Psicose Puerperal, eu tive.

Há 9 meses, no pós parto da minha segunda filha, tive psicose puerperal. Ainda tenho dúvidas, já que meus pensamentos delirantes começaram após um furto em minha casa onde só levaram minhas coisas. O casamento no final e o ex com problemas com drogas, o fez suspeito sem provas.

Enfim, no primeiro dia só me senti invadida em acreditar que um assaltante esteve lá em casa. O ex não quis ficar em casa comigo, dormiu num quarto no quintal, virei a noite só, pensando no furto. No dia seguinte, estava agitada e tentando pôr grades e cerca em casa sem sucesso. Para não ficar mais uma noite sem dormir, fui erradamente para casa dos meus pais, com quem sempre tive relacionamento destrutivo. Lá, meu pai fez diversas violências verbais e machistas sobre o fim do casamento. Numa das brigas ameaçou me matar. Me senti tão desprotegida que aí sim lembro de ter muitos pensamentos delirantes de que meu pai e o me ex estavam armando algo que envolvia até envenenar minha comida. Cheguei a ligar para um companheiro na globo para fazer uma denúncia contra eles.

Amigas do MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) me visitaram e combinamos  voluntariamente uma ida minha ao psiquiatra. Só que isso seria no dia seguinte, porque era um domingo. Ainda assim, passei a desconfiar muito do meu pai, até que uma hora quando ele ficou de quatro perto da minha filha mais velha achei que ele abusaria dela. Nessa hora dei um grito dizendo que ia embora.

Nisso, minha mãe preocupada chamou o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Emergência) e me distraiu pedindo que escrevesse uma carta à ela até a ambulância chegar. Quando os bombeiros chegaram, achei que não fariam nada porque tinha minha filha no colo, mas me imobilizaram e a tiraram de mim. Nessa hora só quis fechar os olhos, achando que tudo ia passar rápido. Lembro de fechar a boca para não ser medicada, ri de nervoso e, pela primeira vez, ‘ouvi’ vozes da minha mãe falando dos 12 passos que frequento (MADA). Só consegui abrir os olhos no corredor do pinel do SUS e gritar o nome da minha filha.

Acredito muito que meu quadro se agravou por falta de assistência familiar. Não sei se chegaria a tantos delírios se, no pós furto, tivesse sido mais amparada. O estigma “ovelha negra” ganhou status oficial de “psiquiátrica”. Um discurso de: “tá vendo, ela sempre foi louca” ecoa até hoje.

Nos hospitais tive mais dois pensamentos delirantes. O primeiro foi o susto de estar num pinel. Até cair a ficha achei que tinha morrido e estava num ‘nosso lar’. Mas passou assim que as cuidadoras aos gritos chegaram. Depois só confiava em coisas escritas. Mas em nenhum dos dois casos falava o que pensava, com medo de choque ou camisa de força. Tive um boa melhora, mas quando estava prestes a receber alta minha família fez internações compulsórias e nisso passei por quatro hospitais psiquiátricos diferentes. E um mês sem ver minha filha de 10 dias.

Enfim, estou em busca de entender o que passei e partilhar a experiência. Já que não acho relatos de psicose puerperal, só artigos científicos.


Para entrar em contato com essa mãe, faça através do seguinte email: maepsicosepuerperal@gmail.com

12 comentários Adicione o seu

  1. mery disse:

    querida, falo de mocambique. sabe cada uma de nois mae ja manifestou psicose puerperal em algum momento, porem nao tivemos atencao e muito menos apoio das pessoas. mas enfim desejo te uma optima recuperacao e volta ao convivio familiar

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  2. tais disse:

    Sofro desse mal tenho pensamentos de matar meu filho desde que nasceu ainda bem que nao perdi a consciencia e nao faco nada de mal me sinto um monstro todos os dias minha gravidez foi turnulenta tenho vontade de mematar mas nao posso deixar meu filho pq o pai e um bruto e judia dele me arrependo de ter engravidado por trazer ele no mundo para sofrer espero superar isso 😦

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  3. Ana disse:

    Eu também passei por isso. Foi muito difícil, horrível, achei que fosse ficar louca, porque para mim foi realmente essa sensação – de loucura.
    Até hoje dói relembrar e durante muitos anos me senti culpada pelo que aconteceu e tinha vergonha, como se eu tivesse ficado doente porque quis. Me faltava conhecimento.
    Fiz tratamento psiquiátrico e terapia, consegui melhorar. Mas o diferencial na minha vida foi a fé, a busca espiritual . Creio que Deus queria que eu aprendesse algo com tudo isso, principalmente a buscá-lo.
    Que legal esse seu relato, me ajudou muito. Espero que você esteja bem

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  4. Érica Quintans disse:

