Sentimentos durante a gravidez

Por Veronica Esteves de Carvalho 09 abril 2013


Sentimentos ambivalentes vividos na gravidez

Durante a gestação, a mulher vivencia sensações e sentimentos dos mais variados tipos. Alguns, comuns e conhecidos, são geralmente compartilhados; outros, no entanto, por serem íntimos, estranhos e até mesmo assustadores, acabam sendo silenciados e/ou escondidos.

A gravidez é marcada pela ambivalência de sentimentos e pensamentos que vêm e vão, independente dela ter sido ou não planejada e/ou desejada: aceitação/rejeição, desejo/não desejo, segurança/insegurança, eu/outro, dependência/independência, potência/impotência, ganhos/perdas e por aí vai.

Invariavelmente, as mulheres são rodeadas por sentimentos que as deixam sensibilizadas e, algumas vezes, ensimesmadas, com uma ponta de preocupação misturada com alegria e/ou euforia e tormentas de medos, ansiedades e angústias. Há mulheres que não sentem nada disso, mas, em maior ou menor grau, vivenciam sensações físicas e emocionais intensas. Muitas gestantes sentem enjoos, aumento de peso e de apetite durante o primeiro trimestre e, estrias, dores nas costas, inchaço, cansaço, azia, sono ou dificuldade para dormir, no final da gestação. A avalanche de hormônios, presentes no processo gestacional, mexe não apenas com seu físico, mas também com seu estado de ânimo, deixando algumas mulheres incomodadas e, muitas vezes, irritadas.

Mas, não são somente os hormônios os responsáveis pela “desordem” emocional vivida pela mulher durante a gestação. Fatores psicológicos interferem no processo gestacional e na maneira como cada uma vai lidar com este momento de profundas transformações. Todas estas mudanças provocam sensações de estranhamento, seja pelo natural e belo, seja pelo sentimento de perda, que balança a autoimagem e a identidade da gestante como filha, mulher, irmã, amiga, esposa e profissional.

Sempre há tropeços, dúvidas e conflitos, mais ou menos intensos, dependendo dos fatores intervenientes e particulares de cada uma – a história de vida passada, presente e as preocupações com o futuro.

As inseguranças surgem e podem estar relacionadas a sentimentos pessoais como perdas e  fantasias de morte e abandono. As lembranças e o passado retornam com força. As gestantes revivem e resgatam os aspectos positivos e negativos de sua infância, avaliam o papel exercido (ou não) pela sua mãe e seu pai e, como filhas, buscam modelos de referência para se tornarem mães.

Muitos medos e angústias vividas na gestação são comuns e recorrentes, como por exemplo, aborto, dor ou morte no parto, problemas com a saúde da mãe e má formação do bebê, machucar o feto no ato sexual, entre outros. As futuras mamães se perguntam: Será que vou dar conta do recado e ser boa mãe, saber cuidar do(s) meu filho(s)? E o trabalho, minha carreira, como ficará? Meu corpo voltará a ser o mesmo? Minha sexualidade e libido continuarão existindo? Meu marido ou companheiro compreenderá e aceitará todas estas modificações e continuará sentindo tesão por mim?

Muitos destes sentimentos inquietantes podem se tornar incompatíveis neste momento tão “especial” de uma gestante, que, muitas vezes, se vê obrigada a demonstrar felicidade a todo o momento, mesmo diante dos desconfortos, do desconhecido e da ambivalência. Algumas emudecem, sentem vergonha e vivem “sozinhas” este momento de impasses, sentindo-se incompreendidas e vulneráveis, aumentando ainda mais seus conflitos. Outras explodem, mas não conseguem nomear o que estão vivendo. Na solidão destas experiências se questionam: Deveria estar sentindo tudo isso?  Verdades e mentiras são constantemente questionadas.

Se as gestantes têm um bom médico, um cônjuge ou uma família estruturada que as acompanham e acolhem, as angústias, dúvidas e inquietações amenizam-se momentaneamente. Mas, logo podem surgir as opiniões parciais, julgamentos, comparações, palpites, cobranças e expectativas sobre a grávida, que podem deixá-la ainda mais vulnerável. Os discursos muitas vezes não estão em sintonia. Entre as amigas, irmãs, tias, avós, mães, sogra e cunhadas, que já tiveram ou não a experiência da gestação, muitos dos sentimentos ambivalentes e fantasias vividos por elas podem ser ocultados ou até mesmo rechaçados, acreditando que esta é a melhor forma de proteger a gestante contra estas sensações e sentimentos dúbios e ambivalentes.

Mas, do que estão querendo preservar a gestante? Quanto mais consciência e informação ela tiver, mais fácil será para ela gerir seus sentimentos e sensações, adaptando-se a esse momento tão singular, sem negar as vivências tidas durante a gravidez, sejam elas gratificante ou desconfortáveis e desarmônicas. Sensações e emoções manifestas ou latentes não devem ser relegadas a segundo plano, pois podem gerar estresse e desgaste emocional, que influenciarão na gestação do bebê.

Quanto antes a futura mãe se deparar com a ambivalência, mais preparada ela estará para cuidar de si e do bebê, sendo capaz de reconhecer seus sentimentos sem se sentir ameaçada, tendo, assim, mais condições de enfrentar as adversidades. Vale ressaltar que estar em “êxtase” constante com a gravidez e só vivenciar sentimentos positivos em relação a ela, não garante uma boa gestação e maternagem. Aliás, muitos destes sentimentos gratificantes são reforçados para encobrir os medos e angústias vividos pela grávida.

Em nossa cultura, é comum reforçar a inexistência do desconforto emocional vivido na gravidez, com conceitos e valores pré-existentes e alguns tabus, inclusive religiosos, enfatizando os aspectos positivos que, independente de qualquer dor, é visto como uma benção. Se há algum aspecto negativo, certamente este não é atribuído a esta mulher, sendo colocado para fora dela. Porém, o que estas mães mais querem é alguém que as ouçam e as compreendam, sem julgamentos e preconceitos, sem cobranças e comparações. Afinal, cada gravidez é uma, o momento é único (mesmo que a mulher já tenha vivenciado outra gestação) e, em muitos aspectos, não pode ser julgada de forma genérica.  O apoio familiar e do companheiro, quando presentes, são essenciais diante das necessidades, não somente física, mas emocionais da gestante. Ao homem e à família – que também são impactados com a gravidez – quando participativos, cabe o acolhimento pela nova condição da mulher.

Em alguns casos, recorrer à ajuda psicológica se faz necessário para que esta grávida possa entender melhor o que está acontecendo e elaborar conteúdos emocionais vividos por ela: alguém que a escute e ajude a perceber, nomear e tomar consciência daquilo que está obscuro e impedindo de viver este momento tão singular e especial. Afinal, cada mulher é única em suas experiências na gestação e ao longo da maternidade.


Texto do site Ninguém Cresce Sozinho – http://ninguemcrescesozinho.com/2013/04/09/sentimentos-ambivalentes-vividos-na-gravidez/

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