Sequelas psicológicas do abortamento espontâneo

Por Sandra Cunha, Psicóloga da Associação Projecto Artémis – 2007


Sequelas psicológicas do abortamento espontâneo

A gravidez e um momento especial na vida de uma mulher, uma experiência única para a mulher, para o seu companheiro e para a família em geral. Época plena de mudanças e descobertas de emoções e comportamentos até ai desconhecidos, novas identidades, novos significados existenciais e novos papéis.

Momento de gravidez é também gerador de novas exigências e necessidades afectivas em relação aos outros, em particular, ao filho, a quem a mulher se sente ligada desde o inicio por uma relação de dependência mútuo e progressiva.

Segundo a teoria de vinculação, o desenvolvimento de relações afectivas corresponde a um processo psicológico normativo, adquirido ao longo da evolução filogenética e fortemente enraizada no reportório humano.
A figura de vinculação é permanente fonte de segurança para a criança. Quando se sente ameaçada, busca protecção e conforto junto da mãe, revelando comportamentos de vinculação como o aproximar-se, o choro ou procura de contacto.

Tradicionalmente, prevalecia a ideia de que a ligação mãe-bebé é iniciada por altura do nascimento, no entanto, e contrariando a imagem da passividade psicológica da mulher grávida em relação ao feto, é hoje consensual que se começa a formar durante a gravidez uma relação afectiva ao bebé.

Muito antes do nascimento, existe uma forte união, a mãe sente o seu filho como fazendo parte de si e partilhando consigo uma história recheada de experiências e momentos únicos, vividos a um nível íntimo e exclusivo.

A ligação afectiva é fortalecida ao longo da gravidez em particular a partir do segundo trimestre, altura em que os movimentos fetais começam a ser percebidos.

Por vezes a gravidez não corre bem e surge um aborto espontâneo. A impossibilidade de conhecer um bebé que se amou muito pode ser um evento extremamente complicado para a mãe, pai e a família. Quando ocorre a perda de um bebé, surge um período de dor e sofrimento que a mulher tentará ultrapassar. A perda de um filho é um processo de traumático ligado á perda de um objecto de amor.

Enfrentar e ultrapassar um aborto é uma tarefa que coloca em causa o equilíbrio psicossomático da mulher. A maioria das mulheres que sofre de aborto espontâneo consegue ultrapassar a perda, sem sofrer de perturbações psicológicas associadas. Mas o aborto pode ser bastante traumatizante, gerando perturbações psicológicas como a depressão e a ansiedade.

As mulheres que sofreram aborto espontâneo são consideradas um grupo de risco e devem ser acompanhadas se existirem indícios de sequelas psicológicas desse aborto. Alguns dos sintomas apresentados anteriormente são normais no período inicial e fazem parte do processo natural de luto. No entanto, alguns destes sintomas permanecem durante muito tempo, afectando ou comprometendo o regresso à vida normal. Algumas mulheres sentem que jamais poderão ultrapassar a perda.

1. DEFINIÇÃO DE ABORTAMENTO E LUTO

Os diferentes tipos de perda

Morte perinatal
Por um período perinatal entende-se o período de tempo que decorre entre as 20 semanas de gravidez e os primeiros 7 dias após o nascimento.

Morte fetal
Como morte fetal entende-se a perda do bebé no último trimestre da gravidez in útero, englobando neste caso a perda do bebé durante o trabalho de parto.

Perda espontânea
Independentemente da causa médica subjacente, a perda espontânea da gravidez representa uma perda precoce, usualmente nas primeiras 12 semanas da gravidez, de forma repentina e inesperada.

Interrupção médica da gravidez (IMG)
As situações que determinam a IMG estão bem delineadas, do ponto de vista legal. Interrupção até ás 24 semanas de gravidez na presença de doença grave ou malformação congénita; interrupção até ás 16 semanas de gravidez, quando a gravidez resulta de um crime contra a liberdade e auto-determinação sexual (Lei nº 90/97 de 30 de Julho).