    Querida,
    Obrigada por compartilhar sua história conosco!
    Deve ter sido muito difícil viver esta experiência de estar no Pinel e longe de sua filha. Com certeza sua família poderia ter sido mais compreensiva com você, mas as pessoas, em geral, têm muito medo daquilo que não conhecem, como os delírios, por exemplo. Não aceite este rótulo de paciente psiquiátrica, você é muito mais do que isso! Algumas pessoas têm pressão alta, outras diabetes, pode ser colesterol alto, ou uma psicose. Estas coisas acontecem com pessoas e não com postes!
    Se cuide 🙂
    Grande abraço,
    Érica Quintans – Equipe Temos que Falar Sobre Isso

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  5. Cristine disse:

    Pela primeira vez li algo sobre isso…
    Vivi um terror na minha segunda gestação.
    A falta de comprometimento do pai dos meus filhos; sem o apoio da minha familia me vi sozinha para cuidar das duas crianças.
    Comecei a ouvir vozes, estava sobre carregada com 15 depois de minha filha ter nascido já estava voltando a minha rotina de trabalho.
    Minha filha apresentou um som que vinha da sua traqueia com uns 23 aproximadamente; falei com a pediatra ela disse que não deveria me preoculpar.
    Mais o som aumentou acabei levando no pronto socorro.
    Eles pediram para que ela ficasse em obs, e a medicaram mesmo sem saber a causa.
    Em menos de 6hr. Peguei minha filha em obito na cama.
    Até hj eu me pergunto o que aconteceu…
    Só não enlouqueci por causa do meu filho mais velho que hj tem 6 anos ele é o meu porto seguro.
    Pois se dependesse do pai das crianças e da minha familia eu já estaria morta hj .
    A falta de compaixão e solidariedade com uma mãe no pós parto pode d

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  6. Natalia disse:

    Sei bem o que é isso…munha primeira gestação foi muito difícil, era muito nova, o pai não assumiu, enfrentei muito preconceito…sofri demais,não tive apoio algum,no dia do meu filho nascer, fui sozinha pra maternidade,ninguém foi nos visitar, eu não sabia nem pegar um bebê,que dirá trocar fralda, passei muito aperto…na volta pra casa o pesadelo continuou e foi se agravando, eu só chorava, não me lembrava das minhas roupas,ia tomar banho e saia do banheiro sem ter tomado, tinha medo d tudo…me dói lembrar, mas falhei muito com meu filho ,minha família me ajudou superficialmente, pensavam q era frescura e fingimento…não me levaram ao médico, não me tratei…uns 8 meses após o nascimento do meu filho é q melhorei…minha fé e amor pelo meu filho me curou…hoje ele tem 5 anos e tenho outro filho de 6 meses,dessa vez foi tudo diferente, apoio é tudo…

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  7. Renata Nunes Nawrath disse:

    Triste o que tua família fez contigo. Ninguém surta do nada, sempre existe um disparador. Uma psicóloga uma vez me disse, que por tras de todo doente psiquiátrico existe um familiar que “provoca” as crises. Eu me afastei da minha família, cortei completamente. Estou bem melhor agora. A próxima etapa é o marido, espero conseguir.

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  8. cinthia disse:

    vc pode tc pra mim e eu e-mail cinthiaoliveira@hotmail.com fui vitimada dessa doenca e sei bem do que se trata passo a passo e hj depois de muito tratamento , estudo k estou … te aguardo att cinthia .

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    1. Cinthia, te convido a deixar o teu relato também, poderias ajudar a muitas mães. Um abraço

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  9. Fernanda disse:

    Oii, querida! Parabéns pela coragem de falar pelo que passou! Espero que você é sua bebê estejam grudadas e felizes, não cheguei a passar por algo tão forte, porque tive muito apoio, mas eu tinha um medo sem igual de levarem minha filha de mim… Quando minha sogra pegou ela dos meus braços sem me pedir ou avisar, pensei que tinham me arrancado um pedaço depois disso eu chorava no banheiro toda vez que minha sogra pegava ela… Hoje superei isso no meu caso com muita fé no espiritismo! E eu queria dizer que se você quiser conversar pode me mandar um email! Força!

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  10. Bruna disse:

    Querida, como não sei seu nome, te chamarei assim!
    Teu relato é muito importante para que nós mulheres possamos discutir mais a fundo a questão da assistência ao puerpério.
    Sou trabalhadora da saúde mental em diferentes cidades do Estado de São Paulo e também sou doula. Posso te dizer que estes acontecimentos que relata fogem ao que nos é garantido por lei, e ao que prega a política de saúde mental, Duro é que a gente sabe que e muitos lugares é este tipo de ação, violenta, desumana que ocorre com quem está sofrendo. Violara teu direito como cidadã, como mulher, como mãe!
    Gostaria muito de poder conversar com mais você sobre isso, se você tiver vontade.
    Ofereço meu email para que possamos, se vc quiser, trocar mais conversas.
    brunatano@gmail.com

    Um abraço apertado
    Bruna

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    1. Mãe do Psicose Puerperal disse:

      Gratidão Bruna, enviei um email. Bjs

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