processos, e, por meio desta voz dada ao silêncio de décadas, reconstruindo o momento do nascer.

Além da dimensão do processo fisiológico, que foi arrancado da mulher em seu momento mais legítimo, temos a submissão como preponderante no sistema machista que vivemos, onde a mulher é privada de escolher, até mesmo a posição que lhe é mais confortável para parir, em troca de outra, sendo anulada propositadamente de agir, pensar e ser ativa em seu próprio trabalho de parto.

A enfermagem, essencialmente feminina, muitas vezes com percentuais acima de 90 % de mulheres em sua classe, há décadas sofre de assédio moral, caracterizado por piadas e desempoderamento de suas competências, menosprezo pela classe médica, o que a fez, ao longo destes anos, recuar como estratégia de sobrevivência. A enfermeira vem perdendo espaço significativo de atuação junto à área obstétrica, salvo poucas e grandes exceções, como a experiência do Hospital Sofia Feldam, onde podemos atuar em sala de parto, e fazer cumprir as leis e diretrizes da profissão. Mas não é fácil.

A luta constante por reforma no sistema obstétrico vem gerando quedas de braço desgastantes, onde quem mais sai prejudicada é a gestante e puérpera.  No instante em que a enfermeira precisa defender a autonomia feminina no momento do parto, existe então um enfrentamento, onde surgem mais violências e humilhações, e a ameaça de mais intervenções, mais privações e mais silêncio.

Na busca de romper com esta relação velada, escrevo diários da violência, que vivencio trabalhando em uma maternidade. Minha voz busca outras, e é preciso dar vazão à esta força interior, para que encontremos estruturas, apoio e estratégias de romper com este ciclo.

A imagem a seguir é sugestiva de um caso de violência obstétrica, que se perpetua rotineiramente nas instituições, e resolvi compartilhar, tamanho o sentimento de aversão ao modelo atual de práticas intervencionistas, machistas, centradas no poder e na intimidação.

Joana interna na maternidade e aguarda o desenrolar de seu processo. Joana não fazia parte da minha escala de cuidados, mas mesmo assim, ofereci ajuda ao colega, e assim entrei em seu quarto. Por estar com muita dor, sugeri o banho quente. Ela ficou um pouco, voltou para a cama. As contrações fortes e quase ininterruptas. Orientei a respiração profunda, e, ao contrário de outras sugestões vindas, como colar o queixo no tórax e fazer força, lhe disse que só fizesse quando sentisse vontade. Tentamos outras posições, mas Joana só se sentia confortável deitada, ou assim entendia que era preciso ficar. A dor veio forte, e já não podia mais deixá-la. Entre puxos, visualizei a cabeça do bebê para nascer, e foi o tempo que a técnica de enfermagem chamou o médico obstetra, protocolo da instituição (os enfermeiros obstetras são proibidos de atuar em sala de parto).

Este, então, iniciou a manobra de kristeller. Eu, num ato involuntário, segurei a mão dele num impulso, e não conseguia imaginar como poderia ser necessário aquele ato, a um corpo em sua completa competência funcional. É claro, que com esta intervenção, não tivemos um períneo íntegro, e lacerações tiveram que ser suturadas. E então, para realizá-las, Joana escutou:

-Nós toleramos você gritar; nós toleramos você mexer as pernas pra todo lado, agora você tem que ficar quieta.

Esta infantilização da mulher, em seu processo legítimo a rouba tudo o que ela conseguiu até aquele momento, como se não fosse capaz de fazer as coisas do jeito certo.

Segurei firme sua mão entre uma agulhada e outra. Por fim, e como se não bastasse, ele enfiou a mão em sua vagina, à procura de coágulos, inexistentes, uma vez que a placenta saiu íntegra. Entre os gritos de desespero de Joana,  senti um arrepio pelo corpo, como se tivesse presenciado um estupro. E pergunto, em qual artigo, livro ou trabalho científico atualizado encontra-se este procedimento abusivo, doloroso e agressivo?

Ao final de tudo, enfim, o bebê ao peito, nu, chorando, por também ter passado pela violência de ter em suas narinas e estômago, sondas desnecessárias à sua sobrevivência. Tudo o que ele precisava estava ali, sua mãe.

Joana ainda disse ao médico “desculpe”, e abraçou seu filho.

Além de ter seus direitos arrancados, sofrer intervenções, ser machucada e tratada sem respeito, a mulher ainda sente-se culpada, por não conseguir cumprir as ordens determinadas pelo médico. Sente que não fez o que deveria ao ser mandada, e que precisou ser punida.

Assim, o patriarcado resolve seus problemas, e controla o sistema de forma covarde, através de uma cultura, e nós mulheres vamos sendo vítimas de conceitos desestruturados e doentes.

A violência obstétrica hoje institucionalizada, só não sente quem se esconde atrás de falsos mitos e paradigmas, atrás da ostentosa relação médico-profissionais-paciente, e da ilusão de que tudo que é feito é necessário.

É preciso acabar com os mitos; é preciso coragem para o debate e para a discussão científica no local de trabalho; é preciso  questionar os fazeres de 20, 30 anos. É necessário, não só  a paciência  revolucionária, mas a determinação de mudar paradigmas institucionais, através de ferramentas sociais e legais.

Não podemos nos acomodar com o que incomoda. A premissa maior levantada por Florence Nightgaing, de que no cuidado assistencial  “primeiro, não cause dano” deve iluminar nossa assistência. Devemos procurar outras formas em nosso fazer, e buscar a resposta concreta para o que aprendemos. Precisamos dar voz ao silêncio.

4 comentários Adicione o seu

  1. Pâmela Vieira disse:

    Me entristece ver o quanto um ser fazer tanto mal a quem ele deveria zelar. Que monstro e esse que não consegu ter empatia na hora mais importante para uma mae.

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  2. Atma disse:

    Eu sou mais uma dessa estatística de V.O. com o triste fim de alem de sentir me estuprada, ainda presenciar a morte da minha filha depois de não ter sido ouvida, é muita negligência medica, é muita falta de amor, respeito e real cuidado.

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  3. katia disse:

    Como é triste ler esse tipo de relato e saber que isso é institucionalizado por todo o país. Não se pode mais calar.

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