Reacções psicológicas

As reacções psicológicas a uma situação de abortamento são múltiplas e não estão relacionadas, linearmente, com o tempo de gestação. Dependem da motivação e desejo da gravidez, do investimento emocional nela depositado e na ligação com o bebé. No entanto, habitualmente, as perdas ocorridas no último trimestre têm maior impacto.

Apesar da variabilidade individual nas respostas emocionais, as mulheres que sofrem uma perda espontânea estão mais vulneráveis a apresentar tristeza, frustração, desapontamento, raiva (em relação às mulheres grávidas, aos médicos, aos maridos) e culpabilização (por acharem não ter tido os cuidados necessários).

São frequentes episódios depressivos em momentos significativos: na data prevista para o parto, em anos subsequentes na data do abortamento, numa próxima gravidez. Também são comuns as perturbações de ansiedade numa gestação subsequente.

Quando estas consequências emocionais se agravam ou perduram no tempo, não sendo resolvidas através dos recursos pessoais ou ainda, caso surjam abortamentos espontâneos repetidos, é necessária intervenção psicológica específica.

Quando estão razões estritamente médicas para a interrupção da gravidez, é possível perspectivar o sofrimento que o processo de decisão gera, sobretudo quando os movimentos fetais se fazem sentir e o nascimento do bebé é já perspectivado pelos pais, familiares e amigos.

Nas situações de IMG é possível que algumas mulheres experienciem arrependimento pelo acto cirúrgico, culpa pela morte do bebé e receio de não conseguir voltar a engravidar.

O Processo de Luto Normal

As perdas experienciadas pela mãe e pai, durante a gravidez ou puerpério geram respostas emocionais específicas, cuja natureza abarca várias manifestações.

Manifestações afectivas

  • Tristeza
  • Solidão
  • Culpa
  • Raiva
  • Ansiedade
  • Apatia
  • Choque
  • Desespero
  • Desamparo

Manifestações comportamentais

  • Agitação
  • Fadiga
  • Choro
  • Isolamento

Manifestações cognitivas

  • Pensamentos de preocupação com a criança
  • Sensação da presença da criança associada a alucinações visuais ou auditivas
  • Baixa auto-estima
  • Falta de memória
  • Dificuldades de concentração

Manifestações fisiológicas

  • Perda do apetite
  • Insónia
  • Queixas somáticas

As respostas emocionais mencionadas estão associadas ao trabalho de elaboração psicológica da perda, conhecido por Processo de luto. Este é um processo de adaptação à perda. É uma experiências profunda e dolorosa, que implica sofrimento, mas também a capacidade de encontrar alguma esperança, conforto e alternativas de vida significativas.

É importante referir que o período de dor e sofrimento correspondente ao luto por uma perda, é normal e deve ser encarado como saudável e necessário. É a sua ausência que merece mais atenção, pois isso pode indicar a presença de uma perturbação psicológica.

Processo de luto normal

As respostas típicas de um processo de luto organizam-se em quatro fases:

  • Fase de choque e negação: surge imediatamente após a perda e tem duração média de 1 a 14 dias. Habitualmente a pessoa não acredita no sucedido, sentindo-se perdida, só e apática. Estão presentes sintomas fisiológicos como a diminuição do apetite, insónias, náuseas e sensação geral de desconforto.
  • Fase do desespero e expressão da dor: é notória cerca de duas semanas após a perda. A descrença em relação ao sucedido desaparece, cedendo lugar à consciência da morte ocorrida. Os sintomas depressivos acentuam-se, havendo a ausência de interesse pelas actividades vitais e a alteração dos padrões normais de comportamento. São frequentes as pensamentos e sonhos sobre a pessoa perdida. Sentimentos como a raiva e a culpabilização quer para si, quer para os profissionais de saúde. Habitualmente esta fase tem a duração de 6 a 8 meses.
  • Fase de resolução e reorganização: caracteriza-se pela recuperação do interesse pela vida, pelo trabalho e pelas relações pessoais. O futuro deixa de aparecer com matrizes tão pessimistas, pois a perda começa a ser aceite, o que atenua os sintomas depressivos atrás evocados. A pessoa chora com menos frequência, os sentimentos de vazio e de tristeza são dissipados, assim como as recordações recorrentes do bebé. Esta fase pode durar semanas ou meses.

A recusa de certas mulheres em procurar apoio, deixando que os sintomas se agravem, pode levar à constituição de quadros clínicos de depressão e/ou a comportamentos aditivos como o consumo de bebidas alcoólicas e/ou medicação não prescrita, entre outros comportamentos de risco.

A recuperação de uma perda exige o activar de recursos pessoais e relacionais, que nem sempre estão disponíveis ou são os mais adequados ao trabalho de luto.

O percurso psicológico que culmina na aceitação da perda e restituição do equilíbrio emocional, é muito extenso, complexo, requer tempo, mas também, muita coragem e resistência.

O Processo de Luto Patológico

As formas não adaptativas de luto podem-se agrupar em quatro tipos:

  • Luto crónico: persiste durante muito tempo e torna difícil o desempenho das tarefas de rotina que integram a vida normal.
  • Luto atrasado: ocorre quando as respostas são inibidas, suprimidas, adiadas ou não resolvidas.
  • Luto exagerado: composto por respostas de intensidade excessiva.
  • Luto mascarado: há presença de sintomas físicos e psicológicos que causam dificuldades ao indivíduo, mas que este não reconhece estarem ligados à perda sofrida.

2. O QUE FAZER FACE A ESTAS MULHERES

Como prestar apoio?

Quando uma mulher passa por uma situação de abortamento não há uma palavra certa que possamos identificar como a fundamental.

No entanto, mais do que o que dizemos, é importante mostrar que estamos lá para ouvir, que sabemos ouvir, que estamos disponíveis.

Mas o que devemos fazer para saber ouvir?

  • Não falar enquanto o outro fala;
  • Evitar movimentos de distracção;
  • Concentrar-se no que a outra pessoa está a dizer;
  • Não interpretar o que é dito;
  • Certificar-se daquilo que foi dito;
  • Mostrar ao outro que se está atento.

Para se saber ouvir deve-se procurar escutar o que é dito com assertividade, para tal podemos recorrer às seguintes estratégias:

Audição com expressões verbais de simpatia

  • Uh,Uh….
  • Sim…
  • Com certeza…
  • Continue…
  • Ah sim…

Utilizar expressões físicas de empatia

  • Sorrir
  • Acenar com a cabeça
  • Jogo fisionómico de acompanhamento
  • Olhar de frente sem fixação intensiva
  • Ter uma postura semelhante à de quem fala

O que não se deve dizer

Cada mulher apresenta características muito individuais, se há mulher a quem apenas um sorriso ajuda, há outras que é necessário uma palavra amiga. Como já referido, não há frases feitas que se possa generalizar como o que se deve dizer.

  • Pelo contrário, há algumas frases que devemos evitar. São elas:
  • Foi melhor assim, havia alguma coisa que estava errada com o bebé.
  • Daqui a uns tempos tentas engravidar novamente.
  • Está na altura de esqueceres.
  • Daqui a uns tempos já nem te recordas disto.
  • Não te deixes ir abaixo, não foste a única que perdeu um filho.
  • Agora tens um anjo para cuidar de ti.

Para além destas, há muitas outras frases a evitar.

Mostrar acima de tudo, que a pessoa não está sozinha, que tem alguém que a compreende e está disponível.


Artigo retirado daqui – http://www.psicologia.pt/artigos/imprimir_o.php?codigo=AOP0106

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2 comentários Adicione o seu

  1. Mariza Souza disse:

    Excelente orientação! A maioria das pessoas tem boas intenções, querem sempre dizer alguma e ou algumas palavras de conforto, mas não existe conforto neste período de “luto”, então realmente o melhor à fazer é “saber ouvir” e tentar demonstrar empatia pela situação… E jamais, JAMAIS, tentar agir como se nada tivesse acontecido.

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  2. RAFAELA disse:

    TUDO EU!!!

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